A manipulação midiática e seus efeitos na política

Como a oligopolização da mídia no Brasil está destruindo a importância histórica da imprensa bem feita na defesa da democracia e dos direitos para todos

A premiada jornalista Eliane Brum postou hoje em sua página no Facebook uma foto da manifestação #EleNão de ontem (29/09) no Largo da Batata em São Paulo criticando a imprensa nacional por não repercutir adequadamente, em capas, manchetes, editoriais e tempo de TV e rádio, o fato jornalístico mais importante do dia.

E assim passamos a compreender melhor porque boa parte da parcela que teoricamente seria a “mais bem informada” da população decide votar numa candidatura que representa o atraso, a misogenia, o racismo, a LBTfobia… uma candidatura que segue enaltecendo assassinos e torturadores. Na verdade, essa parcela da população NÃO está bem informada. Ela tem se alimentado de uma mídia oligopolizada e partidarizada que finge uma isenção inexistente. Estão saturados do veneno que consomem em doses mais ou menos homeopáticas diariamente há décadas. Primeiro, acreditam no que leem, em fábulas hiperbólicas como o “maior escândalo de corrupção da história do mundo”. Em seguida, percebem que algumas “informações” são distorcidas, e passam a desacreditar dos grandes meios de comunicação e a apontá-los como tendenciosos de posições políticas às vezes totalmente contrárias às provadas historicamente.

Revista britânica que defende o capitalismo e o liberalismo econômico há 175 anos tem sido chamada de comunista pelos bolsominions

Nessa fase, o jornalismo e os jornalistas perdem a posição histórica de mediador confiável entre os fatos e os leitores. A terceira fase é a que vivemos atualmente: somente as “notícias” e “informações” que combinam com minha visão de mundo, com meus preconceitos, com a minha própria ideologia são válidas. Não importa de onde venham, quem produza e se têm ou não a mínima conexão com a realidade objetiva. Podem vir do grupo de WhatsApp da família, da Veja ou do MBL. Da The Economist, Le Monde, Estadão, Globo ou Folha. Quando se chega nesse nível, é inútil mostrar atos, falas e mesmo vídeos de agressões do “coiso” a mulheres, negros, LGBTs e à própria democracia, por exemplo. Tudo passa a ser uma “invenção da mídia comunista”. Do mesmo modo, é impossível convencer com fatos, dados, números, que o Brasil cresceu, se desenvolveu, distribuiu renda e riqueza, diminuiu o desemprego e se tornou importante ator global por 12 anos seguidos em meio à maior crise no coração do capitalismo desde a quebra bolsa de Nova Iorque em 1929, a quebra do Lehman Brothers em 2008 (Mas não acredite em mim, veja o que a BBC publicou em 2016, já em meio ao processo de golpe de estado: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru ou o Nexo https://www.nexojornal.com.br/especial/2016/09/02/10-%C3%ADndices-econ%C3%B4micos-e-sociais-nos-13-anos-de-governo-PT-no-Brasil ). Se você tenta, é acusado de “cego-doutrinado-idiota-seguidor-de-um-bandido-que-deve-mamar-nas-tetas-do-estado-mas-essa-boquinha-vai-acabar”.

Muito desse cenário é, de fato, responsabilidade dos governos petistas que NUNCA tiveram a coragem de enfrentar os oligopólios midiáticos na crença vã de que com o crescimento econômico também dos mais ricos a elite perceberia que poderia lucrar mais, mesmo com a diminuição da miséria. Os governos petistas ignoraram que a luta de classes não é apenas econômica, é também ética e cultural. A classe média remediada só pode se sentir elite (o que não é) se houver uma distância cada vez maior das classes abaixo dela. Não adianta poder ir pra Paris em classe econômica pagando em 10 vezes no cartão. É preciso que o porteiro, a empregada, a filha do pedreiro NÃO POSSAM usar o mesmo avião, o mesmo saguão do aeroporto, a mesma sala de aula na universidade (esse “fantástico” texto da Danuza Leão, em 2012, não me deixa mentir https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/80046-ser-especial.shtml).

Obviamente, se você disser isso a um já adepto do coiso, provavelmente vai receber como resposta um meme com a frase “é bom jair se acostumado”, ou algo do tipo. Não há argumentação. Não se discute os fatos. Não se mostra comprovações. Mas há, sim, um antídoto para isso. É possível vencer a manipulação midiática saindo das bolhas das redes sociais e indo pras ruas conversar com quem sente, na ponta, os efeitos das políticas públicas. Oxalá os jornalistas voltem a fazer isso. E os veículos entendam a armadilha que montaram para si próprios com a oligopolização. “A resistência à manipulação é construída a partir da informação anterior, vinda da vivência, da memória ou do conhecimento do contexto. Sem a instalação dessas imunidades na consciência do receptor da comunicação, sua contaminação pela versão manipuladora é instantânea” (Ciro Marcondes Filho – Ser jornalista – Paulus 2009)

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3 comentários:
  • Samuel Marcos da Silva
    30 setembro 2018 at 21:47
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    Texto corrigido. Obrigado, leitores!

