Uma puta maré branca

O Café com Muriçoca de hoje traz "uma puta maré branca". Nela, Dinha subverte a linguagem racista e problematiza o genocídio negro a partir do nosso idioma.
Uma puta maré branca: Por que o senhor atirou em mim?
Por que o senhor atirou em mim?

Por essas e outras, o anúncio da nova série me encheu o saco. É que eu ando numa puta maré branca: sufocante, pastosa e letal

“Crucificado na escola pela cor da pele
Sem nome, ele era o neguim (ae, neguim)
Sua infância sangrou e o vermelho escorria
Até pelo boletim”.

Histórias reais – Inquérito

Hoje eu topei com a notícia de que a Amazon vai lançar uma nova série, chamada “Operação Maré Branca”, com  o até então ator global Bruno Gagliasso e Leandro Firmino (cujo nome já foi “Zé Pequeno, porra!”). Eu sei que o nome da série não é exatamente esse, mas eu não ligo, por que o nome de Leandro nunca foi Zé Pequeno e o de Fernando não era Pixote.

E se o país tem o direito de usar o termo “negro” como sinônimo de coisa ruim, de estereotipar jovens negros, atores, a partir de suas personagens, e até de matar Fernando Ramos da Silva, como se ele fosse o menino Pixote, do filme de Walter Salles, por ele protagonizado… Se podem fazer isso, eu também posso mudar o nome do que eu bem entender.

Vê se concorda comigo: combater o racismo no Brasil é quase como enxugar gelo. E eu só digo “quase” pra não nos desanimar. Basta acompanhar um pouquinho os jornais pra perceber que o trampo é pesado – física e intelectualmente falando. Mal a gente chora um morto, lá vem outro corpo que é linchado, outra alma trazida à consciência do inferno que é ser preta e pobre em um mundo capitalista. 

Nas redes sociais eu acompanho a Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, da qual faço parte, e outras instituições e pessoas que se organizam contra essa barbárie que desliza feito tsunami, cobre tudo no mundo e vai deixando a espuma branca sobre o que antes havia sido nosso corpo, espírito e intelecto negro. Tem o Instituto Luiz Gama, Mídia Ninja, Érica Malunguinho, Nós mulheres da Periferia, este nosso reduto de “Jornalistas Livres” e mais, muito mais. Todos e todas atentas e trabalhando contra esse sistema desumanizante.

A sensação de enxugar gelo vem da constante denúncia e do constante desrespeito que vivenciamos. Da minha parte, vem também da angústia de ver famílias conformadas com seus mortos, assassinados pelo terrorismo de Estado, e com medo de protestarem, com vergonha de – ao reclamarem seu direito à vida – serem reduzidas a parentes de criminosos, amigues de bandidos.

Eu já passei por essa fase, por isso eu entendo bem. 

Poucos atos de violência contra pessoas negras são dignos da comoção popular. Pra isso é necessário que a vítima esteja em dia com a lei, que tenha sido humilhada em público, que sua agonia tenha ido parar em jornais de grande porte e que seus gritos tenham invadido os pesadelos de todo pai e mãe desse país que se sabe miscigenado e que, por isso mesmo, pode sofrer uma baixa familiar do mesmo jeitinho que a TV mostrou.

Pra que haja comoção nacional, é preciso que Moise seja visto sendo linchado e espancado até mesmo depois de sua morte. Que Douglas, 17 anos, antes de morrer, confuso e surpreso, tenha perguntado ao Promotor da Morte – o PM – “por que o senhor atirou em mim?”. É preciso que, no Dia da Consciência Negra, o país acorde com a manchete de João Alberto sendo espancado até a morte, diante do silêncio brutal de clientes e capitães do mato mal remunerados, no mercado Carrefour. 

Fora disso, nossas dores não comovem.

Pouco importa que chacinas como as de Osasco, de Jacarezinho, da Cabula ou do Carandiru se somem até que sejamos centenas, milhares…

Não importa que Lucas, 14 anos, tenha ido comprar refrigerante; que Igor, 16, tenha ido comprar pão; ou que Rogério, 19, estivesse apenas comemorando seu aniversário, quando a PM assassina, os Promotores da Morte, cavalinhos do apocalipse, os pegaram. Se imagens desses ataques terroristas de Estado não forem sensacionalistas o suficiente, ninguém se incomoda.

Mas é bem compreensível, não?

Se tudo o que é negro é ruim, de acordo com a nossa linguagem. Se quando a situação está ruim, alguns dizem que ela está “preta”. Se “denegrir” – que significa “enegrecer” – é sinônimo de “corrupção”, “difamação”. Se “preto” é sinônimo de algo ruim, posso ser negra e ao mesmo tempo ser uma pessoa boa, digna de viver e de ter minha morte chorada e protestada?

Eu acho que não.

Por essas e outras o anúncio da nova série me encheu o saco. É que eu ando numa puta maré branca: sufocante, pastosa e letal.

E o adjetivo “puta”, aqui, tá sendo usado como sinônimo de algo potente, não ruim – digo isso porque nossa língua é tão racista quanto machista. 

Ela é demais.

Se a gente não toma cuidado, ao tentar atacar o racismo, somos pegas pelo seu parça mais direto: o desprezo estratégico pelo gênero feminino. O machismo.

Ainda bem que eu me lembrei de escurecer esse detalhe.

Inté.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros. 
Nas redes: @dinhamarianilda

LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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