Pastor Henrique Vieira lança vídeos para mostrar que o bolsonarismo não é de Deus

Pastor Henrique Vieira

Henrique Vieira, pastor da Igreja Batista do Caminho, no Rio de Janeiro, foi eleito deputado federal com 53.933 votos, pelo PSOL. Professor, escritor, defensor do povo negro, dos LGBTs, das mulheres, ele é conhecido também como um líder evangélico que se joga na vida. Participou no álbum “AmarElo”, do rapper Emicida, atuou no filme “Marighella”, de Wagner Moura, e desfilou no carnaval da Mangueira, interpretando um Jesus mendigo, montado em um burrinho. Mas não se acha pop. Prefere ser identificado como um cristão que ama o Evangelho, luta pelo Estado laico e contra o fundamentalismo religioso que se juntou à extrema direita. No segundo turno, está em campanha para que os evangélicos não se sintam capturados por pastores que os mantêm sob ameaças, constrangidos e impelidos a votar em Bolsonaro (PL).

Para que os cristãos se vejam livres e possam escolher seu presidente sem a chantagem dos orientadores religiosos, Henrique Vieira lança nesta semana uma série de vídeos explicando biblicamente que Jesus é paz e se põe ao lado dos que mais sofrem. O conteúdo, que será postado diariamente em suas redes sociais, pretende mostrar porque o bolsonarismo não tem nada a ver com o amor e a compaixão. “O presidente usa Deus como moeda eleitoral. O fruto que produz é o ódio”, afirma. “Costumo dizer que hoje o Deus de Bolsonaro mataria Jesus, porque são pessoas completamente diferentes.” Para o pastor, Lula, candidato do PT à Presidência, deve ir aos debates sem qualquer receio da truculência, das mentiras e provocações rasteiras que caracterizam o oponente. “Lula pode fazer o bom debate simplesmente lembrando a criança pobre que foi. E revivendo a calma e o espírito sereno que manteve durante os 580 dias em que esteve preso, injustamente.” Veja a entrevista concedida pelo pastor aos Jornalistas Livres:

Jornalistas Livres – Com quem você tem conversado, que tipo atuação está desempenhando no segundo turno?

Henrique Vieira –  Estamos organizando o movimentoO Amor vai vencer”, aqui no Rio de Janeiro, reunindo católicos e evangélicos, que entendem que o bolsanarismo é incompatível com a ética do Evangelho e com a figura de Jesus. É um movimento amplo, ecumênico, com cristãos das mais variadas denominações. Faremos alguns cultos na praça, conversando com as pessoas, mantendo o respeito e a escuta, mas colocando a nossa posição de poio a Lula. Consideramos que Bolsonaro é violento e despreza a vida. Não vamos para dentro das igrejas, entrar nos cultos, nem usar os púlpitos, como eles, infelizmente fazem. É no espaço público que daremos testemunho da nossa fé, e à luz da nossa consciência, declarar o nosso voto. Serão duas grandes caminhadas: no centro do Rio, em 21/10, e na Baixada Fluminense, dia 23.

Jornalistas livres – Para além do seu estado, o que mais estará sendo feito?

Henrique Vieira – Usaremos as minhas redes sociais na campanha. Estou gravando uma série de vídeos, que serão postados diariamente, para explicar biblicamente o quanto a ética de Jesus tem a ver com amor, compaixão, misericórdia, promoção da paz. E porque o bolsonarismo se construiu fora disto. Deus não compactuaria com os escândalos e os abusos do governo. Será um material pedagógico, com linguagem simples, esclarecendo o que é ser cristão e como o cristão se coloca em um momento crítico como o que vivemos no Brasil.

“Tenho 500 mil seguidores no Instagram. Mas Edir Macedo mantém uma rede de TV. Não basta eu me comunicar melhor. Preciso de condições de disputa”

Jornalistas Livres – Por que ainda cala fundo nos evangélicos a mensagem do presidente, uma vez que ele é rude com mulheres, foi inoperante contra a Covid-19, deixou avançar a destruição da Amazônia, dos indígenas e defende o uso de armas pela população? Como grande parte dos evangélicos, que se pauta no amor, ainda identifica em Bolsonaro um ungido por Deus?

