A grande imprensa quer pautar a campanha de Lula

A mera defesa da soberania (popular e nacional) já embrulha o estômago dos donos dos principais veículos de comunicação do país

Por Rudá Ricci, cientista político

Uma simples declaração de Lula foi recebida como um petardo pela grande imprensa brasileira. É verdade que há certo elemento de invídia, dado que a declaração se deu à revista Time, onde Lula figurava como destaque de capa. As capas favoráveis a Lula são raras na grande imprensa. Em abril, o Manchetômetro destaca que nas mídias tradicionais, a liderança de interações ficou com a página da Jovem Pan News, seguida pela página de Rede Globo. Pois bem: a página da Jovem Pan News, em especial, o programa “Os Pingos nos Is” tratou, segundo o levantamento realizado por esta iniciativa da UERJ, “de forma bastante crítica ao ex-presidente Lula e também elogiosa a alguns pré-candidatos a governadores e deputados bolsonaristas, como o ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP)”.

É uma constante. A grande imprensa não aceita de maneira alguma a liderança popular de Lula.

Mas, o que Lula disse à Time? Lula afirmou que o presidente ucraniano Volodmir Zelenskyn seria “tão responsável quanto (Vladimir) Putin” pela guerra em seu país, a Ucrânia. Lula foi além e responsabilizou também a União Europeia e os Estados Unidos pela guerra em curso.

A declaração foi sensata – se alinhou com a posição sobre o tema assumida publicamente pelo Papa Francisco -, mas a grande imprensa brasileira está alinhada com os interesses dos EUA que orienta a ação da OTAN. A linha editorial alinhada aos interesses dos EUA sugere que a guerra contra a Rússia se justifica porque este país teria invadido a Ucrânia. A Rússia, de fato, é dirigida por um governo com nítidos traços fascistas e se baseia numa concepção diplomática expansionista. É fato de fácil comprovação. O ministro da Cultura da Rússia que desfecha um ataque à “arte gay”, é declaradamente homofóbico e Putin o saúda, afirmando que seu governo defende os valores tradicionais da cultura russa.

Sergey Karaganov, cientista político russo que dirige o Conselho de Política Externa e de Defesa, é antimarxista e prega uma orientação eurasiana, ou seja, a unidade cultural e política de todo mundo eslavo que conforma esta região entre Ásia e Europa. Chegou a empregar um conceito formulado por Hitler, o de “destruição construtiva”, tese nazista de quando ocupou a França. Vai longe: afirma que “o mundo exterior oferece à Rússia cada vez mais oportunidades geopolíticas para o desenvolvimento de médio prazo. Com uma grande exceção. A expansão da OTAN e a inclusão formal ou informal da Ucrânia representam um risco para a segurança do país que Moscou simplesmente não aceitará.” E, completa com uma frase de efeito ao estilo de outro assessor polêmico (Alexandr Dugin): “O Ocidente está a caminho de uma lenta, mas inevitável decadência”.

A guerra na Ucrânia não é um mera defesa de território. A OTAN realmente desrespeitou acordo realizado por Gorbachev no início da década de 1990. Mas, a questão é mais complexa. Dugin liderou o ataque às comunidades georgianas em Ossétia do Sul para provocar uma guerra entre a Geórgia e a Rússia, num declarado interesse de anexação, como já realizado na Criméia. Não há santo nesta guerra. Os dois lados têm interesses expansionistas e destilam propostas de direita ou extrema-direita.

Vejamos o caso do governo Ucraniano. O famoso Batalhão Azov é uma milícia de extrema-direita com conexões com o neonazismo, com membros usando símbolos e insígnias neonazistas. Em 5 de maio de 2014, foi oficialmente constituído e passou a fazer parte oficialmente da Guarda Nacional da Ucrânia, após receber convite do Ministério do Interior. Não é a única milícia de extrema-direita que se vinculou ao governo ucraniano. O então ministro Arsen Avakov controlava as milícias, entre 2014 e 2021. Era ligado ao líder do Azov e acompanhava os treinamentos militares e doutrinamento de crianças. Já o C14 obteve da prefeitura de Kiev autorização para atuar como uma “guarda municipal” em 2020.

Enfim, apoiar um dos lados nesta guerra é apoiar um governo com traços fascistas ou apoiar o outro governo, com traços nazistas. No recheio, os EUA e a OTAN, que jogaram fora um acordo de não anexação de países do Leste europeu. Um declarado interesse expansionista, de defesa dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA paira sobre essa guerra.

Lula, então, foi sensato. E qualquer democrata se espelha imediatamente nesta declaração.

Contudo, a grande imprensa não aceita um governo democrata no Brasil. Aceita apoiar governos ultraliberais – que mantenham os interesses das nossas elites em meio à desigualdade social que campeia por aqui e que, segundo a ONU, faz do Brasil o sétimo país mais desigual do mundo – ou fascistas. Mas, não aceita uma linha soberana, independente que desfeche uma diplomacia determinada para defender os interesses nacionais.

