Uma história bem contada do stalinismo

Enquanto youtubers e afins disputam na rede o “verdadeiro pensamento crítico”, a historiadora Angela Mendes de Almeida publica tese sobre o stalisnismo defendida em Paris nos anos 80


O livro Do partido único ao stalinismo é originário de uma detalhada pesquisa da cientista política Angela Mendes de Almeida sobre a história da Internacional Comunista. O trabalho inicial, defendido como tese nos anos 1980, foi complementado pela autora após a queda da União Soviética, em 1991, com revelações, depoimentos de testemunhas e pesquisas que complementaram e deram novas ênfases ao trabalho original. Publicada agora pela Alameda Casa Editorial, a tese central da autora é que a decisão do bolchevismo de deixar prevalecer o princípio de partido único resultou em uma série de soluções repressivas que, encadeadas e assoberbadas pelos acontecimentos trágicos do desenvolvimento do fascismo, do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, acabaram por produzir o fenômeno do stalinismo. O livro está em pré-venda no site da Editora Alameda Editorial.




Por Márcia Mendes de Almeida


A História sempre se presta a não ser definitiva, o que é bom. Eis uma leitura a ser feita com vagar e “cum grano salis”, tal a quantidade e as minudências  dos fatos políticos que sacudiram o comunismo de 1914 a 1939, até a morte de Stalin(1953). Angela Mendes de Almeida apenas agora reproduz em livro um doutorado de exílio na França, quando conseguia encontrar uma história eurocêntrica, sem medo de ser feliz. Não faltam porém o que ela chama de episódios stalinistas por conta do brevíssimo Levante Comunista de 1935 no Brasil, incluindo desaparecidos, “traidores”, estranhas mirabolâncias de, por exemplo, um espião inglês, pouco citado. Angela já avisa na epígrafe a que veio, citando Pietro Tresso, um trotskista italiano :

“O stalinismo se apresenta como a única força resoluta e racional contra o fascismo no mundo. Quem não esteja disposto a lhe reconhecer esse título, a se submeter às suas declarações, quem tenha a audácia de lhe retirar a máscara e de mostrá-lo às massas tal como é, com sua depravação e sua hipocrisia revoltante, cai inexoravelmente sob os golpes de seu ódio sem limites e de suas calúnias insolentes”

Oxalá seja viável um bom debate com a moçada ávida de marxismo e das críticas de esquerda, e jovem o bastante para saber tudo. Jones Manoel, Fênix à espreita, usando de evasivas com uma espécie de “soft-stalinismo” – sob influência de Domenico Losurdo – é o mais articulado. Admite não ser possível brigar com a História e, digamos, quando muito se sabe, é melhor dizer pouco. Há, claro, outros youtubers disputando temas marxistas na Internet: Sabrina Fernandes, Humberto Matos, Larissa Coutinho, para citar apenas alguns.

Controvérsia com uma plateia de convictos, se declarando e organizada em luxemburguistas e trotskistas, não tem graça e periga se tornar uma tertúlia sonífera.  Para não estender muito as citações, a TVBoitempo, a revista Jacobin.Brasil, sites e blogs ao redor, em busca do “verdadeiro pensamento crítico” só tem a ganhar com uma história nada mal contada.

A  autora e sua luta contra o terror de estado

Como a própria sinopse diz, Angela faz uma homenagem aos “militantes que pagaram com a vida por se recusarem a aderir às falsificações do stalinismo”. Essa postura não  é apenas teórica.  A autora  desde os primeiros momentos da militância política contra a ditadura militar de 1964, como exilada e na volta do Brasil continuou  enfrentando o terror . Ainda hoje  luta  pela memória, verdade e justiça para o seu companheiro Luiz Eduardo da Rocha Merlino, assassinado há   50 anos nos porões do DOI-CODI a mando do Coronel Ustra. Veja mais no site coletivomerlino.org e em matérias sobre o caso Merlino aqui nos Jornalistas Livres.

A luta contra o terrorismo de estado, que se agrava e se repete nas constantes benesses que a justiça brasileira concede aos seus agentes, é a guerra maior e está no cotidiano das periferias. Com essa preocupação, Angela fundou o Observatório das Violências Policiais e Direitos Humanos /Centro de Estudos de História da América Latina (CEHAL-PUC/SP) que representa um acervo de monitoramento da violência policial no Brasil, desde 2002.

Na vida acadêmica Angela Mendes de Almeida é doutorada em Ciências Políticas na Universidade de Paris VIII. Foi professora universitária em Lisboa (ISCTE) e no Rio de Janeiro (UFRRJ). Publicou obras sobre história da família na sociedade brasileira e trabalhos sobre história do comunismo. Depois de aposentada fundou e foi coordenadora —  como já foi dito — do Observatório das Violências Policiais/Centro de Estudos de História da América Latina (CEHAL-PUC/SP).


Marcia Mendes de Almeida é jornalista, resenhista e irmã de Angela. 


Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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