O QUE O CASO LÁZARO DIZ SOBRE NOSSA SOCIEDADE

NOTA DO COMITÊ GOIANO DE DIREITOS HUMANOS DOM TOMÁS BALDUÍNO

A morte do bandido, atingido por 38 tiros dos 125 disparados, foi festejada! O caso Lázaro nos coloca diante do espelho e nosso reflexo é a nossa face mais horrorosa, ávida por vingança e sangue, que aponta o que, como sociedade, nos recusamos a ver: nossa perigosa confusão entre justiça e justiçamento. Nenhuma morte deveria ser comemorada. Há uma frase atribuída ao Papa Francisco: “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo.” Pobres de nós!

Denunciamos que os nossos mais nobres anseios por segurança pública e direito à vida abundante e plena foram sequestrados por um Estado incapaz de controlar a violência, responsabilizar e ressocializar criminosos dentro da lei. Recusamos a ideia de que nossa segurança depende da quantidade de terror que espalhamos no mundo.

Esse terrível acontecimento que nos obriga a nos manifestar pelo óbvio, por tudo que está escrito na Constituição brasileira, é o momento no qual nos apontam o dedo para nos silenciar, constranger e impedir de falar a verdade incômoda: somos cada vez menos humanos. Apesar disso, nos recusamos a banalizar a morte e sim, dizemos: um homem morto com 38 tiros e uma cena do confronto não preservada indicam que a sede de sangue prevaleceu sobre a justiça, que demandava prende-lo , interrogá-lo para descobrir possíveis mandantes dos crimes cometidos e levar todos para um tribunal. Para nossa sociedade adoecida e confusa, a necessária investigação, prevista em lei em qualquer caso de morte, para apurar o limite da legalidade da atuação policial é o mesmo que apoiar Lázaro e seus crimes. Pobres de nós!

Famílias deveriam viver juntas em segurança e não morrer nas mãos de jagunços criados pela grande fábrica brasileira da grilagem de terras. Somos solidários com as dores de todas as vítimas: das famílias das pessoas que morreram nas mãos de Lázaro; das pessoas que foram agredidas nos terreiros de Candomblé e Umbanda invadidos pela polícia na busca por ele e agora, são associados aos crimes de um assassino que supostamente praticava rituais de magia negra; da esposa de Lázaro, que foi agredida e torturada por policiais para informar o seu paradeiro.

Mas não é só isso. O vídeo do corpo sendo transferido de um veículo policial e jogado, sem qualquer rigor técnico, em uma viatura de emergência do Corpo de

Bombeiros, nos dá indícios da decadência moral em que estamos mergulhados, porque vivemos em uma sociedade que não condena o vilipêndio de cadáveres! Inclusive, a rapidez com que as imagens do cadáver ensanguentado e perfurado por 38 tiros foram manipuladas em animações grotescas e viralizaram pelo whatsapp é outro sinal de adoecimento coletivo e de uma dificuldade profunda de diferenciar o que é barbárie e o que é civilidade e justiça. Pobres de nós!

Apesar de tudo, não seremos intimidados e vamos erguer nossa voz. Não aceitamos as armadilhas infantis de quem grosseiramente mistura a defesa dos direitos humanos previstos na Constituição brasileira com a defesa de crimes, tentando continuamente manipular a sociedade a partir do medo e do ódio. A defesa intransigente da justiça, do princípio do devido processo legal, da paz e dos direitos constitucionais é o que nos separa da barbárie.

Goiânia, 1˚ de julho de 2021

Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino

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