    A grande mídia está desorientada

    A grande mídia está desorientada. E é fácil perceber isso. Primeiro não sabe o que fazer com Bolsonaro. Segundo porque não sabe como impedir a volta do PT. Terceiro porque não sabe como impedir a influência das redes sociais na disputa.
    Bolsonaro virou o elefante na sala da grande mídia, que não consegue se posicionar a favor do capitão e, com isso, traçar um plano para elegê-lo, nem se posicionar contra, para tirá-lo da disputa. A grande mídia flerta com Bolsonaro, assim como este flerta com a ditadura e com um sistema de governo extremamente autoritário. E então fica o impasse: se apoiar, vai de encontro aos valores democráticos que a grande mídia diz ser defensora; se não apoiar, core o risco de ver o PT voltar ao poder e, dessa vez, tornar-se um verdadeiro inimigo dos abusos cotidianamente cometidos pelos grandes meios de comunicação.
    Haddad surpreendeu até mesmo seus partidários, ao herdar significativa parte dos votos que seriam de Lula. E a grande mídia não esperava por isso. Esperava que Alckimin subisse nas pesquisas e polarizasse a disputa com Bolsonaro. Como só o Alckmin não vê, ele não irá para o segundo turno. E agora Haddad, que nunca foi muito querido, nem pelo próprio PT, nem pela grande mídia, postou-se não como um poste, mas como um candidato que pode levar, sim, o PT à vitória no segundo turno. E a grande mídia não sabe o que fazer pra impedir o crescimento do PT, já que tudo que podia sujar a imagem do PT já foi feito, e mesmo assim Lula continuou com um capital político nunca antes visto neste país.
    Por fim, as redes sociais se mostraram mais influentes do que a grande mídia esperava. A Folha tem o UOL, a Globo tem o G1, a Record tem o R7, e outros grandes grupos têm seus correspondentes na internet. Mas o tráfego quase insano de opiniões e manifestações diversas no Facebook, no Twitter e no Instagram propiciaram uma incrível campanha, realizada em apenas três semanas, e deram, aos eleitores, um novo e ainda desconhecido poder para influenciar outras pessoas, sem que a grande mídia fizesse parte do elenco principal. A grande mídia se tornou coadjuvante. Tanto que as grandes redes de TV trataram de forma periférica as maiores manifestações populares desde 2016, realizadas ontem, 29.09.2018, com o #elenão. Mostraram as manifestações de quinhentas pessoas como se fossem iguais às de cinco mil pessoas. Poucos ângulos, nada de informar antes a agenda e os locais das manifestações, tanto contra quanto pró-Bolsonaro. Simplesmente perdida ficou a grande mídia diante do #elenão! Esse movimento colocou a grande mídia no chinelo, mostrando que um novo poder foi dado, agora sem qualquer dúvida, à sociedade, aos cidadãos, aos eleitores. Basta lembrar que a força eleitoral de Bolsonaro se concentra muito nas redes sociais. O PT também é forte nessa seara, além da herança deixada por Lula para os mais pobres. Alckmin não decolou, apesar de vasto tempo de TV e da base partidária. Meirelles gastou mais de quarenta e cinco milhões de reais, e não saiu de 1%. Há algo novo no horizonte da construção de campanhas eleitorais. E nem a grande mídia, com tantos comentaristas talentosos e humanamente parciais em suas avaliações, nem a Academia, nem os próprios eleitores conseguem descrever com precisa racionalidade o que é esse novo e como lidar com ele. Sabe-se, apenas, que não tem nada a ver com o Amoêdo, do Novo.

  • Evaldo Lima
    1 outubro 2018 at 10:13
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    Vinicius Souza, parabéns!
    Você falou tudo! Muitas pessoas deveriam ler essa matéria. Estou começando a ler o livro “A Elite do Atraso”, de Jessé Souza, e o livro tem certa relação com o que você comentou. Também recomendo o livro. Vamos em frente pessoal. Mantendo o diálogo e, acima de tudo, o respeito.
    Boa semana!

  • Evaldo Lima
    2 outubro 2018 at 8:19
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    Samuel,
    Muito bom o seu texto. Concordo plenamente com o mesmo. Como precisamos de reflexões lúcidas como essa a respeito do que está acontecendo no Brasil.
    Como seria bom se a população tivesse acesso a informações do que realmente ocorre em nosso País. Não as informações truncadas e parciais que a grande mídia traz todos os dias para os nossos lares. Um dos problemas do Brasil é a mídia tradicional, formada por grandes conglomerados, que com o objetivo de manter os seus interesses e de seus amigos coloca-nos em xeque.
    Abraço!

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