Se eu morrer, digam meu nome

A coluna “Café com muriçoca” é um espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. Hoje a crônica é “Se eu morrer, digam meu nome” de Dinha.

Por Dinha

A carne mais barata do mercado é a carne negra.
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
E vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Elza Soares

“Essa masmorra contemporânea junta aos seus ossos estruturais, ainda, a penalização das mães, dos pais, das filhas e até do divino Espírito Santo – condenado a protetor de bandido.”

Seu nome é José. Eu não o conheço, mas invento o seu nome para representar todos aqueles que nem na morte deixaram de ser ninguém. Então eu escrevo ele agora, porque ele assim pediu: seu José da Silva Torres.

Digo também porque acho digno que alguém que tenha se tornado apenas um número dentro de uma instituição prisional e, no meio da pandemia de Covid-19, é candidato a tornar-se também número nas estatísticas de seiscentos mil mortos – e subindo -, acho digno que essas pessoas tenham seus nomes retratados.

Eu pediria o mesmo.

Eu pediria sim, se estivesse dentro da instituição mais desumanizadora da história da humanidade – o cárcere.

A cadeia, corró, xadrez, cana, prisão, ou como se quiser chamar, ela reúne traços de escravidão, racismo, classismo, institucionalização da tortura física, psicológica e emocional. Essa masmorra contemporânea junta aos seus ossos estruturais, ainda, a penalização das mães, dos pais, das filhas e até do divino Espírito Santo – condenado a protetor de bandido.

Se eu estivesse nessa situação, eu também pediria, porque re-conhecer e re-significar a humanidade das pessoas encarceradas passa por dizer seus nomes.

Me lembrei disso porque esbarrei novamente com um mini documentário, produzido pela Agência Farpa (2021), que tem justamente esse tema e título.

E também porque minhas filhas e eu sempre rimos quando o menino, personagem da animação Os Croods, diante da inevitabilidade do perigo, ele suplica: Contem a minha história.

A cena é engraçada porque ele toma uma surra de um pássaro pré histórico, por tentar roubar seu ovo: único alimento “disponível” para toda a família. Apenas um ovo, conquistado à base de surra, suor e luta.

Contando assim não é nada engraçado.

Contando assim me faz lembrar das notícias: a fila dos ossos, a carcaça da galinha, a surra do imigrante, as mães presas por roubar miojo e potes de margarina, minha mãe juntando moedas pra poder enviar o jumbo para o neto, Lucas.

Não tem graça a fome.

Não tem graça a crise.

Não tem graça morrer no cárcere, nem em casa, por falta de atendimento médico e geladeira vazia.

Meu irmão de nome inventado, José da Silva, se você morrer eu direi o seu nome.

E, como já diz a crônica da querida Cidinha da Silva, se eu aparecer morta, saibam que não foi suicídio.

Se morrermos ambos, pedimos a vocês, leitoras e leitores que, por favor, por favor, contem nossas histórias.

Não quero ser mais uma lápide, numerário dos pobres coveiros que ganham a vida com a morte. Não quero ser mais uma carta na manga de gente politiqueira e sem sal. Esse povo que ganha a vida cultivando a morte bem mais que os coveiros – tesos, esperando que seu próprio corpo seja enchimento de vala.

Esse café ficou amargo hoje. Cadê aquele pote de açúcar?

Se eu morrer, por favor, digam meu nome.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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