A POSSE, COMO CULTURA

Augusto Boal (in memoriam 2002) nos lembra a importância da ocupação das ruas e espaços públicos pela cultura. E por meio dela, transmitir pelos sentidos - e não só pela razão - a transformação de palavras e promessas.

Augusto Boal

No dia da posse, devemos decretar a prorrogação da Primavera por quatro anos ininterruptos.

Em todas cidades e em cada povoado, cada um de nós deverá dar vida à sua Imagem do Sonho.

O Projeto Cultural do Governo Lula deve resplandecer desde o primeiro dia, desde a posse!

Lula falou contra a fome e a favor da solidariedade dos oprimidos: devemos transformar, em arte, suas palavras. Temos que estetizá-las.

Estetizar significa transmitir pelos sentidos e não apenas pela razão.

Lula falou palavras: temos que mostrá-las como sólidas, palpáveis e beliscáveis.

Temos que teatralizá-las, pintá-las, esculpi-las, cantá-las, torná-las concretas, fotografáveis, filmáveis.

Como fazer? É muito simples!

Primeiro: em todas as praças de todos os povoados do país inteiro, vamos realizar Feiras Culturais com as quais, desde manhã bem cedo, antes que fuja a noite – desde a primeira luz! – vamos acordar o sol com orquestras, bandas e blocos; pintores e escultores; artistas de circo e teatro, bordadeiras, poetas e repentistas, corais e solistas – ao ar livre, em vielas e descampados, todos em sincronia, nas cidades e nos campos, todos nós, em toda parte, vamos mostrar nossa arte. Vamos saudar o dia!

Segundo: em praças e ruas, o povo deve instalar mesas improvisadas, com toalhas limpas e lindas – mesmo que sejam de papel de embrulho, bordadas com tesoura e lápis de cor – para as quais deve trazer pão e comida, e dividi-los com Amor.

Terceiro: isto é importantíssimo – todos devem estar comendo na hora da posse do Presidente Lula! No ato do juramento, quando ele disser – “Eu Juro!” – todos, no país inteiro, todos ao mesmo tempo, devemos levar à boca alimento, e mastigar com bravura, pois acabar com a fome ele jura: juremos juntos, comendo, juremos o mesmo juramento! O brinde ao seu governo deve ser mastigado com ganas e com verdade.

Devemos ser companheiros – comer o mesmo pão, coletivo. Em nossa mão aberta, oferecer, ao próximo, comida.

Quarto: a população deve dar o que tiver de descartável em suas casas e possa, a outros, ser útil: sapatos, roupas, móveis, espelhos, panelas, livros, quadros, violões e reco-recos, quaisquer objetos que tenham serventia, que saiam do armário e venham todos à luz do dia. Dar e trocar!

Quinto: para essas Feiras, devem ser convidadas comunidades estrangeiras que vivam no Brasil, para que tragam sua dança, música, comida – vamos dialogar.

Sexto: após a posse, em ruas e praças, todos os esportes serão praticados; pingue-pongue, jogo de malha e peteca, bola de gude, pulo de corda e carniça, voleibol, basquete, luta romana e grega, corridas, ginástica, trapézios… Tudo é Cultura.

Sétimo: em uma tribuna visível, cidadãos terão direito a três minutos de fala para fazerem propostas de governo, que deverão ser levadas a sério, às Câmaras, analisadas, votadas. A sério, que com a lei não se brinca!

Enquanto em Brasília dura a festa, no Brasil vive a alegria. Depois, vamos dormir mais cedo: o Dia da Posse será prenúncio e mostra do Mandato Popular – será proclamado o Dia da Cultura.

Estamos sonhando, é verdade, e o nosso sonho é sonho. Mas, se hoje sonhamos, é porque temos agora o direito de sonhar o sonho verdadeiro: hoje, sonhar não é proibido: sonhar é possível. Sonhar… não é sonho.

Sonhemos! 🙌🏽✨💖✨🌻

(Augusto Boal in memoriam, 2002)

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