Henrique Vieira – Não basta olhar apenas para o campo evangélico. Li um texto brilhante do Ronilso Pacheco [teólogo pela PUC-Rio, ativista, pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo], falando do avanço da extrema direita no mundo e da relação dela com o reacionarismo cristão. Isto se articula internacionalmente com o uso de sofisticados mecanismos de rede. Ou seja, não basta achar que o campo evangélico elege Bolsonaro sozinho. Existe um fundamentalismo cristão espraiado na sociedade brasileira. Esta lógica explica também o avanço da extrema direita na Itália. O reacionarismo cristão global é tema do nosso tempo histórico.

O segundo ponto: entre evangélicos, que são diversos, há segmentos capturados por certas lideranças de muito poder. Há quantas anos elas mantêm concessões de rádio e TV no Brasil? Há décadas você liga a TV, um meio de comunicação de massas, e vê essas pessoas pregando a intolerância, criminalizando LGBTs, perseguindo as outras religiões, criando um posto de submissão para as mulheres. E apoiando o bolsonarismo. São líderes com poder midiático, econômico, político e muitos privilégios. Isso gera enorme capacidade de reverberação de suas ideias, constrói uma coluna ultraconservadora na base evangélica.

Jornalistas Livres – A reação dos evangélicos petistas ou das esquerdas não é muito tímida?

Henrique Vieira – Há muitos progressistas no setor. Eles só precisam ser valorizados, ouvidos e fortalecidos. Tem entre evangélicos um recorte popular e de classe. Grande parte do povo das nossas igrejas é pobre, trabalhador, precarizado, explorado, vive na favela, é negro e feminino. Peço muito à esquerda que separe as coisas e identifique o problema do fundamentalismo. Precisamos desarmar esta bomba que está explodindo na nossa mão para disputar juntos o significado da vida. E por meio do diálogo, pensar um país. O que não podemos fazer é eleger como inimigo o povo evangélico mais simples. Não faz sentido; é dar um tiro no pé.

O bolsonarismo não nasceu no meio evangélico

Jornalistas Livres – A esquerda é considerada intolerante com evangélicos, com a cultura, o modo de vida e os valores deles. Em 2018, foram os evangélicos que garantiram a eleição de Bolsonaro. De lá para cá, a esquerda não aprendeu a lidar com o segmento, mesmo tendo um ponto em comum, que é a preocupação com o povo pobre?

Henrique Vieira – A esquerda tem muito a avançar no diálogo com o evangélico, inclusive entendendo que a fragilidade da democracia brasileira não é responsabilidade exclusiva do setor, assim também como surgimento do bolsonarismo não pode ser colocado na conta dos cristãos. Mas esta não é uma disputa de um time só. Do contrário, fica uma análise sobre a ineficiência das esquerdas. Até reconheço que ela existe. E avalio que as esquerdas vêm buscando melhorar nos últimos anos. Não dá para perder de vista, no entanto, que a extrema direita religiosa detém poderes, comete crimes, pega dinheiro na ilegalidade, fabrica e espalha mentira e ódio em escala industrial. Ela não é mais inteligente e mais produtiva que nós É, como eu disse, ilegal e desleal.

Se não olhamos para isto, corremos o risco de achar que se a esquerda aprimorar a linguagem e acertar o discurso, vai dar tudo certo. Eu tenho um Instagram com 500 mil seguidores. Alguns dirão: “Nossa, que influenciador você é, pastor Henrique!” Mas o Edir Macedo mantém uma rede de TV [o Grupo Record ] com canais espalhados pelo país inteiro. Então não basta eu me comunicar melhor. Preciso de condições de disputa. O problema é mais complexo.

“Aposto nas evangélicas. Elas vão liderar uma virada histórica no setor derrotando Bolsonaro. A interpretação que faço: Bolsonaro odeia as mulheres profundamente, o que legitima uma série de violência contra elas. Isto gera descontentamento, mas também uma reação, uma resposta”

Jornalistas LivresHá muitas irregularidades na concessão de rádio e TV, que se concentram em grandes grupos econômicos ou religiosos. Se eleito, Lula terá que rever isto. Concorda?

Henrique Vieira – Com certeza. É necessário democratizar os meios de comunicação. O jeito que acontecem as concessões e a regulação silencia milhares de vozes, de experiências, despreza a territorialidade e a regionalidade. Uma TV aberta deve ser mais localizada para refletir a realidade e a dinâmica da cidade, do povo que vive nela. O modelo deve ser mais transparente, diverso, popular e, de fato, laico, que respeite a diversidade religiosa e a não-crença. O fundamentalismo crescente é resultado disto: espaços de comunicação dados a determinado segmento religioso. Está errado, precisa ser revisto. Só assim, diferentes grupos poderão ter acesso à produção de comunicação.

