O Rio e a Morte

Ayres e dois índios Kalapalo à margem esquerda do Rio Culuene, em 1946 | Foto: acervo Expedição Xingu 2015

A lama de Mariana que se arrasta agora na água salgada nos mata de sede

Por Helio Carlos Mello, especial para Jornalistas Livres

Em dias de margens e leito nas manchetes em que a lama de Mariana abrange a todos, o pensamento se entope na construção de uma saudade de água doce e seus rios. Imagens históricas da geografia e seus relevos, ainda hoje verdadeiros em algumas regiões do Brasil em áreas de celibato entre a natureza e o colonizador, sempre nos fascinam no curso das águas e seus volumes.

Tudo parece ruir. Para as águas, os povos tradicionais da América reservaram um lugar especial em sua semântica, simbologias de origem. Nossa humanidade o vê, líquido precioso, mais como meio e fim do que uma origem além do que a ciência define. Índios são distintos na significação da água e da terra que percorrem e perfazem, vêem nos elementos fundamento e propósito. Nessa ótica, passo a compreender o caos contemporâneo que se impõe no horizonte, pois para nós mineração, agronegócio e hidrelétricas seguem outros pensares nas leis do mundo.

Índia Matipu aguarda para receber dose de vacina em seu filho. Foto: Helio Carlos Mello

Comecei a frequentar comunidades indígenas há 15 anos, e em seus atributos e significados dados às coisas do mundo, descobri uma distinta conduta ao que nos rodeia, nossa terrena leitura econômica da história. Para esses povos, muitas de nossas fontes são seres, e como tais podem reagir, porque são em si uma mecânica na conduta da vida e dinâmica própria do mundo.

Em maio desse ano, no registro de uma expedição de imunização na terra indígena do Xingu, um amigo me conduziu à revelação de um monumento ao amor, erguido às margens do rio, em território tradicional dos Kalapalo e Matipu. Com a sinceridade de um povo que adora dançar e cantar celebrando, onde guerrear tinha seus fascínios e lógica própria, descubro história sem final feliz e que expõe a perversa relação entre as tramas da mídia, a cultura e o meio ambiente.

Tomei ciência da inusitada história de amor entre o sertanista Ayres Câmara Cunha e a índia Diacuí, na década de 1950. A história veio a público pela revista O Cruzeiro e adquiriu ares de enredo de novela, entre 1950 e 1953. Chegou em seus capítulos derradeiros a ter Getúlio Vargas e Assis Chateaubriand como padrinhos do casal na Igreja da Candelária, após muitos trâmites entre os chefes da igreja católica e as instituições indigenistas da época. Bem, o desenrolar dos fatos se encarregaria de evidenciar as contradições do projeto etnocida no qual a índia Diacuí Kalapalo foi envolvida, juntamente com seu povo, como conclui Helouise Costa, docente e curadora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, “expondo de maneira imprevista a violência extrema que se ocultara sob as boas intenções de seu discurso.”

A reportagem contava a história de amor:

“Aqui está um curioso caso de amor à primeira vista, de onde se conclui que a vida na selva, se é rude e áspera, nem sempre endurece o coração humano. Ayres Câmara Cunha, funcionário da Fundação Brasil Central, foi transferido para um pôsto daquela entidade, próximo a uma aldeia da tribo dos Kalapalos. Conheceu ali uma jovem índia, Diacuí, por quem imediatamente se apaixonou. Ayres não falava o kalapalo e Diacuí muito menos o português, mas isso não representou obstáculo para que os dois se entendessem. Os olhos da indiazinha dispensavam as palavras: deles escorria uma ternura mansa, levando ao coração do homem branco a certeza de que era correspondido no seu amor. E Aires não hesitou: pediu Diacuí em casamento. Os maiorais da tribo, não duvidando dos sentimentos dêle, concordaram com a união dos namorados. Mas eis que uma nuvem veio toldar a felicidade dos dois jovens, sob a forma de um artigo dos estatutos do Serviço de Proteção aos Índios, que proíbe a ligação entre civilizados e selvagens. Chamado ao Rio para prestar esclarecimentos, Aires nada negou, deixando falar bem alto o seu coração. E através da imprensa lançou um dramático apelo às autoridades, no sentido de instituírem uma cláusula no regulamento do S.P.I., permitindo o casamento de brancos com índios. Na foto, Ayres ao lado de Diacuí, num flagrante que lhe aviva as saudades da mulher amada. A índia continua a esperá-lo na selva, sem saber que os separam, com mais fôrça do que as léguas de mata, as leis feitas pelos homens.”

Acima: A famosa atriz Fada Santora penteando Diacuí, na Gávea-RJ | Dir: Assis, Diacuí, Ayers e Jacuí | Acervo Expedição Xingu 2015

Diacuí foi vítima da relação desigual que se estabeleceu entre o colonizador branco e a mídia. Com Mariana não seria diferente.

Somos um país de rios que choram. Neste momento em que o Rio Doce se expõe violentado por nossa humanidade, em que índios Krenak choram limpo nas águas vermelhas de Minas ao Espírito Santo, lembrei-me dessa história do amor consumado e a imagem do rio Culuene, que vai em curva engolindo lentamente, no movimento natural de seu leito, o túmulo de Diacuí.

Importante aqui citar a educadora Marisa Vorraber Costa, da UFRGS:

“As sociedades e culturas em que vivemos são dirigidas por poderosas ordens discursivas que regem o que deve ser dito e o que deve ser calado e os próprios sujeitos não estão isentos desses efeitos. A linguagem, as narrativas, os textos, os discursos não apenas descrevem ou falam sobre coisas, ao fazer isso eles instituem as coisas, inventado sua identidade. O que temos denominado ‘realidade’ é o resultado desse processo no qual a linguagem tem um papel constitutivo. Isto não quer dizer que não existe mundo fora da linguagem, mas sim, que o acesso a este mundo se dá pela significação que é mediada pela linguagem.”

A lama de Mariana que se arrasta agora na água salgada nos mata de sede. O Doce e o Xingu são as faces da moeda.

Acima: Margem do rio Culuene, Alto Xingu, onde se localiza o túmulo de Diacuí. | Abaixo: Túmulo de Diacuí envolvido pela mata ciliar. Fotos: Helio Carlos Mello

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