NÃO É O MOINHO QUE FAZ GIRAR O CICLO DA DROGA

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Leandro de Souza Santos morreu nesta última terça (27) em uma casa, numa região com alto valor imobiliário na cidade de São Paulo. Poderia ser a história de um patriarca quatrocentão que faleceu no próprio leito, na companhia da família: mas não era. Poderia ser morte natural, não fosse os dezenove anos da vítima, torturada por uma hora e meia antes de ser alvejada com cinco tiros disparados por policiais militares. Também era pai: de uma menina de dois anos. A região é valorizada, mas ocupada: Favela do Moinho, no Centro da cidade de São Paulo. Não é um porto seguro para nenhum morador: o terreno foi comprado pela Porto Seguro.

A Polícia Militar invadiu o Moinho para uma suposta operação para acabar com o tráfico de drogas na região, assim como tem sido feito com a Cracolândia. Mais um ataque às Drogas! Se alguém realmente se importa com as drogas, fique tranquilo: elas continuam bem, viajando de avião conhecendo fazenda de ministro e parlamentar. Avião em Mato Grosso; helicóptero em Minas Gerais. Para [Blairo] Maggi, a cocaína ainda está dando um bom caldo. Não é o Moinho que faz girar o ciclo do tráfico de drogas. Não se preocupem com as drogas, pois elas estão ótimas!

Ontem a Polícia Militar invadiu o Moinho para acabar com a vida do jovem Leandro, e com a paz de Letícia de Souza (irmã) e Maria Odete (mãe), além de outros familiares e amigos. Leandro foi levado para dentro da casa de uma vizinha às dez da manhã e foi torturado por policiais militares até cerca de onze e meia da manhã, quando foi assassinado. Ódio, racismo, cassetetes, punhos, revólveres e um martelo foram usados para a fabricar um cadáver. Mas não era para sequer haver um cadáver…

Após os atos inomináveis de terror perpetrados contra aquele jovem e todos os moradores da região, o corpo foi retirado pelos fundos da Favela e colocado num carro não oficial, modelo Kombi branca e levado até o necrotério do Hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Deveria ter havido misericórdia antes… Os Jornalistas Livres estiveram no hospital, e perguntaram: “onde está o morto?”. Funcionários da saúde diziam: “Não tem!”. O corpo, que sempre esteve lá, velado dos olhos da família que não podia velá-lo, só apareceu quando apareceu o vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) que entrou no necrotério. Um de nossos jornalistas livres viu o cadáver e o as lágrimas da mãe. Por pouco a família não teria nem sequer um corpo para enterrar.

As cidades têm sido o campo de aplicação da Exceção (à lei que proíbe matar, torturar e invadir casas) por meio do Terror. O filosofo italiano Giorgio Agamben não exagera quando diz que a sociedade vive sob o modelo dos campos de concentração nazistas; e Hannah Arendt não exagera ao falar do terror como um princípio de ação totalitária. A exceção não se dá sobre o nada, mas nos corpos de pessoas negras. Genocídio negro em escala industrial, mas no caso de Leandro foi manufaturada: usaram as próprias mãos com esmerado zelo pela tortura, visando destruir cada detalhe de sua dignidade e aparência. Uma hora e meia, enquanto a família aguardava do lado de fora, instrumentalizando a dor até o momento em que decidiram matá-lo: talvez por terem se cansado. Se quisessem apenas matar, um tiro na testa bastaria.

Lembrando de João Doria, outro inimigo das drogas que não consegue fazer mal a elas (só aos usuários!): “Crack, é melhor não entrar!”. Os moradores do Moinho, cuja polícia faz muito mais mal que a droga, dizem, atrás das portas de seus lares: “Polícia Militar, é melhor não entrar!”

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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