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Bolsonaro quer uma história oficial olavista

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Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores na Universidade Federal de  Ouro Preto (UFOP) em Mariana, MG

 

Foi publicado hoje, 27/4, no Diário Oficial da União, o veto ao Projeto de Lei 4699/12, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que regulamentava a profissão de historiador. O PL foi aprovado pela Câmara e pelo Senado. Segundo o projeto, poderia exercer a atividade de historiador os diplomados com curso superior, mestrado ou doutorado em História, com linhas de pesquisas dedicadas à história, bem como profissionais diplomados em outras áreas que comprovarem ter exercido a profissão de historiador por mais de cinco anos.
A justificativa do veto de Bolsonaro, a partir de recomendação pelo Ministério da Economia e AGU, afirma que a PL 4699/12 restringe o livre exercício profissional e a livre expressão. A alegação de inconstitucionalidade se deu no último dia do prazo e em meio à guerra política deflagrada pela saída de Moro do governo e à pandemia do coronavírus. O que pode estar por trás dessa ação?
O projeto pretendia garantir a presença de profissionais de história em arquivos, museus e outros lugares de história. Não havia nenhuma tentativa corporativa de criar monopólio de exercício profissional. O projeto regulamentava a atuação desse profissional em espaços onde a história é mobilizada, tendo em vista a lógica de regulamentação profissional brasileira.
O fato é que, independente de um debate filosófico sobre o tema, o que se pode constatar é que diversas profissões que atuam em campos próximos, ou mesmo em áreas próximas, foram em algum momento regulamentadas. Exemplos: arquivista, desde 1976; geógrafo, desde 1979; sociólogo, desde 1980; museólogo, desde 1984.
Ou seja, por que a existência dessas profissões não restringe o livre exercício profissional e a livre expressão? Não se trata, portanto, de inconstitucionalidade. Até porque o mesmo projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados. Na época, a relatora do projeto, a deputada Fátima Bezerra, argumentou que a exigência garantiria a qualidade do ensino: “Quem ganha com isso é o estudante, quem ganha com isso é a educação”, disse.
A luta da Associação Nacional de História (ANPUH) é longa. E, como se vê, vários governos se omitiram nessa questão. Mas, o ponto é: o porquê desse veto agora?
Sem meias verdades: o que está por trás dele é a produção de conteúdo histórico por aparelhos de propaganda olavistas e bolsonaristas. E aí estamos falando de um mercado milionário, em especial, dos livros didáticos para educação básica, comprados pelo MEC.
Em poucas palavras: esse veto pode ajudar a monetizar ainda mais o chamado “Gabinete do Ódio”! Enfraquecendo a ciência histórica os bolsonaristas esperam poder vender sem concorrência suas mentiras acerca de nosso passado e presente, dominando, assim, o futuro.
Como perder esse prato cheio para as fake news e a desinformação? Trata-se, portanto, de mais uma ação do bolsonarismo em sua cruzada para criar uma versão negacionista de uma história única que interessa à sua agenda política. O bolsonarismo não sobrevive sem a negação, a revisão e a manipulação da história, como as manifestações recentes pedindo a reedição do AI-5, com o apoio do presidente nos mostram.
Pesquisa divulgada hoje pelo Atlas Político, mostra que 30% da população ainda aprova o governo de Jair Bolsonaro. E Bolsonaro governa para essa “pequena maioria”. E no interior desse projeto a guerra cultural é peça-chave, pois o bolsonarismo precisa de um ambiente e de novas gerações favoráveis para que o universo paralelo de desinformação mantenha seu público doutrinado e cativo.
O caso Moro mostra que os fatos podem ser distorcidos para se produzir uma narrativa de acordo com a conveniência política do bolsonarismo. À medida que velhos aliados se tornem adversários, suas biografias são reescritas misturando verdades e mentiras, deslocando os fatos de seu contexto e produzindo um conjunto que é simplesmente falso. É um projeto de uma falsa história escrita de acordo com a conveniência dos poderosos, sem fontes, sem crítica, impulsionada por uma máquina de propaganda. O poder de veto das fontes, tão caro aos historiadores e historiadoras, pouco importa.
