Quem é contra o pleno emprego?

Por César Locatelli, especial para os Jornalistas Livres

Cena do filme “Os Companheiros” de Mario Monicelli (1963)

Trabalhadores, isolados ou em seus sindicatos, certamente não são. Grandes empresas e seus capitães também não deveriam ser contra o pleno emprego, já que mais renda na mão dos trabalhadores implica mais consumo e, assim, mais vendas e mais lucros. Quem seria, então, claramente contra?

Bem, os rentistas, que são aqueles endinheirados que vivem de juros, especialmente, de emprestar para o governo, sentem calafrios quando há inflação: ela é uma devoradora de capital financeiro, o dinheiro perde o valor com a danada da inflação. Quem mais perde é quem tem dinheiro. O melhor dos mundos para os rentistas, e eles são muitos, é inflação baixa e taxa de juros na lua. Você sabe qual país tem sido o campeão de juros no mundo, não sabe?

Mas eles temem a inflação. O que poderiam ter, os rentistas, contra o emprego? Simples: se todos, teoricamente, que querem trabalhar estão trabalhando, torna-se mais difícil contratar. A empresa que quiser mais empregados tem que pagar mais. Esse movimento faz parar mais renda na mão de quem trabalha. Mais renda significa mais consumo e, quase que fatalmente, alguma pressão por aumento de preços. “Si hay inflación, me opongo”, ouve-se o coro por todo o mercado financeiro.

Aprofundemo-nos um tantinho nos capitalistas. O maior poder que eles detêm é, exatamente, o de forçar o governo a fazer seus caprichos. Se não investem, não há crescimento, se o país não cresce a culpa é do governante. Interessante, eles travam a economia e a culpa é de um outro. Isso dá, aos capitalistas, o controle indireto das políticas de governo.

Como se dá o crescimento econômico? Se de um ano para o outro todo mundo consumir e investir exatamente o que consumiu e investiu no ano anterior, quanto cresce a economia? Está bem, para ser mais rigoroso digamos que as exportações e importações se equilibrem. Quanto cresce o PIB? Zero. Percebeu que o empresário tem o poder de determinar a avaliação do governo? Basta que dê um tempo em seus planos de investimento.

Imaginemos, por um breve instante, que um governo de lunáticos promova o aumento de renda e faça o mercado de trabalho chegar próximo do pleno emprego. Os capitães da indústria verão esse governo com suspeição. A confiança estremecerá. Os investimentos escassearão. Êpa. Com um investimento privado minguado é muito difícil crescer. A menos que o governo invista. Mas se o fizer vai gerar mais suspeição: em dois tempos, dirão que a dívida ficará impagável, que o desastre nos aguardará na próxima esquina.

O gasto do governo é justificado pelo aumento da qualidade de vida das massas. Afinal, não é esse o propósito de toda atividade econômica? Mas o governo cede aos reclamos dos capitães da indústria e dos rentistas, que juntos fazem um barulho ensurdecedor. Corta os gastos, aumenta a taxa de juros. Bem, o resto você sabem.

Por fim um segredo: esse texto foi baseado em Michal Kalecki, que proferiu, não dessa maneira indolente, uma palestra em Cambridge, em 1942, com o título: Aspectos Políticos do Pleno Emprego.

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