Christian Dunker: “Se uma autoridade simbólica nega a realidade, cria-se uma comunidade negacionista”

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Por Clara Luiza Domingos e Conrado Machado, especial para o Jornalistas Livres

Christian Dunker, psicanalista e professor da USP, concedeu entrevista ao Jornalistas Livres neste sábado (09/05) para debater o discurso de Jair Bolsonaro frente à pandemia do Covid-19 e a crise institucional que o país atravessa neste mesmo período. O debate conduzido pela jornalista Clara Domingos e psicanalista Conrado Machado foi realizado pelas plataformas do Youtube e Facebook do Jornalistas Livres.

Dunker, em sua análise sobre a negação sistemática que Bolsonaro e o governo fazem em relação aos problemas concretos a serem enfrentados, comenta que o governo só consegue funcionar se negar a realidade natural e concreta através do foco em inimigos palpáveis, que apesar de imaginários existem na realidade social, como a esquerda, representada majoritariamente pelo PT. 

“Isso é um artifício eficaz do ponto de vista político, mas criminoso do ponto de vista psicológico. Utiliza a força e autoridade simbólica para eliciar um processo que já está nas pessoas.Quando a gente encontra algo inédito e traumático, que supera nossas experiências de significação, a gente tende a negar. Então vem uma autoridade simbólica e convida para negar junto, seja em uma manifestação, num carreata, seja numa prece pública ou na construção de uma comunidade negacionista”, explica Dunker.

Para Dunker, parte da sociedade brasileira está em um nível de negação extremamente perigoso, que está sendo aflorada a realidade narcísica deste discurso. Ele aponta que neste caso, a única prova de realidade será quando a morte aparecer “ao alcance da mão”, ou seja, quando parentes, amigos, pessoas próximas morrerem pelo coronavírus. “Isso é muito ruim, porque adia as medidas sanitárias que podem restringir a circulação do vírus. A pessoa (negacionista) vai acordar diante de uma situação traumática. […] a chance de isso virar agressividade projetada, monstrualização do outro, espetacularização, negação num nível mais assim delirante, é muito grande”, completa.

Sobre a relação entre a insistência de Bolsonaro em negar espontaneamente o seu suposto envolvimento no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes e o texto de Sigmund Freud chamado “A Negação” (1925), o psicanalista afirmou que não era uma coincidência. 

“O que está acontecendo é que Bolsonaro está confessando a céu aberto. Qual o motivo de ele precisar se apossar, com o uso privatista, das instituições públicas? É óbvio que há ali um tentativa de encobrimento de seus interesses. Ele diz isso explicitamente para Moro quando diz que quer ter o relatório diário do que está acontecendo no Rio de Janeiro, isso tudo é confissão a céu aberto. Infelizmente a denegação ainda não é um procedimento jurídico.”

Na entrevista, o professor destacou que o “fascismo à brasileira”, representado por Bolsonaro, é resultado de um sintoma antigo da sociedade brasileira, que nunca conseguiu encarar a necessidade do equilíbrio social. Segundo Dunker, isso está relacionado com o fato de que o acerto de contas dos períodos de autoritarismo, a injustiça e desequilíbrio social nunca foram feitos. Mas, para ele,  a transformação da realidade pode ocorrer com o atravessamento desse sintoma. 

Assista a entrevista na íntegra concedida ao Jornalistas Livres abaixo:

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