“O sistema de produção mundial está colocando a América Latina em crise”, diz ex-ministro de Mujica

Roberto Kreimerman, da coligação de extrema-esquerda Unidad Popular Uruguaya, fala sobre o momento do Uruguai no contexto latinoamericano

Roberto Kreimerman em frente ao comitê da UP

Por Joana Zanotto e Isabella Fiuza, Jornalistas Livres direto de Montevidéu.

Caminhando pelas ruas de Montevidéu, no último domingo de eleições presidenciais e legislativas (27/10), avistamos um senhor sentado em frente ao comitê de campanha da Unidad Popular Uruguaya (UP) que lia um livro sobre lutas de classes na Grécia Antiga. O senhor lendo e entregando seus panfletos se tratava de Roberto Kreimerman, ex-Ministro da Indústria, Energia e Mineração do governo de Pepe Mujica entre 2010 e 2015. Ele deixou a Frente Ampla para se incorporar a UP e encabeçar o partido Assembleia Popular ao Parlamento. 

Nos juntamos a ele para conversar por uns instantes ainda pela tarde, antes do encerramento das votações às 19h30. O encontro casual é representativo, nos fez sentir a relação estreita entre as políticas e políticos de esquerda e as comunidades votantes, assim como as fotos de Pepe Mujica e sua companheira Lucía Topolanksky, panfletando e conversando com as pessoas no parque público, disseminadas amplamente nos Whatsapps da geral aqui no Uruguai.

Cruzando pela capital, encontramos dezenas de militantes e candidatos/as da Frente Ampla e da Unidade Popular em tendas, que aproveitavam os últimos momentos para conversar diretamente com a população que participou massivamente dessas eleições decisivas para o país e a América Latina em um contexto onde a agenda progressista, com avanços nas liberdades individuais e coletivas no Uruguai, conquistados nos últimos quinze anos governados pela Frente Ampla, está ameaçada pelo avanço da direita e extrema-direita que já começam a anunciar as coligações para o segundo turno, que ocorrerá no dia 24 de novembro.

O primeiro turno foi encerrado com Daniel Martinez, candidato presidencial da Frente Ampla, em primeiro lugar com 39,2% votos e Luis Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional com 28,6% dos votos. A coligação de esquerda UP teve como candidato a presidente Gonzalo Abella e vice-presidente Gustavo López. A chapa recebeu o equivalente a 0,8% do total dos votos. Nenhum senador da UP foi eleito.

Integrantes da Unidade Popular se consideram marxistas, anti-imperialistas e antioligárquicos. Roberto Kreimerman tinha clareza de que o seu partido não venceria o pleito presidencial e trabalhava para alcançar cadeiras no parlamento. “Nós somos um partido pequeno com a intenção de crescer no futuro, por isso a aposta nessas eleições”, nos explicou. 

O ex-ministro não nos antecipou o posicionamento da UP em relação a possíveis coligações no segundo turno, que já era previsto, por conta da lei eleitoral que proíbe manifestações políticas ostensivas no dia das eleições e também em respeito ao princípio do partido, que alia diferentes correntes. Mas reforçou que para o partido “a democracia é um valor fundamental”. Grupos da extrema-direita, assim como no Brasil, levantam bandeiras com ideais antidemocráticos fascistas.

“Nós [Unidade Popular] temos como ponto básico os trabalhadores porque são a parte majoritária mais vulnerável da sociedade. Com isso o nosso enfoque é melhorar as suas perspectivas”, disse Roberto Kreimerman. Na entrevista ele abordou essencialmente aspectos econômicos para nos responder sobre as questões sociais que permeiam a América Latina.

Jornalistas Livres: Pode nos falar um pouco sobre a Unidade Popular?

Nós somos um partido que já existe há algum tempo, ao qual eu aderi recentemente, e que está basicamente composto por uma série de grupos que possuem uma plataforma comum para trabalharem. Nesse sentido, é um grupo pequeno com intenções de trabalhar fundamentalmente a favor dos trabalhadores.

JL: Caso as eleições do dia de hoje passem para o segundo turno, há alguma perspectiva de alinhamento?

Hoje é dia de eleições e os resultados serão definidos em breve. Em função disso, assim que saírem os resultados, nós iniciaremos as discussões entre grupos distintos que compõem a Unidade Popular para falarmos sobre um possível alinhamento.

JL: Poderia falar um pouco sobre esse momento que a gente vive na América Latina de crescente conservadorismo como isso é visto a partir de uma perspectiva do Uruguai?

Nesse sentido, é necessário afirmar que a América Latina passou por um ciclo importante, reflexo da constituição de mundo, das grandes cadeias de valor que promoveram uma nova organização mundial de trabalho e tiveram também uma influência no preço das matérias-primas, com uma crescente desindustrialização em muitos dos países da América Latina, além de uma concentração de produtos primários, de produtos de baixo valor agregado. Então, vemos mudanças políticas significativas de um lado e, em outro sentido, grandes insatisfações populares na região. O sistema de produção mundial está nos deixando como produtores de bens de baixo valor de mão de obra e de recursos naturais. Ambas as coisas são absolutamente inconvenientes ao nosso futuro e isso é um pouco do que estamos vendo como consequência em muitos dos países.

JL: Como você vê os protestos populares populares no Chile?

Em primeiro lugar, o que nós vemos são vários efeitos positivos e negativos. É evidente que o que me referia anteriormente se vê muito no Chile, porque é um país que tomou fortemente esse processo como política econômica. Outros países da América Latina também assumiram, como já dizia, uma política baseada na exportação de bens primários, com altíssima porcentagem de exportações dependendo desse tipo de produto. Já em seu processo histórico, não realizaram um processo de industrialização ou um processo de desenvolvimento importante, o que conservou uma grande desigualdade. Então vemos, por um lado lamentável, a quantidade de pessoas mortas e a repressão que se instituiu em boa parte e, por outro lado, vemos que o povo do Chile saiu a protestar porque é uma situação muito negativa para os trabalhadores. Desigualdade altíssima, crescente desemprego, custo de vida elevado e o que isso está mostrando amplamente é que o que eu mencionava anteriormente: a estrutura de produção que se apropria desses benefícios, um tema grave para que os povos possam se desenvolver.

JL: Temas como o aumento do custo de vida e falhas na segurança pública estão sendo muito comentados nessas eleições. Os partidos de direita e conservadores estão propondo algumas reformas na segurança que envolvem militarização do Uruguai. Qual é o projeto da UP para que possam melhorar essa questão?

Hoje, o dia das eleições, é um dia em que não posso falar sobre os aspectos políticos do Uruguai por conta da lei eleitoral. Por sorte, por costume dos uruguaios, estamos desenvolvendo esse dia de forma muito natural, comum e com muita participação, mas hoje não podemos falar sobre aspectos políticos. Hoje corresponde a um dia em que a gente se expresse apenas colocando o nosso voto e aguardando pelo resultado.

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