Quando e como produzirmos o novo (e necessário) discurso público para a Covid-19?

Caso os democratas embarquem agora no discurso da normalização da pandemia, irão morder a isca do bolsonarismo
Angel Boligán

Por Igor Guedes Ramos, doutor em História, especialista na área de Teoria da História e Historiografia, professor do Ensino Básico e Superior, público e privado

Desde o final de 2019, a humanidade tem passado por mais um dos inúmeros desafios de sua jornada sem destino pré-definido: a pandemia de Covid-19. O trabalho científico, o esforço coletivo, bem como a liderança do setor público articulando o setor privado criaram condições para superarmos esse desafio, projetarmos o fim da pandemia e retornarmos à “normalidade”. Nesse novo contexto, surge a necessidade de elaborarmos um discurso público que afaste o medo debilitante, cicatrize o trauma e problematize nossos erros e acertos.

Em linhas gerais, esses são os princípios – que considero corretos – que Rodrigo Perez desdobrou em seu texto https://jornalistaslivres.org/precisamos-de-outro-discurso-publico-para-a-covid/. É preciso concordar com o autor que é criminoso o que foi feito e ainda está sendo feito com a educação em nosso país em nome da pandemia. É certo que o medo pode ser manipulado politicamente, criar catástrofes como o nazismo, redução de liberdades formais e substantivas ou perseguição de minorias. E não existe dúvida que a “verdade médica” já foi utilizada para justificar a esterilização de mulheres ditas histéricas, dopar crianças “desajustadas”, escravizar povos considerados “raças inferiores”, patologizar/criminalizar a homossexualidade, enfim, produzir as mais variadas formas de discriminação e desigualdades sociais – como bem demonstrou o nunca suficientemente usado e abusado Michel Foucault, sobretudo abusado no que diz respeito à pandemia.

É fundamental que os formadores de opinião estejam atentos e prontos para denunciarem as manipulações do medo e os arroubos autoritários. Porém, não acredito que é este o caso das políticas públicas de contenção da pandemia em vigor agora no Brasil. Também não acredito que já seja o momento de os formadores de opinião embarcarem na semântica da normalização da pandemia, por dois motivos básicos:

Primeiro motivo, na última semana, o que mais se observa nas conversas – online e presenciais – é o gigantesco número de pessoas testando positivo para Covid-19 e a reprodução de falas como: vida normal, todo mundo vai pegar, a ômicron é igual resfriado, é melhor pegar logo para reforçar a imunidade etc. Ou seja, a semântica da normalização da pandemia já está disseminada e está equivocada. Pois, por um lado, nem quem está defendendo a possibilidade da variante ou cepa (isto está em discussão) ômicron ser o “fim da pandemia” (isso também não é consenso) está dizendo que é para baixarmos a guarda. Por outro lado, a alta taxa de transmissão e a baixa vacinação mundiais são um perigo para todos: novas variantes/cepas, colapso dos sistemas de saúde, sequelas, covid longa, ou seja, o que predomina agora é o que os economistas denominam de incerteza, simplesmente ainda não temos informações suficientes para avaliarmos os riscos – e benefícios – da normalização.

Segundo motivo, caso os democratas embarquem agora no discurso da normalização da pandemia, irão morder a isca do bolsonarismo. Isto é, muniremos o autoritarismo de argumentos contra nossa suposta incoerência: “O que eles querem é Carnaval”. Além disso, o discurso de normalização deve ser cuidadosamente construído, deve superar o medo debilitante, mas não deve minimizar o trauma. Pois, boa parte desse trauma tem responsáveis que devem ser lembrados pela História e punidos pela Justiça.

Contra os diversos negacionismos, medos debilitantes e abusos técnicos, mais que uma semântica da normalização no agora, acho que precisamos de um discurso de cicatrização de caráter empático, democrático e técnico, em médio e em longo prazos.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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