“Pandora papers” expõem a roubalheira dos ricaços nos paraísos fiscais

O que o megavazamento de 11 milhões de documentos revela sobre riqueza e os negócios secretos do ministro da Economia Paulo Guedes, de Luciano Hang Havan e do chefão do Banco Central, Roberto Campos Neto
Ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes acumula R$ 51 milhões em paraísos fiscais - Marcos Corrêa/PR
Ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes acumula R$ 51 milhões em paraísos fiscais - Marcos Corrêa/PR

Por Ricardo Melo, especial para os Jornalistas Livres

Ricos tentam parecer chiques até na hora de roubar. Nada de falar em esconderijos, mas paraísos fiscais. O nome é sugestivo. Os que utilizam o expediente teriam encontrado o caminho da felicidade em vez do inferno dos impostos, boletos, obrigações sociais e responsabilidades legais a que é submetida 99% da população mundial.

Os “Pandora Papers”, recém-publicados, expõem mais uma vez um esquema internacional que é a cara do capitalismo em estado bruto. Obra do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, o trabalho examinou 11 milhões de documentos. Aqui no Brasil, participaram da investigação sites como o “Poder 360”, a revista “Piauí”, a Agência Pública e outros veículos. Disso resultou um escândalo mundial revelando o tamanho da gatunagem que mantém o mundo na miséria e na pobreza.

A exumação da papelada envolve de chefes de Estado a “empresários” celebrados no mundo inteiro. Detalhe: o Brasil está entre os top five com maior quantidade de pilhados na lista dos usuários dos paraísos. Isso inclui Luciano Hang, Prevent Senior, CNN local e pelo menos mais vinte ricaços.

Eis que, na lista, reluzem nomes como Paulo Guedes (ministro da Economia) e Roberto Campos Neto (presidente do Banco Central).

Até um idiota percebe a incompatibilidade entre tais funções públicas e a utilização de expedientes para fugir de impostos e obrigações cobradas dos brasileiros comuns como nós. Tanto é assim que Campos Neto ensaiou desculpas falando que se afastou da empresa que mantinha no paraíso quando assumiu o cargo –o que é mentira, pois ficou pelo menos mais um mês à frente dela. Esqueceu de dizer o que aconteceu com as outras três onde também tem participação.

Paulo Guedes vive no paraíso enquanto o povo…

A situação de Guedes é ainda pior. Especulador de ofício, proprietário de conta em paraíso fiscal, recusa-se a esclarecer qual sua posição atual na empresa, a movimentação de dinheiro desde que assumiu o cargo e a expor publicamente sua declaração de renda. Guedes é aquele que atacou o direito dos mais pobres de viajar à Disneylândia. Ao mesmo tempo, articula nos bastidores redução de tributos para dinheiro enviado ao exterior. Um salafrário assumido.

Não é à toa que as estatísticas internacionais registram um empobrecimento geral enquanto os ricos ficam cada vez mais ricos. Uma engrenagem infernal, nada paradisíaca para os 99%, está montada para proteger e ampliar a pilhagem dos pobres. E ainda temos que ouvir gente que se diz jornalista dizer que tudo isto não é ético, mas está dentro de lei.

Lei para quem? Para o 1% que vive da exploração cruel e sem limites dos mais humildes e desfavorecidos. Só que, no caso Brasil, nem sequer as leis permissivas acolhem tamanho escândalo em se tratando de autoridades públicas.

Diz o Código de Conduta da Administração Federal, aprovado em 2000:
“É vedado o investimento em bens cujo valor ou cotação possa ser afetado por decisão ou política governamental a respeito da qual a autoridade pública tenha informações privilegiadas, em razão do cargo ou função, inclusive investimentos de renda variável ou em commodities, contratos futuros e moedas para fim especulativo, excetuadas aplicações em modalidades de investimento que a CEP [Comissão de Ética Pública] venha a especificar”.

Precisa desenhar?

Leia outros textos de Ricardo Melo AQUI

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Sítio de Ricardo Nunes em São Paulo fica em loteamento irregular

Prefeito de São Paulo tem 13 lotes em Engenheiro Marsilac, na APA Capivari-Monos, mas apenas quatro estão em seu nome; De Olho nos Ruralistas iniciou série sobre o poder em São Paulo, “Endereços”, contando que ele não tem o hábito de pagar o Imposto Territorial Rural

Maria da Conceição Tavares

Era assim Conceição Tavares: trovejava e relampejava, parecia uma alucinada às vezes, mas se mostrava cuidadosa e ponderada nos momentos críticos

Quem vê corpo não vê coração. Na crônica de hoje falamos sobre desigualdade social e doença mental na classe trabalhadora.

Desigualdade social e doença mental

Quem vê corpo não vê coração.
Na crônica de hoje falamos sobre desigualdade social e doença mental. Sobre como a população pobre brasileira vem sofrendo com a fome, a má distribuição de renda e os efeitos disso tudo em nossa saúde.

Cultura não é perfumaria

Cultura não é vagabundagem

No extinto Reino de Internetlândia, então dividido em castas, gente fazedora de arte e tratadas como vagabundas, decidem entrar em greve.