Notas sobre a guerra: a invasão da Ucrânia repercute nos Bálcãs

Em março de 1999, mulher de origem albanesa amamenta bebê em fuga para Macedônia Foto Reuters
Em março de 1999, mulher de origem albanesa amamenta bebê em fuga para Macedônia Foto Reuters

A invasão da Ucrânia pelas tropas russas tem repercutido diretamente na região dos Bálcãs, que já viveu algo semelhante em 1999, quando a OTAN justificou empreender uma intervenção humanitária na Iugoslávia. Foram 78 dias de guerra com intenso bombardeio aéreo e, ainda que não tenha tido combatentes terrestres, a intervenção foi marcada pelo alto número de mortes de civis, pelo intenso fluxo de refugiados e pela destruição da infraestrutura da região. Muitos são os paralelos traçados entre a intervenção da OTAN na Iugoslávia e a invasão das tropas russas na Ucrânia. Não por acaso, nos últimos dias, as redes sociais ficaram marcadas por comparações entre os dois casos, especialmente no que tange à disputa entre grandes potências.

Por Victória Perino Rosa*, do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI)**, coordenado pelo professor Reginaldo Nasser

Para além dos debates nas redes sociais, desde o início da invasão da Ucrânia, autoridades dos governos da região e aliados têm se movimentado (para pressionar a favor/conter) a entrada imediata do Kosovo na OTAN, que desde 1999 encontra-se sob ocupação de forças internacionais e tem o status internacional de independência disputado (1). Isto porque, tem sido difundido o temor de que a ação da Rússia na Ucrânia possa representar uma possibilidade de desestabilização, também, nos Bálcãs.

Bálcãs: tão longe e tão perto da Ucrânia

Em carta enviada ao presidente Joe Biden e ao secretário de Estado Antony Blinken na última sexta-feira (04/03), por exemplo, o congressista democrata Ritchie Torres fez um apelo à inclusão do Kosovo como estado-membro da OTAN. Na carta enviada ao presidente Biden, Ritchie afirma que “a pequena nação dos Bálcãs é uma aliada próxima e leal dos EUA e deve aderir à aliança como forma de combater a influência russa na região”.

Na última semana, o parlamento do Kosovo também aprovou uma resolução para iniciar o processo de negociação para entrada do país na OTAN: “O parlamento do Kosovo pede ao governo que tome todas as medidas necessárias, em coordenação com os parceiros internacionais, para apresentar o pedido de adesão à OTAN, União Europeia, Conselho da Europa e outras organizações internacionais”, diz a resolução.

Em resposta às recentes mobilizações para acelerar o ingresso do Kosovo na aliança militar, o ministro do Interior da Sérvia, Aleksandar Vulin, declarou que a iniciativa representaria tanto a anulação da Resolução 1244 da ONU, quanto do acordo de Kumanovo, ambos em vigor desde o encerramento da Guerra do Kosovo em 1999 e que, dentre outros elementos, descrevem os papéis e o mandato para presença das missões da ONU (UNMIK) e da OTAN (KFOR) no Kosovo. Em sua declaração, Vulin ainda acrescentou: “Alguém suspeita que o primeiro-ministro do Kosovo, Albin Kurti, ‘hesitaria’ em atacar os sérvios, especialmente no norte da província e provocar conflitos e provocações até que o estado da Sérvia seja forçado a defender seu povo?”.

Cabe destacar que, desde a Guerra do Kosovo em 1999, marcada pelo enfrentamento entre as tropas sérvias/iugoslavas e o Exército de Libertação do Kosovo (ELK), a OTAN e as potências ocidentais assumiram um papel de destaque nos Bálcãs. Isso porque, além de a aliança militar ter liderado o bombardeio contra a Iugoslávia, a Organização garantiu uma forte presença de suas forças na região posteriormente.

OTAN e o pretexto dos “direitos humanos” nos Bálcãs

À época da guerra, a ação da OTAN foi amplamente aceita internacionalmente, já que estava amparada na percepção de que era necessário garantir os direitos humanos dos albaneses no Kosovo. A memória do genocídio na Bósnia (1992-1995) ainda estava em mente e, dentre outros fatores, a percepção era de que as potências não poderiam permitir um novo massacre na região.

Não se pode negar o processo de intensa violência perpetrada por forças de segurança sérvias/iugoslavas contra albaneses no Kosovo durante o governo de Milosevic na Iugoslávia. De fato, na década de 1990 estava em curso uma política de limpeza étnica no Kosovo. Por outro lado, é preciso chamar atenção para o fato de que, utilizando-se da prerrogativa dos “direitos humanos” a OTAN, às margens do direito internacional, lançou mão de bombardeios sobre uma população, a pretexto de salvar outra.

Não só muitos civis foram mortos, como toda a infraestrutura na região, especialmente na Sérvia, foi atingida e destruída. Aquela que foi considerada “uma guerra para o bem do mundo”, sob liderança dos Estados Unidos, representou uma ação bem sucedida do imperialismo sob a cortina da intervenção humanitária. O caso da OTAN no Kosovo nos ajuda a lembrar que, antes de traçarmos paralelos baseados no direito internacional, ao analisarmos as ações das grandes potências, é preciso investigarmos as motivações no campo da política internacional. No caso do Kosovo, a memória da guerra e da intervenção das grandes potências ainda repercutem os efeitos.

(1) Em 2008, o parlamento do Kosovo auto-declarou a independência da Sérvia. Hoje, o país é reconhecido por mais de 100 países-membros da ONU. Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, por exemplo, reconhecem a independência. Sérvia, Rússia e Brasil ainda não reconhecem a independência kosovar

*Victória Perino Rosa é mestranda em Relações Internacionais no PPG San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). É pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI)

**Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI)

Coord – Reginaldo Nasser – Prof Livre-docente na área de Relações Internacionais da PUC(SP), Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e Puc-SP), coord do GECI ( Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais) e pesquisador do INEU ( Instituto de Ciência e Tec. para Estudos sobre os EUA.)

Vice – coord – Bruno Huberman – prof Relações Internacionais da PUC(SP) e pesquisador do INEU ( Instituto de Ciência e Tec. para Estudos sobre os EUA.)

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