O adeus da Ford sob o enfoque do ‘jornalixo’

O servilismo de um bando de lambe-botas não nos levou a lugar nenhum, a não ser este em que estamos
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Se você quiser saber o nível do “jornalixo” automotivo brasileiro, basta reparar na forma como 99% dos comedores de migalhas das montadoras noticiaram a banana que a Ford, manifestamente, acaba de dar ao país: estão tristes, sentidos, alguns desconsolados com o “fim de uma história centenária”.

Homero Gottardello, jornalista

São as mesmíssimas pessoas que, há seis meses, não pouparam elogios ao utilitário-esportivo Territory, que custa a partir de R$ 170 mil, um veículo que a Ford compra de um fabricante chinês (lá, o modelo se chama Yusheng) por menos de R$ 40 mil, substituindo as logomarcas da Jiangling Motors – no capô e no volante – pelas suas e vende, descaradamente, como o suprassumo dos SUVs.

Isso, não apenas com a anuência, mas com o impulsionamento de um setor da imprensa que, até ontem, disputava as últimas gotas da outrora farta teta da Ford. Tentam nos convencer de que foram os “péssimos resultados” dos últimos anos que motivaram a decisão de encerrar a produção nacional, ou seja, que a culpa é do mercado brasileiro e, em última instância, de nós, que não compramos tantos veículos quantos eram necessários para satisfação das margens de lucro aguardadas pela Ford.

Agora, me diga qual empresa, em sã consciência, manteria uma linha de montagem e seu maquinário de produção, contrataria pessoal, treinaria, pagaria salários e benefícios, se pode importar um automóvel pronto, acabado, por menos de R$ 40 mil e vendê-lo por quatro vezes mais? Qualquer anormal sabe que, quando se deixa tudo nas mãos das empresas, elas não se constrangeram em aprisionar, traficar e escravizar milhões de pessoas, em nome do lucro – então, por que com a Ford seria diferente, que escrúpulo ela teria, diante da necessidade de lucrar cada vez mais para satisfazer os acionistas e valorizar seus papéis?!?

Portanto, não são “jornalistas especializados” que estão nos informando, são puxa-sacos desqualificados. Sua incapacidade os cega para o fato de não existir, neste mundo, uma única indústria que fecha suas portas em razão do passado, até porque esta é uma decisão notoriamente fundamentada nas perspectivas para o futuro e, se o prognóstico é ruim, o resto que se dane.

Em suma, são as pessoas que, juntas com seus patrões, conseguiram entregar o monopólio da informação para blogueiros, para reboladores, para Whinderssons da vida. E, hoje, choram sobre a perda completa de credibilidade. Mais o pior não é isso: O pior é, agora, noticiarem que a Ford permanecerá no país, dando assistência técnica para seus produtos e com um novo portfólio, até melhor do que era ofertado até ontem.

Se tivessem honradez, dignidade, ética e até mesmo amor-próprio estariam, pelo menos, buscando analisar os fatos sob um viés cívico, sob uma perspectiva patriótica, sob o ponto de vista de quem tem ao menos uma noção de que o desmonte da indústria, no Brasil, precisa de ser interrompido por políticas nacionalistas. Porque o servilismo de um bando de lambe-botas não nos levou a lugar nenhum, a não ser este em que estamos.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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