Menino desenha o próprio álbum da Copa por não ter dinheiro para comprar figurinhas

Completar o álbum da Copa custa 45% do salário mínimo e exclui os torcedores mais pobres; cromos raros custam até 9 mil reais
João Gabriel, de 8 anos, desenhou as figurinhas em folhas de caderno [Foto: G1/Reprodução]
João Gabriel, de 8 anos, desenhou as figurinhas em folhas de caderno [Foto: G1/Reprodução]

João Gabriel, de 8 anos, fez seu próprio álbum de figurinhas da Copa por impossibilidade de comprar um. Natural de Goiânia, o menino desenhou as próprias figurinhas em folhas de caderno, e as imagens viralizaram nas redes sociais no último domingo (29). Este ano, cada pacote de adesivos custa quatro reais; para completar o álbum, é necessário desembolsar mais de meio salário mínimo.

Por Thaís Helena Moraes

O futebol chegou ao Brasil pelas mãos de Charles Miller e foi imediatamente adotado pelo povão de São Paulo. Virou o esporte das multidões. Hoje, ele se torna cada vez mais elitizado, excluindo justamente os torcedores mais pobres.

Vendido a 12 reais, o álbum oficial da Copa do Mundo no Qatar tem 670 figurinhas e é impresso no Brasil pela Panini. Além disso, possui figurinhas raras, que nem sequer têm espaço para serem coladas nas páginas. As mais raras, encontradas a cada 1.900 pacotinhos, chegam a custar 9 mil reais no Mercado Livre. Mesmo sem almejar os cromos extras, o valor mínimo para completar o álbum é de 536 reais, ou seja, 134 pacotes – mas apenas se nenhum tiver figurinhas repetidas. Na realidade, o custo acaba sendo bem maior.

Para a maior parte das famílias brasileiras, como a de João Gabriel, esse valor representa mais da metade da renda mensal. O preço alto das figurinhas escancara uma realidade presente no Brasil há anos: a falta de acesso ao futebol pelas classes desfavorecidas. Desde os ingressos para partidas até as camisetas de marca, o futebol vem sendo transformado em espetáculo desde, pelo menos, os anos 1990. Mais recentemente, com a Copa de 2014, estádios foram transformados em “arenas” – o que diminuiu a capacidade máxima de torcedores e elevou os preços dos ingressos. Em 2018 e 2019, o Palmeiras teve o ingresso mais caro do Brasil, custando R$57 e R$67, respectivamente – e olha que essas poltronas nem se localizam nos camarotes vips.

Para o portal “Jornalismo Júnior”, a historiadora Lívia Gonçalves disse: “O que vivemos é parte de um fenômeno global, a arenização dos espaços esportivos,não apenas do futebol, importante destacar.  É um modelo que influencia e pressiona diretamente o torcer, ou seja, as manifestações de torcedores, suas identidades e tudo mais. O processo de arenização é excludente, elitista e totalmente voltado para uma lógica neoliberal, que transforma torcedores em consumidores. Isso, sem dúvidas, exclui os setores populares dos estádios, uma vez que tais setores estão também, tradicionalmente, excluídos do modelo consumista que nossa sociedade mantém”.

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