O limite autoritário do humor

Porchat, Lins e os demais podem se ver como o epítome da liberdade de expressão, mas nem todos vão vê-los assim. Eu, por exemplo, vejo covardes defendendo crimes para lucrarem mais um pouquinho

Por Alexandre Santos de Moraes, professor do Departamento e Pós-graduação de História da Universidade Federal Fluminense

Um sintoma de que o Brasil voltou aos eixos é o retorno do debate sobre os “limites do humor”. Durante os quatro anos de Bolsonaro, a trupe de Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Fábio Porchat e seus asseclas de piadocas não geraram muitas polêmicas: o Brasil sofria demais pra conseguir rir de qualquer merda. Agora, quando as coisas começam a entrar nos eixos, mais uma vez a confraria dos libertários se reúne para defender o direito de falar tudo que querem – mas apenas para a comédia, o gênero discursivo que paga seus salários.

                É normal que se faça lobby. Quem ajudaria a esgotar sua própria fonte de dinheiro? Eu, que sou professor, defendo e luto pelo magistério, inclusive pela valorização de nossos salários. Enfermeiros defenderam bravamente o novo piso salarial, garantido há pouco pelo governo. Os carteiros lutam pelos Correios, os motoristas de aplicativo por retribuição mais justa, e assim vai. Algumas lutas são de todos: redução da jornada de trabalho, garantia de direitos trabalhistas, garantia de formação profissional etc. Outras, porém, são bem egoístas. Há quem lute pelo direito de disseminar racismo.

                Um show do humorista Léo Lins foi retirado do YouTube por determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo. A proposta da peça, intitulada Perturbador, era exatamente essa: tensionar mais uma vez os “limites do humor”, fazendo piadas deliberadamente ofensivas. Perceba a diferença: a polêmica, para Léo Lins, não era um efeito colateral da piada; era o objetivo. Esse é o modus operandi do humorista. É uma estratégia aparentemente suicida, que o leva a ser demitido de redes de televisão, a pagar indenizações, a ser criticado, mas que o mantém na mídia – principal preocupação de um mundo orientado pelas redes sociais.

                Diante dos aplausos de uma plateia que valida esse método, Léo Lins já antecipa o processo, dizendo que iria usá-los (o público) em sua defesa no Tribunal. O show é uma exibição, fornida de aplausos conservadores, de um amplo repertório de discursos sobre pessoas deficientes, obesos, travestis, transsexuais, homossexuais, nordestinos e negros. É difícil até reproduzir, a título de exemplo, algumas falas do artista. Lins chega a dizer que na época da escravidão não faltava emprego para os negros e ainda assim eles reclamavam. A plateia, que aplaude, mais uma vez atua como validadora da piada.

                Diante da repercussão, Léo Lins fez algumas postagens muito sérias em suas redes. Achei engraçada sua indignação, mas ele não estava rindo. Logo em seguida, Porchat e outros colegas de profissão, preocupados com seu mercado, correram em defesa da liberdade de expressão, contra a censura. Seria lindo que cada profissional pudesse definir seus próprios limites, mas o mundo não é assim. Aposto que os humoristas conservadores odiariam um médico que praticasse aborto em nome de sua liberdade de clinicar, ou que um professor fizesse apologia ao nazismo usando sua liberdade de cátedra. Mas para eles a regra não vale. Tudo pode ser censurado ou limitado, menos o humor. É um argumento medíocre, sem lastro, mas que enche os bolsos.

                Isso não significa que não haja formas de censura no Brasil. Recentemente, uma professora do Ceará foi demitida por usar uma camisa em homenagem a Hélio Oticica, um dos artistas mais importantes da nossa história. O caso repercutiu, mas os defensores da liberdade não se envolveram muito no debate. Há pouco, fui ao perfil de Fábio Porchat, não sem bastante cinismo, perguntar se essa defesa da liberdade não se aplicaria à minha colega cearense, mas infelizmente fui impedido de me comunicar publicamente porque seu perfil não admite comentários dos usuários.

                A grande fragilidade desse debate sobre os limites do humor é o esforço inocente dos acusados de definirem os termos de sua acusação. Existe a expectativa de que todos estejam sob o mesmo regime de liberdade que eles assumiram para si. A palavra humor, que define o gênero do discurso que eles advogam, se refere ao estado de espírito de algum sujeito. Envolve pré-disposição, vontade, acomodação, serenidade, capacidade, bem-estar. Não existem apenas o bom ou mau humores, mas diferentes tipos de humor. É compreensível que o humor de um sujeito branco de olhos claros acomode bem uma piada envolvendo a cor da pele de um sujeito negro, mas exigir que o negro tenha o mesmo humor diante da piada é um gesto autoritário, digno de quem censura comentários, e não de quem defende a liberdade.

Racismo é crime. A não ser que admitamos que os assassinos definam o que é homicídio ou que os ladrões definam o que é roubo, não parece razoável que o racista defina o que é racismo. Aliás, no mesmo show, falando sobre pessoas trans, Lins diz que “você pode se ver do jeito que quiser, não quer dizer que a sociedade automaticamente vai te ver desse jeito”. Concordo. Porchat, Lins e todos os demais podem se ver como o epítome da liberdade de expressão, mas nem todos vão vê-los assim. Eu, por exemplo, vejo covardes defendendo crimes para lucrarem mais um pouquinho.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Uma crise fabricada

Lula será candidato forte à reeleição em 2026. E seus indicados terão maioria folgada no Banco Central de janeiro de 2025 em diante. Os adversários estão inquietos e fabricam crises.