Semana da vagabundagem

“Café com muriçoca” – espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. Toda semana publicaremos uma crônica, quase sempre leve e irritante, como uma muriçoca
Por Dinha 

Eu moro no Savério. É um lugar movimentado.
Todo final de semana tem um bailão bem pertinho de mim.
Não me incomoda tanto, mas sei que quanto mais perto, menos possível é ouvir os próprios pensamentos dentro da caixa do crânio. Uma vez um amigo e eu passamos pelo aparelho de som e vimos que cada amplificador tinha uns dois metros de altura e, coloridos, nos empurravam para trás a cada batida, como quando usamos o guarda-chuva pra nos proteger do vento e da chuva e sentimos certa resistência de andar contra a ventania.
Por causa do fluxo, minha janela é privilegiada. Por ela passa gente demais e cada uma vai deixando palavras que se acumulam e vão tecendo histórias da vida coletiva do bairro. Nessa, algumas palavras, quando recitadas juntas, viram sementes pra poesia ou prosa. Elas caem no terreno fértil do meu ouvido, brotam no meu cérebro e terminam dando frutos (quase sempre azedos) na minha imaginação.
Foi algo assim que aconteceu na semana passada.
O dia já tava quase amanhecendo quando acordei com barulho de briga. Enquanto um grupo de mulheres lá longe gritava, um rapaz, sendo contido por outros, devolvia os insultos, em alto e bom som, bem debaixo da minha janela: Nóis num é vagabundo não, nóis é criminoso, carái!
Sabe aquele momento em que o tempo fica suspenso e seu cérebro não sabe muito bem que impulsos mandar ao restante do corpo? Meu pensamento parou um instante tentando processar o ocorrido – os gritos das mulheres, dos homens, o fato de criminoso ter se tornado o oposto de vagabundo. Daí eu ri. Ri porque não me apetecia chorar nessa tragicomédia, microespelho dos rumos que nossa sociedade tomou.
Apesar de paradoxal, pois os vagabundos (as pessoas que vagam), já lá no século XIX foram criminalizadas com a infame e escravagista Lei da Vadiagem, a reclamação do moço fazia sentido. Muito.
O que ele quis dizer é que não era um zé povo qualquer. Pelo contrário. Zé povo é aquele que trabalha, se deixa explorar, ouve críticas e permanece calado pra evitar qualquer confusão. Zé povo só quer de verdade ficar em paz consigo ou com sua família.
Tem outros tipos de zé povo, lógico. Tem esse que não trabalha, fica no bar o dia todo, cuida da vida alheia e vive sendo esculachado pelos “cidadãos de bem”. O rapaz, no entanto, não era nem um nem outro. Tava ali só tirando um lazer e, sendo ele um criminoso, jamais poderia ser chamado de vagabundo. Eu entendi. Ceis entenderam? Vagabundo é vagabundo, criminoso é criminoso e trabalhador é trabalhador. Pras mulheres vale o mesmo – só que com as implicações do gênero.
Daí eu pensei nesse diacho de país em que ser criminoso é o contrário de ser vagabundo e tive um lapso filosófico. Pensei que em um país onde o chefe maior é um criminoso que classifica como vagabundo a tudo e a todes que cruzem seu caminho e assumam qualquer posicionamento, ainda que mínimo, diferente do dele, não é de estranhar que o orgulho de ser do crime tenha crescido tanto.
Logo depois eu recobrei a consciência e me lembrei de que o Capitalismo é um sistema baseado todinho ele na contradição e que aqui, sim, um chefe de Estado pode ser genocida, criminosos não são vagabundos, a gente que trabalha não ganha dinheiro e, por incrível que pareça, o crime organizado é um tipo de aquilombamento – o mais revolucionário, justamente porque não se tem nada mais a perder.
O sistema carcerário brasileiro é uma fábrica de fazer kamikazes: homens e mulheres privadas de liberdade, de dignidade, de laços comunitários, de lazer, de educação e, sobretudo, de oportunidades de crescimento pessoal. A nossa gente que tá presa não escolheu a cadeia, mas aqueles e aquelas que estão dentro de facções criminosas sim, escolheram aquilombar-se, escolheram criar um espaço de dignidade para si e para seus/suas semelhantes.
Pois eu passei a semana pensando nisso e, no final dela, quando fui ver Greg News – minha dose regular de humor trágico – e o tema era “vagabundagem”, interpretei como um sinal do universo dizendo vai, Dinha… pára de vagabundear e vomita esse texto.
Gratidão, Universo! Me sinto melhor agora.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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