Seis pitacos sobre o verme no Jornal Nacional

Muita gente segue na mesma toada, subestimando-o abraçado às pesquisas quando o jogo nem começou de verdade. O embate será duríssimo!

Por Álvaro Nascimento, jornalista

1. Ele foi muito bem para o público que estava doido para votar nele, mas ainda sentia vergonha. Por que? Saiu apenas com escoriações do tema pandemia, com mentiras do tipo “Mandamos oxigênio em 48 horas” (para Manaus). Saiu-se bem no abraço ao Centrão (“Você está me pedindo para ser um ditador?”). Na questão ambiental ficou bem na fita com os conservadores (“Eu só quero cumprir a Lei”, ao proteger desmatadores). Nas cinco trocas de ministros na educação, idem: “Trocar ministros não é o ideal, mas às vezes é necessário”. E na autonomia da Polícia Federal (assunto que não mobiliza quase ninguém), disse que a nota da associação dos policiais federais era por causa de “questão salarial deles”.

2. Bonner e Renata foram perguntadores fracos no que diz respeito a assuntos que realmente balançariam a discurseira anticorrupção que o colocou onde está: os cheques de Queiroz na conta da Michelle, a mansão de R$ 6 milhões de Flávio Bolsonaro comprada com sua inexistente atuação como advogado, as barras de ouro negociadas no MEC por pastores que falavam em nome dele. Mal preparados os dois? Duvido muito. Ordem de cima? Provável.

3. A grande pisada na bola dele passou incólume pelas barbas brancas de Bonner e pelo tom pretensamente indignado da Vasconcellos quando ele disse “ser normal”, “um exercício da liberdade deles” o fato de seus apoiadores defenderem a volta da ditadura militar, o fechamento do Congresso e do Supremo, coisa que ele disse não defender. Nenhum dos dois o questionou quanto ao absurdo de achar exercício de liberdade defender ditadura. Mal preparados os dois? Duvido de novo.

4. Os dois novamente deixaram passar como algo normal a afirmação de que ele respeitaria o resultado da eleição “desde que sejam limpas”. A ameaça de sempre seguiu no ar e ninguém o pressionou sobre o que seriam eleições sujas para ele. Seriam as sem voto impresso? Mal preparados outra vez? Duvido de novo. Para piorar, ele impôs a mudança de tema justo quando o assunto respeito às urnas esquentou e poderia pô-lo nu. Mas Bonner e Renata acataram a ordem e passaram a perguntar sobre educação.

5. Voto ele não perde. Pode passar um vídeo dele dando o rabo que os homofóbicos seus seguidores seguirão aplaudindo o mito, pois nunca teve nada a ver com “ideologia de gênero”. Pode ter outro vídeo com ele contando dinheiro roubado que seguirá com 30% dos votos da extrema direita da sociedade, que está aí desde Plínio Salgado e a Ação Integralista de cunho fascista lá dos anos 30, pois, afinal, nunca foi por corrupção.

6. De uma vez por todas, convençamo-nos de uma coisa. De burro, idiota e ignorante o verme nada tem. Burros são os que o subestimaram, achando que jamais o Brasil escolheria um capitão expulso do Exército, tosco, machista, homofóbico, representante maior da velha política do baixo clero, corrupto, entregador de medalha a milicianos para presidir a República no lugar de um professor universitário, escritor, filósofo, ex-ministro, ex-prefeito de São Paulo, um intelectual de boa cepa. Pior: muita gente segue na mesma toada, subestimando-o abraçado às pesquisas quando o jogo nem começou de verdade. Ele vai crescer. E o embate será duríssimo.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Fontes, Falas e Alas

A disputa de narrativas e da opinião pública entre a ala militar, a ala ideológica e as dissidências pela direita e extrema direita no Brasil

Na medula do verbo

Na medula do verbo

Hoje, o Café com Muriçoca traz a recomendação de leitura da obra “Na medula do verbo”, de Michel Yakini-Iman.