Projac vira cercadinho de Bolsonaro

Globo é frouxa em entrevista; Bolsonaro mente como se estivesse em casa, sem ser desmentido ou contestado
Bolsonaro chega para entrevista com William Bonner e Renata Vasconcellos no Jornal Nacional
Bolsonaro chega para entrevista com William Bonner e Renata Vasconcellos no Jornal Nacional

Poucas vezes um presidente da república ofereceu cardápio tão vasto para ser cobrado por desmandos, ilegalidades e atos contrários ao país. Daí a expectativa de muitos quanto à entrevista de Bolsonaro no Jornal Nacional. Expectativa frustrada. Salvo raros momentos, o que se viu foi a dupla William Bonner e Renata Vasconcellos ouvir as mentiras habituais do capitão expulso do Exército sem reagir à altura. O cercadinho de Bolsonaro apenas mudou de lugar, do Alvorada para o Projac.

Por Ricardo Melo

Ao ser indagado sobre a lisura das eleições logo no início, Bolsonaro disse que só irá reconhecer as eleições se forem limpas e “reconhecidas pelas Forças Armadas”. Bonner ensaiou retrucar, mas de forma insípida e logo mudou de assunto. Nem mesmo remarcou que isto significava que Bolsonaro continua com a mesma ideia: as eleições só serão “limpas” se ele ganhar. Nem sequer foi relembrado que o ex-militar tem sido eleito em sua carreira pelo mesmo processo eletrônico. Uma gafe imperdoável.

A partir deste momento, o impostor se sentiu em casa. Percebeu que poderia mentir à vontade sem ser muito incomodado. Fez assim com a pandemia, em que disse que seu governo agiu como um “exemplo”. Cerca de 700 mil mortes ocorreram com a conivência do governo. Bolsonaro sabotou a vacinação e ridicularizou medidas de combate ao vírus. Empossou um militar como ministro da saúde que afirmou não conhecer o SUS, confundiu Macapá com Manaus e patrocinou tramoias na negociação de imunizantes.

Justiça seja feita, neste momento Renata Vasconcellos rememorou os episódios em que Bolsonaro ironizou os pacientes ao vivo e em cores fazendo blague com a tosse dos doentes. Renata tentou insistir na investida com fatos, mas seu próprio companheiro de bancada interveio pedindo para “mudar de assunto”… Muy amigo.

Assuntos incandescentes, como os mais de cem pedidos de impeachment engavetados pelo aliado Arthur Lira e as rachadinhas, ficaram de fora das perguntas. Sobre o auxílio emergencial, os globais “esqueceram” de assinalar que o governo defendia R$ 200,00.

O valor subiu para R$ 600 pela pressão da oposição. Nenhum dos entrevistadores perguntou por que o benefício está previsto para durar apenas até as eleições. Tampouco se falou do orçamento secreto que favorece os aliados do Planalto de maneira descarada, a compra de tratores para desmatadores etc. etc.

Mas a pior ausência foi a volta do Brasil ao mapa da fome. Nada a respeito, como se a entrevista estivesse tratando da Suíça ou Finlândia. Enquanto as Forças Armadas e o governo se empanturram com a compra de carnes de primeira, camarões e produtos de primeira linha (até Viagra!), brasileiros disputam ossos de animais e restos de comida em caminhões de lixo. Os salários (para quem ainda ganha) estão achatados e a reforma trabalhista institucionalizou o boia-fria. A inflação de alimentos, a que mais atinge o povo pobre, é muito maior que a “oficial”. Resumo da ópera: Bolsonaro repetiu o que vem falando diariamente. Os entrevistadores pareceram mais preocupados em se mostrar “cordiais” do que em desvelar em rede nacional a impostura em que o país está vivendo desde o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

Quem já assistiu a programas de países com alguma tradição democrática sabe que o papel dos entrevistadores é “apertar” o entrevistado. Quando este mente, o fato é registrado ao vivo. Quantas vezes ouvimos no programa do JN a frase assertiva: “o senhor está mentindo como mostram os fatos”? Nenhuma. Isto não tem nada a ver com falta de civilidade, mas sim com o que deveria ser o objetivo do programa. Esclarecer o eleitor e registrar a cada momento as incongruências do entrevistado com os fatos que ele protagonizou. Mesmo com palavras “duras” típicas de uma entrevista para ser levada a sério. Não foi isto o que aconteceu. Como no cercadinho de Bolsonaro.

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