Tesão No Que Virá!

 


Quando o Brasil consolida a produção cinematográfica surge um novo desafio: devolver ao país o audiovisual que seu povo financia

por Ricardo Targino, diretor de Quase Samba, cineasta, jornalista e midiativista, com fotos Mídia NINJA na exibição do filme no Cine Drive-In, em Brasília, a última sala deste gênero em funcionamento na Ámerica Latina.

A perfeição narrativa é um projeto da direita estética. O ilusionismo desta perfeição, sua falsa organicidade, é arma nas mãos de Hollywood e da Globo, para castrar a criatividade periférica e disruptiva. A própria vida é imperfeita! Somos diversos e entramos na Era da Alteridade. Ao novo imaginário do planeta no século XXI, nenhuma hegemonia narrativa interessa. É dentro do paradigma da diversidade que há de se erguer a nova estética popular e uma nova economia viva da cultura para o fluxo simbólico, afetivo e de valores está prestes a surgir.

A evolução humana é imparável e a crise de valores não é só nossa, do Brasil pós-Lula, mas de todo o mundo contemporâneo. Estamos em pleno transe de uma verdadeira mutação antropológica que é planetária. Há crise no sistema político, crise na economia, crise ambiental, crise nas representações e na produção narrativa, crise no jornalismo e na mídia. Nada mais natural em um mundo que alterou substancialmente as formas de produção e circulação de valor e significado nestas últimas décadas. O século XX ainda resiste sob a forma dos impérios controlados pelas corporações, mas o século XXI abre passagem a pesar de todas as restrições que tentam impor ao fluxo da cultura livre e ao imaginário dos povos do mundo.

Como dizia Paulo Emílio Salles Gomes, nossa incapacidade de imitação é nossa garantia de originalidade. Somos o Brazukystão-REMIXofágyko-PósTropicalista e podemos nos permitir o risco da mestiçagem estética e da imperfeição que desafia o ilusionismo naturalista. O Brasil tem em sua diversidade humana, natural e cultural sua maior riqueza. Seu diferencial para o resto do mundo. Justamente aquilo que pode agregar valor ao desenvolvimento e nos fazer avançar rumo às tecnologias sociais da civilização da nova humanidade mestiça que há de surgir aqui no coração da América.

Só uma indústria da criatividade popular sem complexos vai reposicionar o Brasil no cenário global. Nossa estética é nossa maior potência. A revolução é uma estética, dizia Glauber. Neste momento em que os fundamentalismos do mal sambam na cara do país e desafiam os valores do século que começa é preciso desnaturalizar a violência e libertar as energias utópicas e a imensa criatividade da juventude do Brasil. Basta um passo e não estamos mais no mesmo lugar. Nós estamos fazendo a nossa parte. Queremos devolver ao país o cinema que seu povo financia e por isto mesmo uma #RedeDeExibidores está sendo erguida para um #CircuitoPopular de cinema efetivamente se constituir e colaborar no mutirão civilizatório que precisa vencer a dor, aqui no país onde mais se mata no mundo. É o justo. A dimensão ética da própria estética.

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O esgotamento da cadeia produtiva do século passado é mais que evidente. Nossos filmes não tem lugar no pequeno e inacessível circuito comercial instalado no país. Quando o Brasil começa a saber de nossos filmes eles já estão fora de cartaz. Não é mais possível fechar os olhos para esta realidade. A exibição e a circulação de nossa produção audiovisual não podem continuar sendo um subproduto da política pública, que também precisa se adaptar ao século XXI sob o risco de servir apenas aos velhos modelos em desmoronamento.

Nós queremos um cinema de ocupação. Ocupação de praças e ruas, becos e vielas, do centro e da periferia, das metrópoles, dos sertões, rincões. Um cinema para os novos imaginários. Um cinema popular brasileiro.

Tudo o que desaba lá fora faz um barulho danado. Nós estamos com a mão na massa do mutirão que faz mudança todo dia para narrar e sonhar o Brasil sem a auto-desqualificação compulsiva das elites e sem a torcida-contra da velha mídia. E nós não temos medo de nos confrontar com os escombros, nem com o ruído insuportável do desmoronamento do velho sistema de valores e muito menos do mimimi dos caretas, covardes, coxinhas e conservadores. Não temos medo do velho e temos tesão no que virá! Além do mais, temos uns aos outros para a reconstrução silenciosa. A esperança é o motor da vida.


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