PASSAR PANO NÃO AJUDA!!!

Sociólogo antirracista critica declaração de Lula sobre "oferta de mulheres e negros não atender a demanda de espaços no governo"

Por Tadeu Kaçula – CELACC/USP*

A “esquerda branca” está negando os processos históricos de luta e dedicação dos movimentos sociais negros no processo de democratização e ascensão das frentes socialistas ao poder. Depois da última eleição onde o nordeste (preto) garantiu a derrota da extrema direita nas urnas e a volta de Lula à presidência da República, não cabe, em hipótese nenhuma, declarar que a oferta de mulheres e negros não atende a demanda de espaços no governo!

O que vemos de forma CLARA e objetiva, é um governo que escolheu se alinhar com os interesses políticos e econômicos das elites políticas e leiloar ministérios e secretarias especiais a fim de obter apoio no congresso.


Se Lula dissesse que mulheres e negros não construíram espaços de poder político e econômico ao longo das últimas décadas e por isso não foram chamados para compor o governo seria compreensível, pois historicamente esses grupos minorizados foram impedidos de acessar os mecanismos de ascensão social, mas dizer que não há pessoas qualificadas para ocupar espaços estratégicos no governo é a velha retórica elitista de quem não quer e não vai compartilhar espaços com as representações dos grupos minorizados deste país.


Aquela “meia culpa” que alguns de nós ainda esperamos que Lula e o PT façam, pelo jeito não virá e isso, ao meu ver, fragiliza ainda mais as relações entre o governo e os grupos historicamente minorizados. Isso, inclusive, explica muito sobre o avanço da extrema direita no Brasil, pois estamos distantes dos modelos “democráticos” de países a exemplo da França, Alemanha, Argentina e Estados Unidos que já perderam espaço pra extrema direita.

Está por vir um dos momentos mais duros de rupturas políticas. A Europa já está passando por esse momento e os Estados Unidos aponta para o mesmo caminho. No Brasil esse processo vai ocorrer nas eleições municipais de outubro e na eleição da Câmara dos Deputados em fevereiro de 2025.


Quando a crise política se intensificar e o jogo ficar complexo, a “esquerda brasileira” certamente tentará entregar o recibo pros grupos minorizados com a justificativa de que a extrema direita não pode assumir o poder no Brasil sob risco de perda de direitos e ameaça de ruptura da nossa democracia.


E aí? Os grupos minorizados ficarão com a “esquerda” que nega a sua capacidade de participar da construção de um país democrático ou abre mão de apoiar e perpetuar essa narrativa para construir uma nova perspectiva pragmática pra se colocar como maioria representativa e assumir a direção dos rumos deste país?


Enquanto os grupos minorizados tutelarem seus votos e seus direitos para a branquitude do poder político e econômico, que são as minorias sociais do país, estará contribuindo para a perda das suas próprias perspectivas de garantir um futuro estável cujas representatividades sociais minorizadas não sejam mais colocadas como incapazes para compor um governo, mesmo que este seja de coalizão!

(Nota dos Jornalistas Livres: declaração citada foi dada em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo dia 26/06/2024, disponível aqui. Nessa terça 02/07/2024 o presidente, em entrevista à Rádio Sociedade, na Bahia, tentou amenizar ao tom afirmando que os partidos “aliados” na coalização de governo não indicam negros, mulheres e pessoas com deficiência a cargos de primeiro escalão porque são “forças políticas que não combinam no programa ideológico”, disponível aqui).

Artigo publicado originalmente no perfil de Instagram do autor: https://www.instagram.com/p/C841q83OkGa/?igsh=d2F6c2c1cmlmOWNz

*Tadeu Kaçula é Sambista, Sociólogo, Escritor e Antirracista. Mestre e Doutorando em Mudança Social e Participação Política (USP). Diretor da Universidade Afrobrasileira e membro do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos Latino Americanos em Cultura e Comunicação – CELACC/ECA/USP.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Uma crise fabricada

Lula será candidato forte à reeleição em 2026. E seus indicados terão maioria folgada no Banco Central de janeiro de 2025 em diante. Os adversários estão inquietos e fabricam crises.