Privilégio, por Dirce Waltrick do Amarante

Fantoches de Paul Klee

Dirce Waltrick do Amarante*

 

A mãe chegou em casa com uma quentinha para ela, para o marido e para os três filhos.

Dividiu a quentinha em duas partes iguais.

Uma parte foi para a geladeira velha e enferrujada para ser usada no dia seguinte. A outra foi a ceia da família.

O osso da única coxa de galinha foi dado para o cachorro magricelo, que logo se engasgou com ele e vomitou.

Antes que o cheiro do vômito inundasse a casa de um cômodo, um dos meninos o limpou com uma folha de um jornal que dizia: “as crianças de hoje, quando estiverem com 87 anos, vão se lembrar dessa pandemia que passa pela vida apenas uma vez. É quase um privilégio você ter vivido essa aventura. Não sei como ela vai terminar, mas vai ser emocionante você se lembrar que estava presente”.

 

*Autora, entre outros, de A biblioteca e a formação do leitor infantojuvenil: conversa com pais e professores (Iluminuras, 2019).

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