A mão invisível do Paulo Guedes e a destruição da economia brasileira

Enquanto todos olham os crimes explicitados na reunião do ministério e a imprensa se divide entre isso e a pandemia, o ministro da economia segue livre pra botar a granada no bolso do inimigo: o povo brasileiro

Montagem: Linton Publio para matéria no site do Sindicato dos Bancários de São Paulo - https://spbancarios.com.br/05/2020/o-desprezo-de-paulo-guedes-pelo-banco-do-brasil-e-pelas-pequenas-empresas

Por: Licio Caetano do Rego Monteiro*

Vocês ouviram o que o Weintraub falou do STF? E a Damares sobre os governadores? E o Araújo sobre a China? E a intervenção na PF? E os palavrões do Bolsonaro? Um show de horrores, todo mundo se abraçando e o Paulo Guedes… pá! Coloca uma granada no bolso do inimigo! O inimigo, no caso, somos nós.

Essa é a mão invisível do Paulo Guedes. O ministro mais aloprado do Bolsonaro é o que menos apanha nos jornais e TV. Quando acordou no dia seguinte, depois de saber que era Paulo Guedes no comando e não o fajuto “plano Marshall”, o mercado aliviado, mandou avisar aos jornalões: “avisa aí que acordei tranquilo”. Ora, direis, ouvir mercado? Sim, o dólar baixou, a bolsa subiu. Isso significa em mercadês: “o mercado acordou tranquilo”. Nas redações existem aqueles que escrevem sobre mercado, previsão do tempo e horóscopo. Nem sempre acertam, mas não deixam de escrever.

De todos os aloprados do governo, o Paulo Guedes é o único que não é apresentado como tal. Ora, é a voz racional, que pensa nas contas. Ora, é a voz da ousadia, dos arroubos de sinceridade, um capitalista agressivo, instintivo. Mas não há dúvidas lançadas sobre ele. Nem mesmo sobre sua capacidade em fazer o que promete. Nem espanto quanto ao casamento explícito entre o liberalismo e o autoritarismo, que ele advoga constantemente, desde sua influência chicago-pinochetista.

O vídeo da reunião ministerial é um exemplo em que podemos notar duas coisas. A primeira é que o Paulo Guedes subiu na goiabeira e viu o livre mercado numa epifania. A segunda é que nem que aparecesse com a cueca no lugar da máscara ele seria questionado pela grande mídia e pelas vozes do “mercado”.

Vamos então decifrar o grande projeto apresentado há exatamente um mês, quando a pandemia já corria todo o mundo e o Brasil. Ele diz que a retomada do crescimento só viria pelos investimentos privados, turismo, abertura da economia e reformas. Que não caberia voltar a uma agenda de trinta anos atrás, com investimentos públicos financiados pelo governo, que foi o que a Dilma fez durante trinta anos (sic!).

Se o mundo for diferente, teremos capacidade de adaptação: colocar 1 milhão de jovens aprendizes recebendo R$ 200 para bater continência, aulas de OSPB e abrir estradas. Eis nossa capacidade de adaptação.

Cassinos! Chamados aqui de resorts integrados, para não espantar. Atrair bilionários, executivos do mundo inteiro para fazer convenções e jogatina. O exemplo é o de Cingapura, cidade-estado que atrai milhões de turistas por ano – abstrai-se o fato de que está localizada num centro financeiro e de exportação industrial que gera uma circulação de milhões de magnatas ao longo do ano. Mas Angra dos Reis viraria a Cancún brasileira. Cada bilionário deixaria no cassino brasileiro o dinheiro ganho no dia anterior – ganho aonde, ele não explicou. “Ô Damares, deixa cada um se fuder!” Venha se fuder em Angra dos Reis, poderia ser o slogan da campanha. Critério: ser bilionário, vacinado e maior de idade. Não entra nenhum brasileirinho lá – os brasileirinhos provavelmente estarão ganhando R$ 200 por mês no quartel.

Ele recebeu um recado do embaixador dos EUA: vamos colocar centenas de bilhões de dólares no Brasil, mas precisavam de um “bom ambiente de negócio”. O Braga Netto traduziu: segurança, segurança… (Talvez pudesse ter dado o exemplo de quantos bilhões de dólares entraram no Rio de Janeiro quando ele assumiu a intervenção federal na segurança).

Guedes diz: aprovamos a reforma da previdência e vamos seguir a agenda de reformas. Já leu oito livros sobre cada episódio de “reconstrução” da Alemanha pós-I Guerra e II Guerra e do Chile, de Pinochet. A conta é de mentiroso, como sua estante de livros entrega.

O Braga Netto ouviu na OCDE que eles já consideram o Brasil dentro. Depois repetiu que “estamos com o apoio do Trump”. Guedes diz: “o Brasil vai surpreender o mundo”. “Nosso presidente é democrata e vai fazer as mudanças”. E que o Brasil está sendo elogiado no exterior. Diplomacia do tapinha nas costas, enquanto a fuga de dólares corre solta desde o ano passado.

Guedes diz: não vamos perder a bússola, vamos derrubar as torres do inimigo: excesso de gastos na previdência, juros e… salário dos servidores. Não tem jeito de fazer impeachment se estiverem com as contas arrumadas.

Guedes diz: a China e a Índia precisam comer e o Brasil vai vender soja pra eles. É a trading da água. Eles não têm água, vão ter que abrir mão da agricultura para fazer outras coisas, e aí nós exportamos para eles. Falta dizer do que o Brasil estará abrindo mão para se concentrar na exportação de alimentos para a Ásia – provavelmente seguindo o caminho de abandonar todas as indústrias e serviços de maior agregação de valor, o que, convenhamos, já vem de algumas décadas.

Guedes diz: somos um urso hibernando, quando acordar é sair pra comer o primeiro bicho que passar. Não vamos perder o rumo. Pode botar peruca loura, passar batom vermelho, mas não vamos perder o rumo. Estou passando uma mensagem de tranquilidade. Se fosse um piloto de avião enunciando essa mensagem no microfone, certamente seria uma continuação de Apertem os Cintos…

Resumindo: R$ 200 por cabeça pra 1 milhão de jovens trabalharem nos quartéis, cassinos para bilionários, vender comida para China e Índia, botar granada no bolso do servidor público, ter o apoio de Trump, passar batom vermelho, não perder o rumo, transmitir tranquilidade. Era pra ser mais chocante que um tuíte do Weintraub, um discurso do Araújo ou um vídeo da Damares. Mas é o “homem do mercado”, o cara a ser protegido, a voz da razão.

Os militares se escondem evitando a cena principal na frente das câmeras, o Guedes fala as maiores asneiras, mas é sempre tratado como o “normal” da sala. Até um dia que vai ser revelado como o alfaiate dos tecidos invisíveis, quando o rei estiver nu em praça pública. Mas não contem com a grande mídia para apontar o dedo ao óbvio.

*Professor de Geografia Humana, UFF-Angra

Categorias
ArtigoCoronavírusDemocraciaDestaquesEconomiaEconomia para TrabalhadoresfascismoGeraljornalismoMídiaOpiniãoPolítica
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

AfrikaansArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchGermanItalianJapaneseKoreanPortugueseRussianSpanish

Relacionado com