A mercantilização do ódio

A cultura do medo como política

Por Laís Vitória Cunha de Aguiar

A cultura do medo. Nosso Brasil, com uma cultura aberta e acolhedora, está se consumindo em um ódio que não nos pertence. É sim ‘emprestado’ do Estados Unidos, país com uma taxa de aproximadamente 40 000 mortes por armas em 2018, segundo The New York Times.

Barry Glassner, sociólogo norte-americano, explicita em seu livro A Cultura do Medo o conceito que remete ao título de sua obra: como o medo é usado para alcançar metas políticas ou/e econômicas.

Os Estados Unidos, segundo pesquisa do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) órgão suíço que pesquisa sobre a paz, Estados Unidos possui metade das 10 maiores empresas de armamentos do mundo. Entre as 100 maiores indústrias bélicas do mundo, apenas uma é brasileira (Embraer), e ainda assim ocupando uma posição bem insignificante, de 84 lugar.

Portanto, quem lucra com a venda de armas? Estados Unidos. Quem lucra com a criação de guerras, como foi o caso do Iraque, do Afeganistão, da Síria e tantos outros locais? Estados Unidos. Quem provavelmente fabricou as armas que levaram as mortes em Suzano? Estados Unidos. Quem fabricou a arma que matou Marielle? Quem lucra com a morte?

A mercantilização do ódio, todavia, é mais profunda, e está enraizada nos meios de comunicação, que banalizam a morte por meio de programas de TV cujo foco é a violência, e a consequência é o medo. Bauman, em seu livro Estranhos a Nossa Porta, conta como a aversão ao diferente é construída socialmente e politicamente, de forma que uma pessoa muito pobre, excluída pelo sistema, acredite piamente que pode perder o pouco que tem se abrir as portas de seu país para cidadãos apátridas, com culturas diferentes da sua.

Não só as empresas bélicas lucram com o medo: as empresas de segurança também lucram, e muito. Segundo pesquisa do The Guardian, mais de 40 países (como Estados Unidos, China, Canadá, Austrália, Reino Unido) tem mais seguranças privados do que policiais. Pela pesquisa do jornal no Brasil há entre 570 mil a 1 milhão e 675 mil seguranças privados, enquanto a força policial é estimada entre 318 mil a 687 mil. Quem está mais seguro, a população ou o capital?

Desastres como de Suzano, em São Paulo, são consequências de uma educação para o medo, resultado de falas como de Bolsonaro, que promovem o ódio a minorias como mulheres e população LBGTi. É resultado sim de uma política neoliberal econômica, que traz um ‘sentido de insegurança existencial’, segundo Bauman é ‘uma genuína desgraça de nossa sociedade, que se orgulha, pela boca de seus líderes políticos, da progressiva desregulamentação dos mercados de trabalho e da ‘flexibilização’ da mão de obra, e assim, por conseguinte, reconhecida por propagar a crescente fragilidade das posições sociais (…) e pela expansão incontrolável das fileiras do precariado.’

No documentário Tiros em Columbine, um dos casos de violência relado é de um menino de seis anos que mata uma outra garota da mesma idade, simplesmente porque estava morando na casa do tio, onde havia uma arma pequena, a qual ele pegou e levou para a escola. A mãe do garoto não poderia ver a arma que levava, já que estava a caminho de seu turno de 70 horas de trabalho. Nos Estados Unidos, além da facilidade em se comprar uma arma, os sistemas de segurança social são privados. É como se ao invés de termos o Bolsa Família tivéssemos uma empresa contratando os membros da família para trabalhar a 160km de casa, em cidades mais ricas. Mesmo trabalhando esse tanto a mãe do menino ainda perdeu sua casa, por não conseguir pagar, e teve que deixar seu filho na casa do irmão, que tinha uma arma. A previdência social americana também é privada, o que significa que essa mãe irá trabalhar até morrer, deixando seus filhos sozinhos no mundo enquanto trabalha em três empregos diferentes. É isso que a reforma da previdência irá trazer ao Brasil, e não duvido nada de que o objetivo final desse governo não seja privatizar os sistemas de seguro social.

A mãe desse garoto era negra. Aqui no Brasil a maioria dos assassinatos tem como vítimas jovens negros, entre 15 e 29 anos. Dentro da mercantilização do ódio, nós temos o comércio do corpo negro. A indiferença está atrelada ao ódio, e o preconceito é o ódio dos que temem o diferente. A esperança, porém, está nas Angelas Davis, nas Djamilas Ribeiro, nas Carolinas Maria de Jesus que lutam todo dia para sobreviver e criar um novo amanhã. A liberdade é possível, apesar de ser, como disse Angela Davis, uma luta constante. Marielle vive!

Edição Marina Azambuja

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Um comentário
  • Inácio da Silva
    15 março 2019 at 14:27
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    Não faça tanto esforço para politizar, de forma rasteira, uma tragédia…Para sua reflexão: no Brasil 60000 pessoas são assassinadas por ano…33.3% a mais que o número citado para os EUA…sim nos EUA o governo não tutela tanto os cidadãos como aqui…que não vêem o governo como um “pai provedor” com dinheiro infinito, como aqui…mas se é um lugar tão ruim…porquê tanta gente quer ir viver lá?

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