Nasce a Ocupação Devanir José de Carvalho, um território livre da fome em Diadema (SP)

Desde a noite da última sexta-feira (13), cerca de 150 famílias sem-teto ocuparam um terreno abandonado há mais de 10 anos na cidade de Diadema em São Paulo
Fotos: Adriano Tomé e Manuele Coelho


Desde a noite da última sexta-feira (13), cerca de 150 famílias sem-teto ocuparam um terreno abandonado há mais de 10 anos na cidade de Diadema em São Paulo, denunciando a fome, o desemprego, o descaso do governo Bolsonaro e lutando, principalmente, pelo direito à moradia digna.
A Ocupação Devanir José de Carvalho, como foi batizada pelas famílias, carrega esse nome em homenagem ao grande lutador popular, operário e líder sindical do ABC, que lutou contra a ditadura militar do Brasil. Devanir foi torturado e assassinado pelo estado militar fascista e até hoje seu corpo segue desaparecido.
As famílias organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), são compostas em sua maioria por mulheres negras e mães, trabalhadoras e trabalhadores, crianças e idosos que têm vivido o sob o fardo da falta de moradia, do desemprego, pela fome e pelo descaso promovido pelo governo federal.


No Brasil, 8 milhões de famílias não moram dignamente, somente no ABC são mais de 200 mil famílias nesta situação. Mais da metade dos lares estão em insegurança alimentar, já ultrapassamos mais de meio milhão de mortos de covid-19 e quase 15% da população está desempregada. Aumentou o preço dos alimentos,
do gás, das contas de luz e água, do aluguel e das passagens. Com o desemprego, fica impossível arcar com esses gastos.


“UM TERRITÓRIO LIVRE DE FOME”

Frente à miséria e a situação que vive o povo pobre, os moradores da Devanir José de Carvalho reivindicam a Ocupação como um TERRITÓRIO LIVRE DE FOME. No território construído pelas famílias do MLB, a solidariedade e
coletividade permitem que todos possam se alimentar e garantir alimentação para seus filhos, além de contar com uma creche, onde as crianças recebem cuidados e constroem a esperança de um teto sobre suas cabeças.
Enquanto o povo passa fome e tem medo de ter que morar na rua com a família, para Bolsonaro, sua família e os militares tudo está resolvido. Compram mansões, aumentam os privilégios, aumentam o próprio salário, estão todos
morando bem, usam nosso dinheiro para comprar deputados e desfilam com tanques de guerra nas ruas.
Para agravar ainda mais a situação das famílias pobres, na última semana o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), vetou a PL que suspenderia as reintegrações de posse e despejos durante a pandemia, deixando
milhares de famílias sob a ameaça de perder suas casas diante do alto custo do preço dos aluguéis e remoções irregulares durante a maior crise sanitária e econômica da história mundial. Esse veto é uma demonstração direta do descaso do poder público com a situação do povo brasileiro, visto que somente durante a pandemia da Covid-19, mais de 14,3 mil famílias foram despejadas no Brasil, destas mais de 3 mil só na cidade de São Paulo, segundo dados da Campanha Despejo Zero.


“Não aguentamos mais! Assim como eu, as famílias que estão aqui estão desempregadas há anos, não temos onde morar, não temos creche para as nossas crianças e estamos passando fome. O governo só tem piorado a nossa vida e não vamos aceitar morrer de fome com as nossas crianças. Estamos aqui ocupando porque é importante que a gente se organize e lute pelo direito de morar e de viver”,


diz Daniela Aparecida, uma das moradoras e coordenadora da Ocupação.


As famílias tomaram posse do terreno localizado no bairro Serraria na madrugada e de forma organizada construíram, além das casas, uma cozinha coletiva, um espaço para creche das crianças e espaços coletivos. Desde a manhã, a Ocupação tem recebido doações e visitas de apoiadores vindo de toda a região do ABC e da capital de São Paulo, moradores do bairro, movimentos sociais, coletivos e parlamentares. As famílias seguem em luta e já iniciaram uma negociação com a prefeitura da cidade.

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