Uma parte do núcleo duro do bolsonarismo nasceu da comunidade de memória da negação da ditadura. Essa comunidade de memória é especialista em criar simulacros de verdade a fim de legitimar a impunidade, a mentira, abusos e distorções de memória. Para esse tipo fundamentalista a memória inventada da comunidade em si tem mais importância que a verdade, mesmo que ela negue e/ou revise, isto é, que não aceite e distorça a factualidade do que ocorreu anteriormente para os combates do presente.
Não podemos esquecer a exaltação ao torturador Ustra, feita por Bolsonaro, durante a votação do impeachment, em 2016. Nem a sua tentativa de reescrever e reinterpretar a história recente do Brasil. Afinal, dentro (e fora) da “Razão de Estado”, ontem (e ainda hoje) era (e é) possível justificar o injustificável: tortura e assassinatos. A pesquisa histórica contemporânea demonstra que a tortura e a prática dos desaparecimentos foi uma política de Estado durante a Ditadura Militar (1964-1985). E são evidências como essa que o bolsonarismo pretende reescrever em seu projeto de curto, médio e longo prazo.
O veto à regulamentação da profissão de historiador é oportuno para os bolsonaristas, pois contribui para desvalorizar as Ciências Humanas, justificando o corte de bolsas promovidos pelo Ministério da Educação. Esta redução das bolsas não é apenas uma medida econômica do governo, mas também ideológica, visto que o ministro Abraham Weintraub já se manifestou várias vezes em suas redes sociais de modo a destilar ódio contra os estudantes de Filosofia, História, Ciências Sociais, Letras e áreas afins.
A desvalorização de uma história científica e profissional contribui para a profusão de vídeos olavistas como os produzidos pelo canal Brasil Paralelo, no YouTube, que pretendem revelar “uma história verdadeira” de vários aspectos da sociedade brasileira, mas produzindo propaganda política com objetivos de doutrinação, sem qualquer compromisso científico ou profissional.
Nesse momento, toda a sociedade civil que discorda desta iniciativa tem o dever cívico de pressionar seu parlamentar para derrubar esse veto. A regulamentação de uma profissão cria responsabilidades do serviço ofertado à sociedade. Um governo que não acredita na ciência e tem visão privatista certamente prefere as desregulamentações às regulamentações. Não quer correr o risco de ter de responder por seus crimes contra a história.
Cada profissão tem sua especificidade e historicidade. Nem todos são favoráveis à regulamentações profissionais. Mas, no contexto atual, esse veto, como procuramos demonstrar, é antes de tudo político.
Como disse nosso colega de UFOP e professor de História Antiga, Fábio Faversani, “Eu, pessoalmente, era contra a regulamentação. Mas a aprovação da lei que regulamenta nossa profissão é uma conquista não só da categoria (discutida amplamente em um sem número de encontros da Associação Nacional de História e tantos outros), mas também uma salvaguarda da sociedade (na medida em que foi aprovada no Parlamento). O veto a essa lei é mais um ato autoritário e desrespeitoso com a sociedade e com o Parlamento”.
Temos a oportunidade de pressionar a Câmara e o Senado para derrubar o veto, que é um ataque à historiografia científica, aos profissionais da história e a todos/as professores/as que estão em sala de aula em todos os níveis de ensino zelando pelo patrimônio comum que é a história nacional e mundial.

Esse artigo elaborado com a pesquisa e colaboração de Mayra Marques, doutoranda em história pela UFOP. Agradecimentos: Daniel Pinha, Fred Fernandes e Fábio Faversani

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  1. Marcelo Abreu

    27/04/20 at 19:09

    Ótimo texto, resposta imediata ao veto! Em fevereiro The Intercept Brasil fez uma matéria que corrobora a hipótese sobre a reescrita dos livros didáticos (https://theintercept.com/2020/02/10/discipulo-olavo-livros-didaticos-alfabetizacao/) Além disso, as mudanças na composição das equipes de avaliação, preconizda por alteração promovida ainda em 2017 por Temer, facilita ainda mais o caminho da manipulação ao diminuir severamente o papel de especialistas no processo de avaliação e abrindo espaço para escolhas que podem ser feitas por secretários de educação em vez dos professores! Ou seja, o ataque a autonomia do conhecimento – na visão de democracia fascista não há espaço para autonomia – é mais longevo. Para terminar, no ano passado o vai e vem do edital para os livros do PNLEM também indicava, no meu entendimento, mais do que simples incompetência do MEC. O prazo exíguo para as obras que estão sendo escritas pode ter favorecido quem já sabia da direção que seria tomada.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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