A encruzilhada da esquerda brasileira

Se você coloca gente na rua e não ocupa espaço na disputa pelo poder, vira paisagem, não assusta ninguém. É neste ponto que estamos

Por Rudá Ricci, cientista político e presidente do Instituto Cultiva

Lula estaria eleito se a eleição fosse hoje. O cenário é cada vez mais favorável: polarização consolidada com Bolsonaro, com queda de popularidade do presidente atual. O cenário econômico é tão desastroso que joga por terra até mesmo as esperanças bolsonaristas e empresariais da projeção do final dos riscos maiores da pandemia com a vacinação completa de quase metade da população brasileira.

Na outra ponta, a terceira via parece sufocada pela movimentação de Lula e pela polarização. A cada pesquisa, a terceira via aparece mais nanica.
Quanto à esquerda, bem, a esquerda precisa começar a planejar seus passos a partir da montagem de cenários, sendo que o mais sólido no momento é a vitória de Lula. Neste momento, parece aquele jogador que não pega na bola.
Se Lula caminha para apresentar uma candidatura de centro, assumindo altos riscos em relação à composição de seu governo, o papel da esquerda brasileira seria justamente provocar o debate público sobre o programa de governo e a composição dos ministérios. Em outras palavras, tem que ser hábil o suficiente para se projetar como poder real, dado que a fase de ser organizador de manifestações de rua já passou. Agora, é hora de entrar em campo como jogador da construção da superação do bolsonarismo e governo de Bolsonaro. É preciso saber influenciar e pressionar a mudança para o rumo que interessa à esquerda.
Então, relembremos: o cenário atual indica que os dois polos principais da campanha de 2022 já estão azeitando suas armas. Bolsonaro tenta rearticular sua base fanática nas redes sociais. No Telegram, já conquistou 1 milhão de seguidores. No campo lulista, as movimentações são mais complexas. A rapidez com que está negociando as alianças eleitorais e o próximo governo chega a confundir. Mas, Lula não apareceu com fotos ao lado dos movimentos sociais e organizações populares para negociar. Lula, é verdade, já convidou Franklin Martins para dirigir sua campanha nas redes sociais. Uma sinalização importante sobre o grau de profissionalismo e agressividade que deve assumir neste campo da disputa. Contudo, o programa e a composição de um provável governo Lula são incertos. As sinalizações sugerem uma capitulação aos interesses do alto empresariado tupiniquim. Luiz Gonzaga Belluzzo já saiu à campo e disse que a nova Carta ao Povo Brasileiro é para o povão.
O programa, então, está em disputa e se a esquerda deixar Lula continuar a se movimentar sem qualquer contraponto, podemos ingressar num perigoso campo de incertezas já em 2023. Porque é preciso combinar os cenários com os russos, no caso, com a oposição fanática bolsonarista.
Se Lula atrair, mais uma vez, o alto empresariado brasileiro para comandar a política econômica, o preço será alto. Com uma novidade em relação à 2003: Bolsonaro agitará para desestabilizar o país. Estará nas ruas provocando, esticando as cordas ao máximo.
Se o cenário que estou apontando (alto empresariado ditando a política econômica do novo governo Lula e Bolsonaro procurando desestabilizar o país) tiver sentido, o alto empresariado e o Centrão terão um prato cheio para negociar espaços e vantagens. Lula terá que ceder.

‘Fora Bolsonaro’ pode politizar a disputa – Foto de Vera Bolognini

O cenário que estou desenhando não é nem de perto garantido que se realize e é, certamente, um dos mais negativos que podemos desenhar para o país e para Lula. Assim, o papel da esquerda é diminuir ao máximo a chance dele se consolidar. E como fazer isso? Se tornando, a partir de agora, um jogador respeitado no jogo de xadrez.
A entrada da esquerda no jogo como “player” que estou sugerindo não é de oposição à candidatura de Lula, mas de influenciador na construção de seu programa e composição de governo. Para tanto, precisa ser mais agressiva.
Imagino que alguns devem estar perguntando: que esquerda seria esta? Respondo: as mais de 600 entidades que compõem a campanha Fora Bolsonaro e que lideram as manifestações anti-bolsonaristas desde maio deste ano. Este bloco tem as ruas nas mãos, mas não assumem a liderança política. As entidades do Fora Bolsonaro aparecem, hoje, como uma espécie de eminência parda. Estão lá, todo mundo sabe que existem, mas ninguém viu o rosto e nem sabe muito claramente o que projetam para o Brasil. Sabem o que não querem, mas não o que querem. Sem que mostrem sua cara, sua identidade e seu projeto, não se apresentam como jogadores. Ficam ausentes do jogo de poder. Permanecem como um grilo falante ou, no máximo, uma ameaça ou repreensão ao governo federal.
Contudo, se entram em campo para valer, atraem a atenção de Lula. Na pior das hipóteses, Lula terá um elemento a mais para negociar com o “lado de lá”. Terá a ameaça, o grilo falante, como uma carta no bolso do colete.
Se o Fora Bolsonaro galvanizar a disputa pelo futuro do país, politiza a disputa. Se avançar ainda mais um pouco e abre negociação sobre a composição de governo, ampliará a lógica da tal “nova Carta ao Povo Brasileiro”. Isso é jogo de poder. Adrenalina e risco.
Timing. Essa percepção do tempo político – do momento da jogada – é fatal em toda disputa de poder e construção de alternativas. Se você coloca gente na rua e não ocupa espaço na disputa pelo poder, vira paisagem, não assusta ninguém. É neste ponto que estamos.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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