Jornalistas Livres – Você está defendendo que grupos sociais organizados, movimentos de agricultores familiares, de negros e dos diferentes feminismos possam ter meios de comunicação?

Henrique Vieira – A sociedade civil precisa de canais de expressão. Isto seria possível, por exemplo, por meio de um edital para que os movimentos chegassem à concessão. Não sou especialista, mas enxergo que não tem aí um problema tecnológico, e, sim, político, de concentração de poder de informação em uma fração da elite brasileira. Quando falamos em democratizar e ampliar o acesso, os que detêm os meios de comunicação acham que é para censurar a voz deles. Na verdade, quem não tem voz é a maioria da população.

Jornalistas Livres – Por que você aposta que as evangélicas pretas, as mais pobres, das periferias vão derrotar Bolsonaro? De onde vem a certeza?

Henrique Vieira – De fato, eu sustento esta aposta. É fruto da minha percepção durante o diálogo e a escuta dos evangélicos. Tem base também em pesquisas que, objetivamente, apontam que o bolsonarismo perde voto entre mulheres evangélicas. A interpretação que faço: Bolsonaro odeia as mulheres profundamente, o que legitima uma série de violência contra elas. E isto gera revolta, descontentamento, mas elabora também a pré-disposição para reagir e responder. Então, estou acreditando que as mulheres vão liderar uma virada histórica entre os evangélicos.

Michelle não é unanimidade entre as cristãs

Jornalistas Livres – Por outro lado, muitas evangélicas se identificam com Michelle Bolsonaro. A primeira-dama se coloca como ajudadora do marido e ora pela vitória dele. Muitas destas mulheres têm em casa um marido difícil, alcoólico, armado ou violento como Bolsonaro – e acreditam que o companheiro estaria protegido e próximo de Deus por meio da oração delas. 

Henrique Vieira – Há as que são como Michelle Bolsonaro, sim. E outras que se colocam fora desta linha, pensando de forma diferente, esboçando o contra-ataque. É pela janela dessas evangélicas que vejo uma resposta sendo produzida contra a truculência do bolsonarismo.

Jornalistas Livres – A resposta passaria por quais caminhos? Pelo sofrimento? O que faria as evangélicas seguirem no sentido contrário ao do líder que, no culto, determina votar em Bolsonaro?

Henrique Vieira – Elas vão falar muito melhor que eu e nas urnas. Pelo que tenho aprendido, estão percebendo que uma leitura bíblica machista provoca estragos em suas vidas. Passaram a questionar o silenciamento, a exclusão, a falta de espaço dentro da igreja. Estão respondendo ao estupro no casamento, à cultura de domínio machista. Elas estão vendo que o bolsonarismo ameaça sua liberdade, provoca padecimento econômico, deixa suas crianças subnutridas, seus jovens sem perspectiva de futuro e de emprego. Pesa ainda a segurança pública que o atual presidente defende, e que mata a juventude preta.

“Se o pastor está te constrangendo, o errado é o pastor. Muitas mentiras têm sido ditas por pastores, e elas machucam as pessoas, levam famílias ao rompimento e dividem a igreja. Já tivemos notícias de tiro dentro de uma, no Sul do país”

Jornalistas Livres – O que você aconselha ao fiel que está com medo de contrariar o pastor?

Henrique Vieira – Eu digo a ele: “Coragem, você é livre para exercer seu pensamento, seu voto. Não se deixe sequestrar pela pressão, inibição ou chantagem. Deus não tem candidato, ele é amor revelado em Jesus. A partir de sua consciência, vote. Se o pastor está te constrangendo, o errado é o pastor. Muitas mentiras e ofensas têm sido ditas por pastores, e elas machucam as pessoas, levam famílias ao rompimento e dividem a igreja. Já tivemos notícias de tiro dentro de uma, no Sul do país, além de muitas queixas de cristãos que querem abandonar a religião. Eu tenho dito que o evangélico pode votar na esquerda ou decidir pelo bolsonarismo. Eu, com minha consciência de cidadão – e não falando em nome de Deus – votarei contra Bolsonaro por acreditar que ele está muito distante do que Jesus ensinou.

Teologia do Domínio para controlar a sociedade

Jornalistas Livres – Faz sentido pensar que no arcabouço do bolsonarismo está a Teologia do Domínio, criada por um pastor norte-americano, e que teria sido adotada, nos anos 1970, pelo Partido Republicano para aumentar votos? Segundo a teologia, é preciso educar jovens com base nos valores protestantes para que liderem postos chaves na sociedade. A Teologia do Domínio tem como pilares o controle da família, das comunicações, da economia, da política, do governo central… Você acredita que o atual governo, de fato, se pauta nela?