Há um componente emocional nisso tudo. A grande imprensa brasileira era jogador nas eleições presidenciais do nosso país. Por “jogador”, estou afirmando que fazia campanha e influenciava os resultados eleitorais. Ninguém se esquece da manipulação do última debate, em 1989, entre Lula e Collor. Lula chegou a receber pedido de desculpas do maior veículo de comunicação do país, tempos depois. Acontece que nas eleições de 2006, algo mudou. Algo muito importante.

Nas eleições de 2006, a reeleição de Lula enfrentava uma ofensiva moralista que resvalava na chantagem do seu impeachment. Mais tarde, o deputado Roberto Jefferson daria o nome para esta ofensiva: “mensalão”. Acontece que Lula venceu as eleições e se reelegeu. Foi uma eleição surpreendente e, ironicamente, disputada entre o líder petista e Geraldo Alckmin. Em relação ao primeiro turno, Lula conseguiu virada em três estados (Rondônia, Acre e Goiás) e no Distrito Federal. Alckmin não conseguiu virar o resultado para si em nenhum estado. Foi demais para a grande imprensa.

A partir daí, nunca mais a grande imprensa conseguiu eleger quem desejava. Não queria Dilma, não queria sua reeleição e apoiou Alckmin em 2018. Em nenhuma dessas eleições, desde 2006, conseguiu emplacar seu apadrinhado político.

Os editores de política da nossa grande imprensa – ou imprensa tradicional ou empresarial – ficaram cada vez mais amargos. Souberam que o eleitor majoritário, pobre, se desgarrou daquele conceito anglo-saxônico do “formador de opinião”. Por este conceito, o eleitor popular seguiria a opinião da classe média, os formadores de opinião de massa que teria como destaques as profissões liberais (médicos, advogados, pequenos empresários, dentre outros) que são ouvidos ou contratam os trabalhadores de baixa instrução. Formaria, assim, uma cadeia de transmissão e convencimento político. Todavia, esta linha de transmissão e convencimento desabou de 2006 para cá.

Vou procurar calibrar esta observação. A grande imprensa ainda pauta o debate nacional. É um importante jogador político. Mas, não consegue mais garantir a vitória do presidente da República escolhido por seus donos e editores. Isto porque a desumana e vergonhosa desigualdade social aparta o Brasil de maneira aguda. Com os governos lulistas, o desencanto com a política por parte dos mais pobres foi alterada. Muitos pobres e trabalhadores perceberam que nem todos os políticos agem da mesma maneira. Presidente da República pode alterar positivamente sua condição de vida. Foi essa a mensagem subliminar. Muitas pesquisas captaram esta mudança de percepção popular no Brasil.

Uma pesquisa que se tornou livro (“Vozes do Bolsa Família”, de Walquíria Leão Rego, publicado pela Editora UNESP) revelou nitidamente esta mudança. Mulheres pobres que receberam o Bolsa Família diziam que todos os políticos são iguais, mas Lula tinha sido pobre, o que o fazia diferente do resto. Havia uma leve identidade de classe, um espelhamento da condição de marginalizados e sofredores. Lula, na visão dessas mulheres, já tinha sentido fome e desalento, não percebia com nitidez um futuro melhor como elas e seus filhos e, assim, tendo poder, esta memória ativa sua consciência e determina um governo diferente dos outros.

Esta identidade de classe bate como um martelo em ferro frio nas editorias de política da grande imprensa. Primeiro, porque esta imprensa não foi pensada para chegar lá nos grotões e não fala com o “Brasil Profundo”. Segundo, porque a agenda nacional que a grande imprensa defende é a da manutenção da desigualdade social. Finalmente, Lula se torna uma figura fugidia para suas garras e interesses. E esta eleição parece reforçar essa relação escorregadia.

Lula parece mais maduro e acessível. Escolheu o velho adversário como vice em sua chapa. Prega a reconstrução nacional. Diz que vai engolir seco os ataques, ofensas e injustiças que sofreu. Este é o Lula da aproximação. Contudo, Lula também diz que revogará muitas leis e decretos impostos pelo alto empresariado durante os governos Temer e Bolsonaro. E dá entrevistas à imprensa internacional afirmando que não se alinhará aos interesses dos EUA.

Um candidato assim tem algo de anúncio de humilhação para os donos da grande imprensa nacional. Porque os coloca para dançar. São dois pra lá, dois pra cá todos os dias. A grande imprensa brasileira não engole essa toada. Ela definia o que ouvir e como dançar. Agora, não consegue mais determinar este ritmo.

Lula não é um sinal de mudança radical da vida no Brasil. Mas, a mera defesa da soberania (popular e nacional) já embrulha o estômago dos donos dos principais veículos de comunicação do país.

Fazer chacota do STF e ameaçar apoiar um golpe de Estado é motivo de uma notinha aqui ou acolá. Mas, falar que o Brasil não vai ser quintal dos EUA e que não aceitará uma guerra por expansão de território é motivo de desespero. Uma desgraça. Esse é o ponto para as opiniões e críticas à declaração de Lula na Time.

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