Notas sobre a guerra: “loucura” de Putin não explica o conflito na Ucrânia

Nesta série de notas, o professor Reginaldo Nasser critica as análises simplificadoras e as saídas "fáceis", além de fornecer dicas de livros para quem quiser saber mais
Isso é uma fotomontagem! Chamar Putin de louco, gângster, psicopata, assassino etc. é perder de vista a complexidade do conflito
Isso é uma fotomontagem! Chamar Putin de louco, gângster, psicopata, assassino etc. é perder de vista a complexidade do conflito

Por Reginaldo Nasser*, do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI)**

DE NOVO OS TAIS “ESTADOS DELINQUENTES”

Subsecretária de Estado Victoria Nuland testemunha no Comitê de Relações Internacionais do Senado americano sobre a Ucrânia
Subsecretária de Estado Victoria Nuland testemunha no Comitê de Relações Internacionais do Senado americano sobre a Ucrânia

Em audiência no Senado americano no dia 8 de março, a subsecretaria de Estado dos EUA, Victoria Nuland, respondeu positivamente a uma pergunta sobre a existência de laboratório de pesquisa sobre armas químicas e biológicas na Ucrânia. Mas, Victoria Nuland arrematou alertando que, se houver ataque com armas químicas e ou biológicas, os responsáveis serão os russos. Parece que a idéia dos “Rogue States”, que foi bastante utilizada durante o governo Bill Clinton, está de volta. Difícil encontrar uma tradução mais precisa para o português: “Estados Delinquentes”, “Estados Párias”, “Estados mal intencionados”, e por aí vai. Notem que não utilizam os conceitos para discutir forma de governo ou regime político. Eles vão mais além, qualificando o comportamento dos Estados a partir de uma suposta intenção. Vejamos por exemplo, a questão nuclear. É de conhecimento público que vários países possuem armas nucleares, mas o problema são os “loucos” que podem não fazer uso “racional” das armas, como Coréia do Norte, Irã e atualmente Putin. Notem, não se fala em governo da Rússia, mas Putin. Concepção individualizada que permite deduzir ações de Estado, aliás de uma grande potência, a partir de questões comportamentais psicológicas e/ou morais. Há uma infinidade de adjetivações que circulam por aí: louco, gângster, psicopata, assassino etc. Com isso, perdemos a complexidade da análise da Política Internacional, que comporta uma série de elementos históricos, sociológicos, econômicos e geopolíticos. Pode-se criticar as decisões de Putin e eu, particularmente, compartilho muitas delas, mas avaliar ações politicas requer cuidado. Nesse sentido, para quem quer se aprofundar na leitura sobre Putin, leia “The Putin Paradox”, de Richard Sakwa. I.B. Tauris; 2020. Um livraço!

PERSPECTIVAS PARA A PAZ MUNDIAL

Em entrevista para a TV, a senadora Hillary Clinton, uma das políticas mais influentes em Washington trouxe à lembrança o apoio que os EUA deram aos Mujahidin ( guerrilheiros) no Afeganistão na década de 80. Durante a conversa ela disse que “Não acabou bem para os russos”. Sim, os soviéticos se retiraram do país e pode-se dizer que foram vencidos militarmente. Foram mais de 10 anos de Guerra, morreram mais de 1 milhão de afegãos, além de milhões de feridos e refugiados. Um outro “saldo” dessa guerra foi a constituição da Al Qaeda e Taliban cujos militantes foram treinados e armados pelos EUA e Paquistão. Realmente, é isso que está acontecendo nesse momento. Armas de todos os tipos, com alta qualidade técnica e capacidade de destruição, estão fluindo diariamente para a Ucrânia. Claro que não estão apenas nas mãos de militares. Nos anos 70, a CIA cunhou o termo “blowback”, para designar aquilo que chamamos popularmente: tiro saiu pela culatra! As perspectivas, mesmo com o final da guerra, não serão nada boas para a paz mundial. Comento essas questões relativas ao Afganistão, em livro que publiquei ano passado: “A luta contra o terrorismo: os Estados Unidos e os amigos talibãs”, Editora Contra Corrente.

UCRÂNIA COMO INSTRUMENTO DE GUERRA DOS EUA

Nos estudos de Segurança Internacional, há um conceito – “espiral de insegurança” – que é utilizado para designar o momento em que as escolhas que um país faz para alcançar seus interesses, acabam por prejudicar os interesses de outro país, que responde, gerando uma nova percepção de ameaça. O resultado é um ciclo potencialmente vicioso de escalada de insegurança. Acrescente-se à escalada militar a guerra econômica e a consequência é o isolamento de um pais, no caso atual, uma grande potência. O paralelo histórico de isolamento repentino de uma grande economia são os casos da Itália, Alemanha e Japão nos anos 30. Claro que as circunstâncias são diferentes, mas é bom ficar de olho. Isolamento leva, por sua vez, a uma nacionalismo agressivo. Aliás, difícil lembrar de um único caso em que sanções e isolamento são capazes de reverter a decisão de um chefe de Estado. Aliás, em matéria no “The New York Times”, assessores de alto escalão do governo Biden disseram, sob condição de anonimato que quando mais pressionar Putin, mais haverá escalada de violência. Ora, se é isso porque insistem nessas medidas? Tudo isso nos leva crer em algo que circula pelas redes. O povo ucraniano é vitima das forças armadas da Rússia e instrumento de guerra dos EUA. É preciso dar uma basta a essa tragédia.

Em tempos de russofobia é preciso conhecer a historia, a cultura, a economia e a política da Russia. Leitura recomendadíssima – “Os Russos”, de Angelo Segrillo – editora Contexto.

**Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI)

Reginaldo Nasser* – Prof Livre-docente na área de Relações Internacionais da PUC(SP), Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e Puc-SP), coordenador do GECI ( Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais) e pesquisador do INEU ( Instituto de Ciência e Tec. para Estudos sobre os EUA.)

**Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI). Vice-coordenador: Bruno Huberman, professor de Relações Internacionais da PUC(SP) e pesquisador do INEU ( Instituto de Ciência e Tec. para Estudos sobre os EUA.)

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COMENTÁRIOS

  • Boa noite. O Richard Sakwa, historiador britânico citado no texto, escreveu um livro excelente sobre as relações Ucrânia-Russia: Frontline Ukraine: Crisis in the Borderlands, publicado em 2015. Acho que só tem em inglês. Vale muito a pena, e faz você entender o conflito fora das análises rasas do mainstream.

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