Henrique Vieira – Acredito. A Teologia do Domínio entende que todas as áreas da vida devem ser controláveis, orientáveis e domináveis por esta visão religiosa que se considera absoluta, eterna e inquestionável. A ideia de democracia, de estado laico, de diversidade, de cada pessoa seguir a vida conforme seus valores, não existe. Impera uma única verdade. Ela deve prevalecer sobre o conjunto da sociedade, e quem não se adequa deve ser convertido ou eliminado. O diverso é um problema que precisa ser resolvido, um mal a ser combatido.

A Teologia do Domínio elege um mal e justifica o seu abate. Por isto, o domínio tem que acontecer no Estado, nas políticas públicas, no sistema judiciário, nas casas legislativas, na Constituição. Ela dita o comportamento das pessoas na escola, no escritório, na rua, no sexo e determina como as famílias devem se organizar. Não tem espaço privado, liberdade de consciência e de expressão. Não existe direito à diversidade, como no bolsonarismo. E se você está questionando a verdade, não está pondo em teste um pastor, uma doutrina, uma filosofia. Você está questionando Deus. E, na Teologia do Domínio, Deus é inquestionável. Ela tem vocação autoritária, por isto é tão nefasta e perigosa.

Jornalistas Livres – Quem seria o mentor ou o propagador da teologia dentro do governo? Bolsonaro não seria, porque nem evangélico ele é.

Henrique Vieira – Não sei exatamente quem. Trata-se de um grupo político-religioso. Bolsonaro pode não ter lido a Teologia do Domínio. Ele é a Teologia do Domínio e não precisa de grande elaboração para exercê-la. Posso apostar que o pensamento político dele é orientado por um ultra fundamentalismo religioso do Sul dos Estados Unidos. A gente vê articulações dos filhos do presidente com setores de extrema direita de lá. Não acho que sejam ingênuos.

Henrique Vieira na Mangueira
Ao lado do carnavalesco Leandro Vieira, em 2020: “A Mangueira retratou Jesus ensinando a amar. O amor deve ser a marca de quem pretende segui-lo” (Foto/Divulgação)

Jornalistas Livres – Como contrapor a fala, com aparência de fake news, gravada em culto pela ex-ministra Damares Alves (Republicanos), eleita senadora, dizendo que encontrou na gaveta do Ministério da Mulher provas contra máfias que traficam crianças? Aos 4 anos, elas teriam os dentes arrancados para serem usadas no sexo oral e na produção de vídeos pornográficos, oferecidos por 50 mil, 100 mil reais. Segundo Damares, Deus teria escalado Bolsonaro para combater esses criminosos e salvar as meninas abusadas. É possível desmontar este tipo de coisa, que corre nas redes, e ganhar as eleições em menos de 20 dias?

Henrique Vieira – Sendo verdade, somos nós os primeiros a denunciar qualquer violência contra crianças. Não choca apenas a direita. Mas é preciso investigar, ver se tem veracidade. Até as eleições, contamos com poucos dias. Devemos usar as ruas e as redes como arena para desfazer fake news. Com ética, transparência, dentro da legalidade, dizer que Damares e Bolsonaro alimentam uma política que destrói o povo. É isto que quero debater com ela: o governo do qual faz parte despreza o sofrimento das pessoas, o luto, a fome.

Quando o bolsonarismo e o presidente usam a imagem de uma criança fazendo arma com a mão, dão sinais de que matar é política de Estado. Cria um ambiente de terror e agressividade inclusive dentro de casa, contra meninas e meninos. Mas eu chamaria Damares para discutir noutro lugar. O que ela faz – campanha política dentro da igreja – é imoral. Assim como tudo que propõe é imoral, totalmente desumano. Damares não tem sensibilidade nenhuma com as famílias. Mostrar isto é o que nos cabe, além de pedir investigação.

Jornalistas Livres – O que podemos chamar de família, hoje?

Henrique Vieira – Para mim, família é vínculo de amor. Teve uma vez que Jesus foi interrompido por discípulos, que lhe disseram:  “Jesus você passa muito tempo na rua, volta para casa, sua mãe e seus irmãos estão preocupados, te esperando. E Jesus respondeu que todas as pessoas que caminhavam com ele, que comiam com ele, eram a sua família. Ele não desprezou a própria mãe, os irmãos, sua relação genealógica. Ao contrário, Jesus honrou Maria até o final. Mas ampliou o conceito de família para laços de afeto e convivência.

