Religião: jugo ou libertação?

Por Gilvander Moreira1

O político e teórico marxista Karl Kautsky (1854-1938) considerava todas as correntes religiosas subversivas, as que protestavam contra a ordem estabelecida, como movimentos “precursores do socialismo moderno”, cujo objetivo era um estilo de comunismo distributivo – oposto ao comunismo produtivo do movimento operário moderno (Cf. LOWY, 2007, p. 304).

Kautsky entende Tomas More, autor de Utopia, como um defensor da classe camponesa que estava tendo suas terras expropriadas pela reforma protestante na Inglaterra. “Segundo Kautsky, Tomas More, autor de Utopia, escolheu como religião o catolicismo em lugar do protestantismo porque estava contra a brutal proletarização do grupo de camponeses resultante da destruição da Igreja tradicional e da expropriação de terras comunitárias pela Reforma Protestante na Inglaterra. Por outro lado, as instituições religiosas da ilha Utopia mostram que estava longe de ser um partidário do autoritarismo católico estabelecido: defendia a tolerância religiosa, a abolição do celibato clerical, a eleição de padres por suas comunidades e a ordenação de mulheres” (KAUTSKY apud LOWY, 2007, p. 305).

Questões religiosas defendidas por Tomas More na Utopia também são defendidas por vários teólogos/as da Teologia da Libertação com algumas pequenas diferenças: o ecumenismo como proposta de respeito religioso, a abolição do celibato clerical obrigatório – o celibato deve ser opcional -, a eleição de padres, bispos e até do papa pelas comunidades cristãs e o fim da ordenação sacerdotal de homens para ficar valendo apenas o sacerdócio comum conferido pelo batismo ou a ordenação sacerdotal de mulheres, proposta defendida por uma tendência do Movimento Feminista da Teologia da Libertação. Isso é necessário para a superação do patriarcalismo na Igreja Católica.

No contexto de religião conservadora atrelada aos interesses do Estado e dos senhores feudais do início do século XX na Rússia, no artigo “Socialismo e religião”, de1905, Lênin compreendeu a religião como uma “névoa mística” e defendeu que religião seja um assunto privado e que as igrejas não podem se imiscuir no Estado e nem na Educação. “A religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda a parte sobre as massas populares. […] A impotência das classes exploradas na luta contra os exploradores gera tão inevitavelmente a fé numa vida melhor além-túmulo como a impotência dos selvagens na luta contra a natureza gera a fé em deuses, diabos, milagres, etc.” (LÊNIN [1905], 2012, p. 1).

Em consonância com o materialismo histórico-dialético, Lênin entende que é a exploração causada pelo modo de produção capitalista que gera a religiosidade nas pessoas. A/o trabalhador/a esfolada/o aqui na terra, sem conseguir fazer a história com as próprias mãos, acaba por projetar uma vida feliz além-morte, acreditar em forças fora de si, em milagres no sentido de acontecimentos que desrespeitem as leis da natureza. Mas, Lênin reconhece que somente combater ideologicamente a expressão religiosa das pessoas ou ignorá-las seria um equívoco tático grave e uma contradição com o método do materialismo histórico-dialético, o qual diz que enquanto não acontecer a superação das relações sociais impostas pelo capital, relações sociais escravocratas, várias ideologias estarão sendo criadas, entre elas a ideologia religiosa. A esse respeito diz Lênin: “Seria estreiteza burguesa esquecer que o jugo da religião sobre a humanidade é apenas produto e reflexo do jugo econômico que existe dentro da sociedade. Não é com nenhum livro e nem com nenhuma propaganda que pode-se esclarecer o proletariado se não o esclarecer a sua própria luta contra as forças do capitalismo” (LÊNIN [1905], 2012, p. 4).

Mas, em tom tático, Lênin defendeu que o ateísmo não deveria ser parte do programa do Partido Comunista porque a “unidade na real luta revolucionária das classes oprimidas por um paraíso na terra é mais importante que a unidade na opinião proletária sobre o paraíso no céu” (LÊNIN [1905], 2012, p. 4).

