Sem justiça sem paz

Bem-vindos e bem-vindas ao “Café com muriçoca” - espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. No texto de hoje, "Sem justiça, sem paz", Dinha apresenta um pequeno manual para suas filhas organizarem a luta armada e se defenderem do machismo nosso de cada dia.
Café com muriçoca: Sem justiça, sem paz
O espião janta conosco

(manual para minhas filhas organizarem a luta)

Filha*

2º coração que pulsa fora do peito

Nivaldo Brito/ Se eu tivesse meu próprio dicionário/ *no original, “filho”

Me lembrei disso esta semana porque o ano virou virando. Chegou com os dois pés no peito,  batendo abusado na porta e gritando, pra quem quisesse ouvir, que o ano virou, mas o machismo ainda taí.  Ele janta na nossa mesa. Que o ano virou,  mas o racismo ainda taí, cronometrando os horários de almoço.  Que o ano virou, mas a homofobia,  a transfobia, ainda estão aí,  dormindo de conchinha com a heteronormatividade.” 

I – Vergonha 

O ano novo me encontrou jogada no chão com o couro comendo. Literalmente. Essa surra da virada me fez lembrar do porquê a revolução não se faz sem liderança intelectual.

Quando comecei a estudar as literaturas africanas de língua portuguesa, muitas coisas me moveram.  A primeira delas foi a vergonha. Isso mesmo: vergonha. 

É Marx quem fala que a vergonha é um sentimento revolucionário… ou eu tô enganada? 

Na época, eu sentia vergonha por estudar na dita melhor universidade do país, mas quase nada saber sobre minhas origens afrocentradas. A vergonha era maior por eu ser parte de um coletivo que se propunha a atuar politicamente,  pela via do Hip Hop, da intervenção direta e do acesso ao conhecimento. Como integrante da Posse Poder e Revolução, e recém inserida na universidade,  eu sabia menos sobre o povo preto do que meus camaradas que compunham rap e, em muitos casos, quase nada tinham de escolaridade.

Depois,  já diante dos textos literários, a segunda coisa que  me moveu a seguir com os estudos foi a semelhança entre os contextos de Brasil,  Angola e Moçambique. Como nesses lugares, nossas quebradas viviam um contexto de guerra, fome,  busca por liberdade, por igualdade e por justiça social. A África negra do século XX, narrada naquela literatura guerrilheira, era como um Brasil mais ousado. 

Mais ousado porque estava em franca batalha contra as nações que colonizaram seus territórios. Noemia de Souza, José Craveirinha,  meus crushs literários moçambicanos, assim como Agostinho Neto, em Angola, lutavam em uma frente dupla:  a política e a literária. 

Foi o mesmo Craveirinha quem escreveu,  diretamente de sua cela de prisioneiro político, que se pode prender o poeta, mas não a poesia; que se pode aprisionar o revolucionário,  mas não a revolução. Na mesma lógica,  completo aqui eu o pensamento, você pode prender seu malvado favorito, mas a maldade vai continuar leve, livre e sorrindo. 

II –  O espião janta conosco 

Me lembrei disso esta semana porque o ano virou virando. Chegou com os dois pés no peito,  batendo abusado na porta e gritando, pra quem quisesse ouvir, que o ano virou, mas o machismo ainda taí.  Ele janta na nossa mesa. Que o ano virou,  mas o racismo ainda taí, cronometrando os horários de almoço.  Que o ano virou, mas a homofobia,  a transfobia, ainda estão aí,  dormindo de conchinha com a heteronormatividade. 

manual para minhas filhas organizarem a luta. Surra da virada
Sem justiça, sem paz

III – Caso contrário 

Na quebrada,  em muitas,  certos assuntos são resolvidos não pela polícia,  mas por criminosos organizados. A rotina de resolução de conflitos em comunidades pobres se resume a acusação,  julgamento,  com direito a defesa, e punição. O “partido” que comanda o júri e dita as regras de conduta é o mesmo que executa a lei. O Estado  sempre se finge de morto.

Eis que, quando o ano bom me atropelou e a ordem se voltou contra minha família –  por causa desses desamores que findam em feminicídios… quando isso aconteceu eu senti na pele a falta que faz uma liderança intelectual dentro de grupos com potencial revolucionário, como é o caso do PCC.  

Não sei se você concorda, mas na guerra  as armas são bem vindas, tanto quanto a sensibilidade, e a inteligência também. Caso contrário, gente malvada vai ser punida, mas a malvadeza vai seguir fazendo novos algozes e novas vítimas. 

Caso contrário,  o macho abusador será punido, mas o machismo seguirá agredindo mulheres e as culpando por terem ficado vulneráveis aos cínicos.

Caso contrário, vai morrer o estuprador, mas seguirá vivíssima a maldita cultura do estupro. Vai se castigar o injusto,  mas a injustiça vai continuar à solta.

IV – Coerência no lugar da covardia 

E se as coisas são mesmo assim, alguém vai ter que perceber e cobrar que a bandeira de paz, justiça e liberdade, levantada pelo “partido”, passe a ponderar sobre o machismo e sobre as condições que são específicas de nós, mulheres da periferia. 

E é por isso que a liderança intelectual e a arte são tão importantes. Elas mostram o que está escondido,  atacam o mal pela raiz e deixam gente má com menos possibilidades de desenvolverem suas sociopatias. 

A arte e a liderança intelectual fazem com que se contornem os obstáculos que impedem que a paz, a justiça,  a liberdade, a igualdade e a união de todos, de todas e de todes realmente funcionem.

Sei que tem gente que me acha trouxa… boazinha demais por não querer executar vingança contra quem fez meu ano virar na base do chute e do soco…  Mas eu não sou uma coisa nem outra. Nem boa, nem trouxa. Só tento manter a coerência entre o que digo e o que coloco em prática.


LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:
Eu pensei que os livros nem existiam mais
A cabeça sagrada de Zumbi

Nas redes: @dinhamarianilda

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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