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A queda de Queiroz ou como derrotar o Bolsonarismo?

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ARTIGO

Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto em Mariana*

 

A cidade de Atibaia está novamente no centro dos escândalos da República. Um ano e meio depois a pergunta foi respondida: onde está o Queiroz? Será que agora responderemos a uma outra: quem mandou matar Marielle? A queda de Queiroz é simbólica e real. Ele estava sendo protegido por pessoas que frequentam o salão do Palácio do Planalto. Mas, do ponto de vista simbólico ela representa uma esperança para pensarmos sobre a seguinte questão: como derrotar o bolsonarismo?

Pesquisa divulgada essa semana, pelo Instituto Democracia e pelo jornal Valor, coordenada, entre outros, pelo cientista político Leonardo Avritzer, aponta que diminuiu o apoio às ideias golpistas. Ainda assim, o número de apoiadores ao atual governo e a uma possível intervenção militar chama a atenção. Das pessoas entrevistadas, 29% acham que um golpe militar se justificaria em caso de muita corrupção.

A boa notícia é que quase metade dos eleitores de Bolsonaro não avalia o governo como ótimo e bom.

Um dos aspectos que merece destaque, mencionado por Avritzer, é o fato de que 94% dos que apoiam o governo não confiam na Rede Globo. Acreditamos que esse número não seria muito diferente se a pergunta fosse em relação à Folha de São Paulo. Tomando a Globo como uma metáfora da grande imprensa, isto é, da curadoria jornalística de empresas familiares e com interesses do grande capital, devemos nos perguntar: em quais veículos de comunicação os apoiadores do governo confiam? Seria apenas nos canais de rádios e pastores que apoiam Bolsonaro e receberam mais de 30 milhões de reais em repasses? É certo que no ambiente de TV aberta canais como Record, SBT e RedeTV têm funcionado, em maior ou menor grau, como vitrines governistas.

Essas vitrines não agem apenas omitindo ou distorcendo a realidade para reforçar as narrativas que interessam ao governo. De modo mais grave, esses canais promovem valores antidemocráticos em uma variedade de programas que misturam notícias, marketing e entretenimento atualista sem qualquer responsabilidade pela qualidade jornalística das informações. Do programa do Ratinho, no SBT, ao de Sikera Jr., na RedeTV, os setores populares são entretidos por uma teia formada por violência, preconceito, exploração religiosa e mentiras. A recente aprovação pelo Congresso Nacional para que esses canais possam novamente promover jogatinas disfarçadas de sorteios é a cereja do bolo.      

Considerando que para cerca de 25% a 35% da população brasileira a produção de realidades paralelas, isto é, de fake news, é a principal fonte de notícias, podemos afirmar que uma significativa parcela da sociedade constrói suas opiniões e toma decisões fundadas em desinformação.

Essas notícias simuladas são replicantes, no sentido de que uma vez liberadas na websfera sua disseminação é descontrolada. Promovidas em diversas frentes, desde as mídias tradicionais até as diversas plataformas da Internet que democratizaram e tornaram imersivas a produção e distribuição da desinformação em tempo real e sem interrupções, as notícias simuladas e replicantes acabam por tornar muito caro e ineficaz a sua eliminação. Claro que tudo isso ocorre por nossa incapacidade coletiva em criar barreiras institucionais à sua disseminação, ao contrário, socialmente não paramos de premiar e remunerar seus veículos. 

Assim, as chamadas fake news são muito mais do que mentiras ou simulações pontuais. Ao contrário, elas são a produção de todo um pacote, um ambiente, um sistema alternativo, onde você pode viver. É o ambiente da desinformação. Um lugar e uma comunidade onde as coisas são simuladas sem compromisso com o regime de verdade que é a base das democracias modernas, desde sua invenção no século XVIII.

Afinal, uma característica da fake é que ela é uma mentira que funciona, simulando, confundindo e substituindo a notícia real e seus contextos. Ainda que o termo desinformação seja mais preciso, é a ideia de fake news que hoje é partilhada e vivida por todos e todas. É a ideia que exprime um dos nossos dramas. E como superá-lo? O que fazer frente esse dado de nossa realidade, isto é, as fake news? Associado a isso, como derrotar esse projeto de barbárie baseado em fake news?

Em nossas reflexões, temos chamado a atenção para o necessário reconhecimento da força do bolsonarismo como fenômeno político e social no Brasil contemporâneo. E, por isso mesmo, precisamos nos perguntar também como derrotá-lo.

A resposta passa pelo fortalecimento dos democratas que vivem em nosso país nas suas mais diversas matizes ideológicas, em especial, no centro, na centro-esquerda e na esquerda brasileira. Em outras palavras: como fortalecer a esquerda, a centro-esquerda e o centro, bem como as frentes amplas que vêm se formando?