Temos que usar o entendimento de Jesus para expandir o conceito de família, prevendo que são meu pai, minha mãe, meus filhos os que estão ao meu lado e com quem partilho lutas, ações, afetividade. É na relação amorosa que eu garanto segurança e bem-estar para os que estão junto de mim.

Quantas famílias, no único formato que o bolsonarismo propõe, não são famílias, de verdade? Sou pastor, vejo muitas cheias de raiva e hipocrisia. O formato de Deus é o amor. Onde o amor acontece, onde dois homens ou duas mulheres se amam, não consigo ver Deus triste. Eu vejo Deus chorando quando uma mulher é violentada dentro de casa, sob um marido que bate, manda calar a boca, humilha. O que destrói uma família não é um casal gay. Arrasa uma família a mãe ver o filho morrendo de fome sem ter como socorrê-lo. Um pai dormir na rua com os filhos, sem condição de oferecer a eles um teto, isto é destruidor.

Jornalistas Livres – É preciso rever também o conceito de divino, não? Quem é Deus hoje? Quando dizem que todo poder emana de Deus e ele estaria indicando Bolsonaro – quem governa, afinal?

Henrique Vieira – Quando Bolsonaro diz “Deus acima de tudo” está fazendo uma afirmação violenta e danosa. Porque não é Deus. É a projeção de Deus feita por Bolsonaro. Na verdade, é ele mesmo acima de tudo, porque o deus dele é a projeção da própria mente, cheia de ódio e desprezo pela vida. Deus não é candidato nas eleições. Na experiência de fé que eu carrego, Deus se fez carne na pessoa de Jesus. Respeito todas as tradições religiosas, e estou falando do meu lugar de cristão: quem me ensina o conceito de Deus é Jesus. Vejo nele o desenho de Deus para a humanidade. Quando olhou para o povo faminto, Jesus se encheu de compaixão. Ao ver Maria e Marta chorando a morte de Lázaro, chorou junto, diante do luto daquela família.

Quando se deparou com uma mulher ameaçada e pronta para ser apedrejada por homens moralistas, Jesus desautorizou os homens e protegeu a mulher. Ele andou com as pessoas mais amaldiçoadas moralmente pela sociedade. Entrou na capital, Jerusalém, montado em um jumentinho, num símbolo de simplicidade, e no meio do povão. Em vez de usar armas, o filho de Deus preferiu o diálogo. No lugar de condenar, optou por perdoar. Não encontro isto no bolsonarismo. No lugar de matar, Jesus deu a sua vida pela humanidade. Ele foi torturado; não foi torturador. Foi vítima da violência do Estado. Portanto, quem diz quem é Deus, para mim, não é Bolsonaro, mas Jesus. Costumo dizer que hoje o Deus de Bolsonaro mataria Jesus, porque são pessoas completamente diferentes.

Jornalistas Livres – Os debates em campanha eleitoral são sempre muito difíceis. Lula, como está na frente nas pesquisas, se segura muito nestes momentos, tateando as palavras e os gestos para não perder apoios e votos. Por isto nem sempre tem a melhor performance. O que você diria a Lula para ajudá-lo a enfrentar Bolsonaro nos debates do segundo turno?

Henrique Vieira – Eu digo: “Lula, seja verdadeiro. Você é muito melhor que Bolsonaro. Lembra da sua infância, da sua luta pelo pão de cada dia. Lembra da sua sensibilidade diante do povo pobre, da alegria ao ver esse povo crescendo, tendo emprego, renda, comida”. Eu sei que existem estratégias mais agressivas para um debate de TV. Mas eu sugiro que ele não revide, não vá pela lógica da maldade e deixe isso para Bolsonaro. Lula só precisa manifestar o amor que sente. Ter em mente os 580 dias da prisão injusta que enfrentou, quando deu uma lição de perseverança, de não desespero. Deve manter a calma e o espírito sereno que o animou. Se já venceu a fome e a prisão injusta vai vencer também as eleições.

“Sou cristão, discípulo de Jesus, amo o Evangelho e vou defender a democracia, o estado laico a diversidade. Minha fé não é um projeto de poder. É inspiração para amar e servir. Não estarei no Congresso para proteger igreja evangélica”

Jornalistas Livres – Que análise você faz sobre o Congresso Nacional mais conservador que acabamos de escolher?