No calor da primeira revolução soviética, em 1905, interessada em formar a consciência de milhões de trabalhadores russos e poloneses que estavam se engajando na luta socialista revolucionária, Rosa Luxemburgo, mesmo sendo ateia, percebeu a necessidade de mostrar à classe trabalhadora como as igrejas enquanto instituições eram reacionárias e portadoras de exploração implacável. Percebendo que não deveria alimentar discussão filosófica em defesa do materialismo histórico-dialético para criticar as igrejas, Rosa Luxemburgo, vendo que os padres “convertem a igreja e o púlpito num lugar de propaganda política” (LUXEMBURGO [1905], 2002, p. 112) contra os operários socialistas revolucionários que lutavam pela superação do capital e pela derrubada do czarismo na Rússia, Rosa busca resgatar a dimensão social original subversiva do cristianismo. Rosa Luxemburgo reconhece “a consciência e as opiniões pessoais como sendo sagradas. Todo homem pode ter aquela fé e as ideias que ele acredita sejam fonte de felicidade. Ninguém tem o direito de perseguir ou atacar os demais por suas opiniões religiosas” (LUXEMBURGO [1905], 2002, p. 112).

A dimensão religiosa é uma das dimensões que integram a condição humana. Não é a religião em si que gera jugo ou libertação, mas as pessoas que, para atender seus interesses próprios, sua sede de poder, a usam para dominar, explorando a fé do povo, ou para, em comunhão, na luta coletiva, à luz da Palavra de Deus na Bíblia e na realidade, buscar caminhos de transformação e libertação. Portanto, há muitas formas de acolher ou não e de lidar com a dimensão espiritual da vida. Ao longo da história da humanidade, muitos tipos de religiosidade têm sido usados como armas de violência sutil que legitimaram grandes massacres e genocídios. Entretanto, outros modelos de religiosidade têm impulsionado ao longo da história processos de luta pela superação de opressões e explorações. Tenhamos a grandeza de cultivar nossa dimensão espiritual conectada com as lutas por Justiça, por direitos humanos e sociais. Assim Jesus Cristo testemunhou e nos ensinou. Que nossa dimensão religiosa seja instrumento de humanização e libertação e não jugo que oprime, explora e mata.

Referências.

LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Socialismo e a Religião [1905]. In: https://www.novacultura.info/post/2021/03/17/lenin-socialismo-e-religiao

LOWY, Michael. Marxismoe religião: ópio do povo?. In: A teoria marxista hoje. Problemas e perspectivas.Buenos Aires: CLACSO, p. 298-315, 2007.

1º/3/2022.

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – Retomada Indígena Xukuru-Kariri – Comunidade indígena Arapoã Kakyá -, em Brumadinho, MG – Vídeo 1

2 – Veja a Comunidade indígena Arapoã Kakyá (Retomada Indígena Xukuru-Kariri), Brumadinho/MG – Vídeo 2

3 – “Quando pomos pé num território somos raiz forte.” Arapoã Kakyá Xukuru-Kariri Brumadinho/MG – Vídeo 3

4 – “A terra é nossa mãe; nós, os filhos dela”. Comunidade indígena Xukuru-Kariri, Brumadinho/MG–Vídeo 4

5 – Frei Carlos Mesters: CF/22 -Fraternidade e Educação. “Fala com sabedoria, ensina com amor”(Pr 31,26)

6 – Curso Teologias da Libertação para os nossos dias – Aula 02. Por Marcelo Barros – 29/7/2020

7 – COMUNIDADE, FÉ E BÍBLIA, Carmo Vídeo, 1995. Roteiro: Frei Carlos Mesters, Frei Gilvander e Argemiro

8 – “Paulo em Gálatas: Que tipo de fé liberta?” – Para o Mês da Bíblia/2021 – Frei Gilvander -13/8/2021

1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG; colunista dos sites www.domtotal.com , www.brasildefatomg.com.br , www.revistaconsciencia.com , www.racismoambiental.net.br e outros. E-mail: [email protected]  – www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br       –       www.twitter.com/gilvanderluis         – Facebook: Gilvander Moreira III

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