Como ponto de partida achamos que isso deve ser feito a partir do que disse essa semana a jornalista Tereza Cruvinel, quando afirma que não é o momento de julgarmos o papel do judiciário e do STF em sua conivência, para dizer o mínimo, com o lava-jatismo e com o Golpe de 2016: “Se formos acertar contas pelo retrovisor, deixando que trucidem o Judiciário, seremos levados todos juntos pelo vagalhão autoritário”.

O pacto que forjou a permanência da Lei da Anistia mostra o quão perigoso pode ser essa perspectiva. Mas, em momentos de emergência, é preciso acordos amplos e provisórios. No entanto, eles não podem apagar e silenciar o passado, mas ser possibilidade de construir outros futuros, repensando, inclusive, o modelo de conciliação que fracassou. Precisamos assumir a responsabilidade de viver em um tempo verdadeiramente paradoxal e agitado, isto é, atualista. Porém, sem um mínimo comum será muito difícil construirmos uma um país mais justo.

E como fazer isso? Uma possibilidade passa por formas concretas de equilibrar a assimetria de forças que hoje existe entre a máquina de comunicação bolsonarista e as estruturas competitivas, organizadas por forças partidárias, movimentos sociais e setores da mídia tradicional.

Esse equilíbrio de forças, na luta pela comunicação, passa por, pelo menos, duas frentes de luta. A primeira é um esforço de compreender e combater as formas e estratégias ilegais, mobilizadas pela máquina bolsonarista, ou seja, a sua identificação, punição e regulação.

Nessa frente é preciso cobrar, expor e combater tanto as empresas que se beneficiam da máquina de fake news, quanto os diversos sujeitos políticos e sociais que usam do poder econômico para movimentar essa máquina e esses recursos. O STF não vai fazer tudo. Ele por si só é incapaz de defender a nossa democracia. Precisamos discutir e tornar essa luta um programa de ação com reivindicações concretas e bem definidas.

Por exemplo, as grandes empresas precisam ser reguladas na forma como usam suas verbas de publicidade para promover ideologias e visões políticas particulares. Assim como fazemos um esforço legal permanente para controlar o abuso do poder econômico nas eleições, precisamos pensar em formas concretas de regulá-lo também na guerra cultural permanente que vivemos.

Nessa frente de combate temos muito a aprender com o ativismo digital, renovado a partir de uma agenda progressista que denuncie e combata empresas e empresários. Isso, além de cobrar das autoridades constituídas a criação e a execução de leis que regulamentem esses abusos.

Como segunda frente, é preciso admitir que os setores emancipatórios ainda não conseguiram se apropriar das ferramentas legítimas e legais, abertas por esse momento de avanço tecnológico nas formas de comunicação.

É preciso reconhecer, em primeiro lugar, que tanto os partidos políticos quanto as associações da sociedade civil, no campo emancipatório, ainda não foram capazes de se apropriar integralmente das novas ferramentas de comunicação digital. Portanto, é urgente compreender as causas que levam a essa dificuldade, mas, antes disso, reconhecê-la.

Em outras palavras, não é só atribuir o sucesso e/ou certa estabilidade do bolsonarismo apenas à manipulação das fakes news e ao uso de robôs. É preciso reconhecer que houve um intenso trabalho de formação de um exército de ativistas digitais, assim como o engajamento de pessoas comuns que se politizaram a partir dessa nova forma de fazer política controlada pelo bolsonarismo. Essa formação articulou de modo eficiente espaços sociais analógicos e digitais, desde a loja maçônica das pequenas cidades até os grupos de WhatsApp organizados com disciplina e tecnologia.

Tudo isso está intimamente articulado com as atuais transformações do capitalismo contemporâneo, em especial, com as transformações do mundo do trabalho que vem produzindo centenas de trabalhadores informais (precariado?) e desempregados. Partes desses órfãos vivem às margens do Estado e da proteção social. Alguns, inclusive, consideram-se empreendedores. Como afirma Guy Standing: “No modelo neoliberal, o desemprego tornou-se uma questão de responsabilidade individual, tornando-o quase “voluntário”. As pessoas passaram a ser consideradas como mais ou menos “empregáveis” e a resposta foi torná-las mais aptas para o trabalho, atualizando suas “habilidades” ou reformando seus “hábitos” e “atitudes””.

Incorporar parte dessas pessoas ao campo progressista é um desafio necessário. Nessa direção, num terceiro plano de possibilidades o campo emancipatório precisa construir pontes, assumindo de antemão seu compromisso antirracista e antipatriarcal, entre as diversas agendas e demandas que atendem à política da diversidade, em torno de uma efetiva agenda para a maioria, o que deve passar pelo necessário viés interseccional, ou seja, considerar as dimensões de classe, raça e gênero que estruturam as opressões. Hoje, em grande medida, é a direita e a extrema-direita que monopolizam o discurso da maioria. São elas que se colocam como representantes da voz da maioria do povo brasileiro.