Henrique Vieira – O Congresso expressa que a extrema direita vai muito além do bolsonarismo. Ela é uma estrutura social já consolidada no Brasil, ocupando muitos espaços de poder. Mas a gente não pode terminar a análise aí, porque ficaríamos paralisados. A representatividade da esquerda está mais potente e com suas bandeiras levantadas. Elegemos, do PSOL, Érika Hilton, uma mulher trans, Sônia Guajajara e Célia Xakriabá, mulheres indígenas, e Guilherme Boulos, que vem do movimento social. O povo elegeu também a mim, um pastor evangélico preto, antifundamentalista. O PT está forte, Lula foi o mais votado no primeiro turno, com 6 milhões de votos na frente do Bolsonaro.

É a primeira vez na história que um presidente, candidato à reeleição, fica em segundo lugar. O campo da democracia, como um todo, está se articulando melhor. Não é à toa que Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT) apoiam Lula. Ou seja, tem um monstro de pé, sim, mas há resistência. O reflexo disto estará no Congresso, onde haverá grandes embates. Por isto, afirmo: não tem aqui batalha perdida. 

Bancada da Bíblia

Jornalistas Livres – Como vai lidar com a bancada da Bíblia, que é forte e também dividida entre múltiplos interesses? Mas ela vota unida as pautas moralistas. Direitos reprodutivos das mulheres, por exemplo, são sempre massacrados. Há dezenas de projetos da bancada, na Câmara, para tornar o aborto inacessível ou criminalizar ainda mais a interrupção da gravidez.

Henrique Vieira – Eu não farei parte dela. Todas as vezes que esta bancada votar contra as mulheres, os pobres, a comunidade LGBT, os trabalhadores, os indígenas e os negros, encontrará em mim uma forte oposição. Vou me levantar sempre que a bancada agir de maneira hipócrita e moralista ou com rancor e desamor, para tirar direitos de mulheres e homossexuais. Sou cristão, discípulo de Jesus, amo o Evangelho e estarei no parlamento para defender a democracia, o estado laico a diversidade. Minha fé não é um projeto de poder. É inspiração para amar e servir. Não estarei no Congresso Nacional para proteger a igreja evangélica. Meu papel será enfrentar o bolsonarismo, que não termina com a derrota de Bolsonaro, e garantir a liberdade, a equidade, a quebra de privilégios.

Jornalistas Livres – Você pediu votos para os fiéis da sua comunidade? Como conduziu a Igreja Batista do Caminho durante a sua campanha?

Henrique Vieira – Eu me licenciei, deixei de frequentar os cultos e não pedi votos. Como forma de respeitar a autonomia da minha igreja e a consciência dos meus irmãos e irmãs de fé. Para isto, contei com a concordância do colegiado da igreja. Nós trabalhamos sempre assim, independentemente de campanha eleitoral. A direção é eleita pela assembleia, em processo democrático. Temos teólogos que pensam a igreja para além da minha figura de pastor, e mantemos um revezamento no púlpito – não sou só eu quem prega. Estimulamos o estudo coletivo da Bíblia para não ficarmos reféns de apenas uma visão. Costumo dizer que sou pastor desta igreja e ela me pastoreia. Nunca fui o representante de Deus.

Jornalistas Livres – Você desfilou na Mangueira em 2020, quando a escola apresentou Jesus com rosto negro, sangue de índio e corpo de mulher. Também gravou álbum com Emicida e interpretou um frade no filme Marighella. Como os fiéis entendem o seu jeito de se jogar na vida? Por que vai ao povo também desta maneira?

Henrique Vieira – A minha comunidade, até onde sei, celebra o meu caminho. Não é uma coisa contrária a ela. Na igreja há feministas, artistas, defensores de LGBTs e dos direitos humanos. A comunidade de fé da qual faço parte, me acolhe e abençoa. Eu me jogo na vida, porque sou assim. As pessoas podem achar certo ou errado, mas o meu coração está sempre em busca de Jesus.

Não fui ao Carnaval da Mangueira porque acho pop e divertido. É divertido também. Concordei muito com o que o enredo estava mostrando: Jesus dos pobres, dos meninos negros, Jesus das mulheres. Fui celebrar Jesus como creio. Ele ficou muito bem nas praças e foi bastante rejeitado nos templos. Vou ao povo porque é no meio dele que Jesus transita. Vejo a igreja como uma forma de celebrar, cantar, louvar e, principalmente, estimular gente a ir para a rua com o propósito de servir, cuidar, amar.

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