BRASIL E O PROJETO DE MATAR DAVI

O Brasil assassina um Davi a cada 23 minutos

O Brasil, o país mais perigoso para jovens negros, sujeita-os a um plano cruel que os mata ou os abandona à morte. De mesma lógica, o Big Brother Brasil, essa realidade se repete. Com isso, é inegável que é doloroso ver isso na TV, pois mostra a nossa realidade ao vivo. De antemão, assassinato de alguém não precisa ser com um algoz no gatilho. Nesta provocação, a tecnologia da opressão pode desumanizar alguém e deixa-lo com uma arma na mão, para que o faça sozinho.

A violência contra jovens negros é um problema grave no Brasil. Os números são assustadores: a cada ano, 30 mil pessoas são assassinadas, sendo 23 mil jovens negros. A cada 23 minutos, um jovem negro é morto no país, diz a ONU. Essa lógica permeia todas as nossa dinâmicas, e programas de TV não ilesos destas narrativas.

A arte que imita a vida

O Brasil mata Davi ao vender a ideia da democracia racial, uma armadilha para recrutar mão de obra preta precária sem programas dignos de imigração. Mata também quando gera uma classe dominante sem cultura, que ostenta a vida de milionário à custa da empregada doméstica precarizada, muitas vezes uma mãe negra, que pode ser a mãe de Davi.

Mulheres brancas e homens gays brancos muitas vezes tratam homens negros como potenciais agressores, mesmo sem razão. Isso é percebível nas organizações sociais a nossa volta. também se manifesta nas redes sociais e nos programas de TV, como os “reality shows”.

Ver como as pessoas constroem a narrativa em cima de um homen negro jovem e periférico com ares de acaso é chocante. Esta dinâmica desperta até nas pessoas brancas o sentido de justiça. Essa reação precisa sair do comportamento de espectador e materializar a nossa volta, em nossas relações diretas.

Não adianta perceber isso na TV, onde temos acesso a perspectivas privilegiadas da narrativa, se acredito que o entregador de aplicativo é lixo da sociedade. Ao passo que também acredito que estes profissionais são obrigados a subir na minha cobertura. Na retórica de este profissionais que podem ser maltratados a cada entrega. A lógica é a mesma.

Quem tem direito a aprender?

O Brasil também matou Davi ao desumanizá-lo, ignorar suas origens e isolá-lo. Esta desumanização se torna um fardo pesado sobretudo para homens negros periféricos. Homens que a educação decolonial é e será sempre negada.

Edições anteriores mostraram homens brancos adultos cis heteros da classe dominante “aprendendo” sobre o racismo. Uma edição seguinte criou uma narrativa de exclusão com o corpo que simboliza a negação de direitos. Isso é desonestidade intelectual.

Construir uma narrativa que estigmatize homens como Davi, retratando-os como agressivos, é condená-los à morte. Na vida real, a polícia poderia tê-lo violentado ante a voz de uma mulher branca. Prática que o BBB 2024 evidencia: homens negros são estereotipados como agressivos, ao passo que homens brancos ameaçam mulheres sem repercussões de choque. Como disse Lélia Gonzales, brancos são eternos adolescentes e negros são adultos desde a infância.

Quem lembra que na edição passada tivemos um jovem branco com acesso à elite dizendo com tranquilidade sobre cotoveladas em mulheres brancas? Estas mesmas que casam com esses homens mesmo tendo uma ficha extensa de violência.

Não adianta se emocionar porque agora voce já conhece UM Davi, enquanto milhares passam a sua porta, estão deitados nas ruas e você acredita que bala perdida é sinal de justiça social. O Brasil só não tem tem uma maioria de Davis porque o projeto de extermínio é muito competente. E todos nós fazemos parte dele.

O que precisa para ser favorito?

“Já sabemos em que medida a colonização produziu o agressor, acredito já ter passado da hora de o homem negro se descolonizar. Através da punição da lei é impossível a ressocialização de alguém que a sociedade branca nunca quis, do mesmo modo, no âmbito das diretrizes mundiais contra o racismo, podemos dizer que práticas de combate ao racismo institucional não servem para a prisão, afinal, ela nasceu por demanda do racismo” Carla Akotirene em seu livro, Interseccionalidade.

No contexto do Big Brother Brasil 2024, Davi, um participante negro, jovem e seguro de si, precisaria de uma importante característica para ser unanimidade e/com humanidade nesta fase de jogo: ser branco.

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