Não vote como você come

A gente vota como come, mas não devia. Nem sempre dá pra escolher o prato que nos apetece.

Por Alexandre Santos de Moraes, historiador e professor na Universidade Federal Fluminense

Comida é uma fonte tão boa de metáforas que vale a pena abusar. Afinal, somos o que comemos, e como somos falhos e incompletos, muitas vezes comemos errado. Todo mundo sabe o que cativa o paladar, mas com o tempo aprende a negociar com o próprio prazer por entender que o que se gosta não é necessariamente o que se precisa. Por questão de saúde, é preciso torcer o nariz e comer o que é saudável. Com a democracia dá-se a mesmíssima coisa: às vezes votamos como é preciso, e não como gostaríamos.

                Votei contrariado algumas vezes. Não foi com prazer que vi alguns rostos na urna eletrônica antes de apertar a tecla verde. Menti a amigos quando disse que anulei em duas ou três ocasiões. Mas o que antes me parecia incoerência e fonte de vergonha, hoje vejo como senso de responsabilidade. O “voto útil” é um tema polêmico tanto para a direita como para a esquerda: além dos argumentos moralistas, de quem faz da própria opinião a medida de todas as coisas, há também a crítica ao pragmatismo político, o grande algoz dos sonhos e utopias.

                A gente vota como come, mas não devia. Nem sempre dá pra escolher o prato que nos apetece. Nem sempre é correto abusar daquele doce ou daquela feijoada salgada e gordurosa. Por vezes a gente precisa de frutas, legumes, verduras, carnes magras e opções menos convidativas para ficarmos saudáveis e bem alimentados. Nesse momento, o Brasil precisa voltar a comer. De todas as tragédias provocadas pela gestão Bolsonaro, a volta da fome é sem dúvida a mais devastadora, e só a defesa da democracia vai garantir comida na mesa.

                Para muitos de nós, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva é um verdadeiro banquete. Quem não foi cooptado pela cantilena jurídico-midiática da Lava-Jato hoje se vê diante da oportunidade histórica de reeleger o metalúrgico de Garanhuns. Outros, porém, torcem a cara, e não podemos criticá-los por isso: é preferível o cardápio variado da democracia, que alberga vários gostos, à dieta monótona de um governo autoritário. Além disso, como se diz por aí, “gosto é gosto”: a gente discute, mas respeita.

                Assim como nosso paladar pode ser ruim para nossa saúde, o gosto pessoal pode ser terrível para a democracia. Vivemos um momento de crise muito particular. Não são apenas dois projetos políticos antagônicos que estão em jogo, mas a própria possibilidade de seguirmos discutindo projetos. Há, de um lado, o campo democrático, que respeita as regras da política; do outro, há milícias armadas que semeiam mentiras, ameaças e violência. Com as falsas suspeitas lançadas e as tensões afloradas, um segundo turno pode ser indigesto.

                Por fim, é bom que se diga que a boa comida não é exatamente “útil”, como seria o voto em Lula no próximo dia 2 de outubro. A boa comida é necessária, tão necessária quanto a resposta democrática ao autoritarismo genocida que foi servido nos últimos anos ao povo brasileiro. Nessa semana não é o seu ou o meu paladar que estão em questão: é a necessidade de dar uma resposta contundente para tirar o gosto amargo da podridão bolsonarista. Por todos que morreram, sofreram e lutaram, compareça às urnas e peça aos seus que façam o mesmo. Depois, com todos de barriga cheia, voltamos a divergir com o respeito que a democracia inspira. 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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