Ao lado disso, é preciso rever a relação do campo progressista com a nação, com os símbolos nacionais e com a história nacional, o que pode implicar na proposição de uma agenda positiva em relação à nação, no sentido de se criar novos heróis, heroínas e símbolos, por exemplo. Em outras palavras, precisamos de novas formas de celebrar a nossa história comum. Do contrário, a direita e a extrema direita continuarão a monopolizar os símbolos de solidariedade, como vêm fazendo com a camisa da seleção brasileira, e ao construir suas histórias paralelas.

Ainda no plano regulatório, mesmo que reconhecendo as dificuldades políticas da sua execução, é preciso, também, enfrentar o problema do abuso de poder por parte dos conglomerados de mídia, de grandes grupos corporativos e empresariais, e das corporações religiosas, que hoje exercem, no Brasil, um poder econômico, político e cultural com regulação fraca e obsoleta. Por outro lado, é preciso algum tipo de aliança com parte desses setores com vistas à produção de um país menos desigual e combativo em relação à produção viral de realidades paralelas.

Sem renovar e atualizar as regras do jogo político, para restaurar algum tipo de equilíbrio e paridade de forças, essas corporações, nacionais e internacionais, continuarão no seu trabalho de destruição das estruturas do Estado liberal, já que o Estado tornou-se o grande adversário para a continuidade de seu projeto de acúmulo de poder corporativo. Sem nenhum tipo de recomposição de forças esses setores continuarão a enfraquecer e a saquear a riqueza coletiva acumulada, ao longo dos séculos, nos estados nacionais.

De algum modo, o campo progressista, os grandes conglomerados de comunicação e o Judiciário e parte do Legislativo têm, agora, um inimigo comum: as fake news. Não sem razão, muitos têm celebrado algumas edições do Jornal Nacional.

Não custa retomar: o sucesso das fake news se explica, em grande parte, por elas serem um substituto funcional da verdade. Um substituto funcional que imita a verdade, imita seus efeitos e pode ser usado como plataforma para avançar agendas que distorcem o interesse coletivo. As fake news funcionam, isto é, entregam para as pessoas aquilo que geralmente elas esperam de uma informação verdadeira. Ao mesmo tempo, grupos de interesse trabalham nas suas sombras para avançar agendas particulares. Certamente a turma de Paulo Guedes não toma decisões baseadas na guerra cultural do bolsonarismo, mas a utiliza como agitação e distração, como bem ficou demonstrado pelo amplo apoio popular à última reforma da previdência.

Portanto, sem abdicar da necessidade de uma política de segmentação e atendimento de direitos de vários grupos sociais, o campo emancipatório precisa reunir essas demandas em uma nova forma de representar, falar e formar maiorias, o que inclui, também, nesse momento, em construir acordos provisórias com certos setores dominantes e parte da classe média que havia abandonado a agenda progressista. Também envolve ter um programa de ação que atenda às novas configurações de classe, ao precariado, ao pequeno empresário, ao trabalhador precarizado, que pode ser branco ou negro, que hoje tem sido capturado pelo populismo de direita para pautas regressivas. Esse alargamento da agenda é uma das formas de dar consequência à demanda interseccional.

Sem algum tipo de aliança, dada a urgência do momento que vivemos, o combate ao universo paralelo do bolsonarismo ficará sempre fragilizado. E ele se atualiza a todo instante. Nós somos os obsoletos nessa guerra de trincheira digital. Nessa direção, é preciso reconstruir, no discurso e na prática política, o lugar do Estado e das políticas públicas, em  nome de projetos de futuro que superem e atendam as demandas sociais concretas que hoje se multiplicam.

Esperamos que a simbólica prisão de Fabrício Queiroz nos motive a enfrentar o positivo e necessário processo de repactuação para que a vida democrática, assentada nos valores da Constituição de 1988, permaneçam vivos e atualizados.

(*) Autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem.

Esse artigo contou com a colaboração de Mayra Marques, doutoranda em História pela UFOP

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2 Comments

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  2. HÉLIO CEZAR TEODORO

    19/06/20 at 7:04

    Uma coisa importante neste momento no sentido de derrotar o bolsonarismo, entre muitas outras coisas, cmo foi salientado no artigo acima, penso eu, é tentar quebrar o apoio de Trump ao Presidente Bolsonaro, lembrando aos americanos e principalmente ao Biden que Bolsonaro é cria do Trump. Este fracasso social, humano, sanitário, etc., que representa o governo de Jair Messias, cuja percepção é planetária, só aconteceu em virtude da intervenção dos americanos na política interna brasileira, e lógico que neste momento não interessaria a Trump se ver associado a tão grande catástrofe política e humana, e que caso Biden pudesse explorar na sua campanha, possivelmente faria Trump retirar seu apoio ao Bolsonaro, e isto acontecendo a sua fragilidade ficaria exposta e então estaria eliminada a principal dificuldade para removê-lo do poder.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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