Nem técnicos, nem neutros: os militares na história recente brasileira

Uma breve olhada na história das Forças Armadas mostra que de Duque de Caxias até Pazuello, para o bem e para o mal, o Exército nunca esteve despolitizado

Victor Milezzi*

Parece ser uma corrente de opinião relevante no Brasil de que os descaminhos realizados pelo governo Bolsonaro teriam no Exército um agente moderador. Os militares seriam, de alguma forma, contra a politização das Forças rmadas. Além disso, seriam técnicos de altíssima qualidade, com capacidade para lidar com as questões que atualmente tiram o sono dos brasileiros. Ao que parece, Bolsonaro não foi o único mito vendido em 2018.

Uma breve olhada na história da instituição vai mostrar que de Duque de Caxias até Pazuello, para o bem e para o mal, o Exército nunca esteve despolitizado. Luís Carlos Prestes, Nélson Werneck Sodré, Carlos Lamarca e tantos outros, foram ativos militantes de esquerda – orientação comum entre oficiais, antes dos expurgos promovidos pela ditadura.

Para a direita, existe uma quantidade massiva de exemplos, que só o fato de ter de explicar já mostra a miséria do debate. Pois bem, os presidentes do regime militar eram, de alguma forma, apolíticos? Que absurda concepção é essa, onde o poder estatal – o mais tradicional lugar da política – seria apolítico? Golbery Couto e Silva, o principal articulador político do Brasil por 30 anos, seria um tecnocrata?

Formado a partir da necessidade de suprimir revoltas e esmagar o Paraguai na guerra, o Exército passou no final do império a constituir a espinha dorsal do Estado brasileiro. O genocida Duque de Caxias não fez nada disso apoliticamente. O esmagamento de revoluções visava expurgar do império o ‘jacobinismo’ e do ‘haitianismo’. Seria igualmente risível afirmar que o Marechal Deodoro da Fonseca deu um golpe militar apoliticamente para estabelecer a República.



Na questão da abolição, os militares foram uma força politicamente progressista – e que bom! Os militares seriam ainda os radicais que integraram a ideologia difusamente modernizante do tenentismo. Daí surgiu o grande líder comunista, Luís Carlos Prestes, mas também notórios reacionários, como Filinto Müller.

Após o Estado Novo, no qual os militares representaram politicamente um elemento em geral estabilizador, os quartéis continuaram politizados. As eleições para o Clube Militar eram a disputa entre nacionalistas progressistas e conservadores. Ora, poderia uma eleição ser apolítica? Pois bem, essa disputa caracterizou o Exército no período pré-64, pendendo para a direita de forma geral.

Quando o Marechal Lott impediu o golpe contra Juscelino Kubitschek, é verdade que foi uma atitude republicana. Republicanismo é, como sabemos, uma característica política, assim como o golpismo dos oficiais que pressionaram Getúlio e depois derrubaram João Goulart.

Quando, voltando da 2ª Guerra Mundial, oficiais se alinharam com os Estados Unidos, construindo as concepções da Escola Superior de Guerra, isso foi uma atitude muito política. Aqui, com um desenho ideológico óbvio, que colocava a própria população como inimigo interno. A Doutrina de Segurança Nacional é, ela mesma, extremamente política.

A volta da ditadura, o auto-perdão dos torturadores, o revisionismo histórico do período autoritário, as constantes ameaças à ordem constitucional por generais da ativa e da reserva: todos são ações políticas. Quando, ao invés de simplesmente fazerem só execuções extra-judiciais, os militares levaram certos prisioneiros políticos aos tribunais, qual foi a natureza dessa decisão? Futebolística? Biológica? Arquitetônica? Mesmo uma criança pode responder: é política.



Resta então a pergunta: de onde vem essa imagem, essas ilusões?

Em parte, o discurso modernizante da ditadura, a ideia do estado técnico que apenas aplica medidas “boas” em geral para o país ir “para frente”. Esse programa foi produzido antes da ditadura, através de instituições como o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD).

Não é surpreendente que uma camada do Estado tente esconder seu caráter político – isso acontece o tempo todo, principalmente na economia. O impressionante é que jornais, políticos, intelectuais e todo tipo de pessoas, do liberalismo até as posições progressistas, toparem esse discurso. Quando se apagam as linhas de força políticas às quais uma instituição responde, se abre espaço para mitificações de todos os tipos. É isso que está por trás das reações exasperadas quanto à impostura e incompetência de Pazuello.

Também não se quer aqui exigir da realidade algo que ela não pode dar. Pedir um exército despolitizado, uma escola despolitizada ou qualquer instituição pertencente ao mundo humano despolitizada, é pedir o impossível. A questão é: se o Exército tem política, e ele sempre vai ter, por que ela não é discutida no debate público? Por que não se revisou a doutrina militar depois da redemocratização? Por que guardamos, no íntimo do nosso Estado, um cão de guarda dos Estados Unidos?



(*) Victor Milezzi é um comunicador militante, organizado nas Brigadas Populares, estudante de História pela UFSC e redator freelance. Contato para trabalho através de [email protected].



Bibliografia:
PEREIRA, Anthony. Ditadura e Repressão – Autoritarismo e estado de direito no Brasil, no Chile e na Argentina. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
MORAES, João Quartim de. História do marxismo no Brasil. Campinas: UNICAMP, 1995.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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