Não há vagas

Bem-vindos e bem-vindas ao “Café com muriçoca” - espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. No texto de hoje, "Não há vagas", Dinha fala sobre (a falta de) trabalho, alimentação e sobre "animais" que manjam de economia.
Não há vagas - Fundo roxo e preto com rostos de mulheres negras
O meu preço

“O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.

Não cabem
no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão”
Não há Vagas - Ferreira Gullar

“Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
(...)
Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.
Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema.”
O meu preço - José Craveirinha

“No tempo do original “Não há vagas”, como hoje, também não havia postos de trabalho o suficiente para que nós, pobres, pudéssemos ser devidamente exploradas… ops… eu quis dizer empregadas…. e o preço do arroz, do feijão, do gás, da luz, da água e da vida também não cabiam nos parcos e poucos salários que o povo ainda hoje se esforça por tentar receber.”

Essa semana circulou nas mídias o anúncio de uma vaga de emprego muito bacana: pagava bem, não exigia demais e dava preferência a mulheres negras que gostassem de leitura e escrita. 

Recebi a mensagem sobre a vaga vinda de umas cinco ou seis amigas, companheiras de afeto e batalhas.

Eu vi e pensei:  nossa! Muito da hora.  O problema, pensei comigo,  é que a vaga era boa demais pra que eu tivesse uma chance – mesmo atendendo plenamente a todos os pré-requisitos (como outras milhares de mulheres). Eu com certeza não conseguiria parar pra escrever um texto sobre uma passagem engraçada da minha vida,  conforme a exigência do processo seletivo, porque estava ocupada com as tarefas da sobrevida e também porque meu humor é bem trágico. Quando escrevo, a melancolia me domina.

Dito e feito,  porque,  já no dia seguinte, havia uma enxurrada de inscritas. Deu no jornal.

É justo. 

O desemprego galopa a motor.  A fome se espalha numa velocidade sem luz. Como eu, as mulheres sem renda ou emprego fixo se desdobram para prover rango para as crias e ração para os bichos. Existe uma fome que deveria ter sido resolvida no ontem.

Não sei se sabem que eu sou gateira, com orgulho. Mas não gosto mais de bicho que de gente – já contei isso aqui pra vocês.  E, na atualidade, malemá tenho duas gatinhas, mas já tive oito, dez, doze… 

A Sombra  tem uns quatro anos de idade e é uma gata preta, sóbria e exclusivista – não gosta de dividir espaços nem pessoas com bicho nenhum. Mas é carinhosa e protetora. Um dia briguei com ela porque me trouxe o coitado de um beija-flor que, a contragosto dela, deixei fugir. 

Já a Freddy, é quase um bebê ainda. Preta com rajados amarelos, ela brinca o tempo todo e conversa. Não se abre uma porta sem ela miar – e eu sempre me pergunto do que afinal ela estaria falando.

As duas gatinhas também têm modos diferentes na hora de comer. A Sombra come ração de primeira,  de segunda, de terceira… da marca que vier, exceto da U-iscas (ela faz a “caixa de areia” pra essa marca). A Freddy, no entanto, escolhe a ração pelo preço – o maior, que fique dito. 

Eu sou pobre e artista em tempos pandêmicos – minha renda não contempla rações adequadas à saúde ou à vontade das duas bonitas – pelo menos não o mês inteiro. Então eu faço o que não deveria: compro uma porção com base na maior qualidade e a outra com base no menor preço. Misturo as duas pra render mais e pagar menos. A Sombra não liga e já nem tem crises digestivas com isso, mas a Freddy não só recusa, como reconhece a ração barata – o que me faz pensar que ou ela sabe o preço, ou anda de conluio com o dono da lojinha…

Tela de reunião de gatos no google meet
Animais que manjam de economia – Montagem com imagens do google.

Como mãe, várias vezes me vejo tendo que escolher entre ração para as gatas ou proteína pras  meninas. Daí então eu, que sou a mais ruim em matemática, me divido, me multiplico, apelo “pras amiga”, e damos um jeitinho. 

Só que a Freddy reclama. Essa figura, eu juro que ela sabe o preço da ração e isso muito me espanta. Tanto que tou aqui compartilhando a personalidade da mocinha e lembrando do poema do Ferreira Gullar que dá título ao texto de hoje. No tempo do original “Não há vagas”, como hoje, também não havia postos de trabalho o suficiente para que nós, pobres, pudéssemos ser devidamente exploradas… ops… eu quis dizer empregadas…. e o preço do arroz, do feijão, do gás, da luz, da água e da vida também não cabiam nos parcos e poucos salários que o povo ainda hoje se esforça por tentar receber. Se o bom Gullar visse a Freddy reclamando, hoje, ele talvez escrevesse que o preço da ração já não cabe no poema.

E isso me lembra a história da ração humana… Desculpa emendar uma coisa na outra assim, pessoal – minha escrita é uma perdição… Mas lembra daquela que o ex-prefeitinho doriana espalhou, lembra? O bicho queria dar “ração humana” a pessoas em situação de rua. Se o espertinho conhecesse a Freddy, uma gata capaz de pressentir o custo por trás do alimento, talvez ele não viesse com aquele papo absurdo… Ou quem sabe ele já a conhece e pense que somos feito felinos: se acessarmos a comida de verdade pode ser que a gente vire ladra… Sabe gato quando rouba das panelas, né?

Aliás, aliás, aliás… Sr. ex-prefeitinho branco do leite em pó que tirou das crianças, desculpa aí recuperar seu passado recente, mas gente moída e oprimida até virar pó ou kisuco é a minha definição de “ração humana”. Ela serve pra alimentar essa elite barata e aumentar suas asas malignas. E, sim, sr. ex-prefeitinho, você tem ajudado a produzir gente amassada para gente rica mastigar e cuspir, desde que entrou na política. Mas o preço da nossa dignidade continua não cabendo em nenhum dos seus esquemas.

Além disso, com um rango de verdade – sem agrotóxicos, nem substâncias inúteis ou cancerígenas, com certeza a gente vira ladra. 

Nós vamos roubar seu sossego e o da elite pestilenta que você protege.  Nós vamos tomar de assalto sua máquina de moer sobreviventes e triturar suas fortunas, separar em muitas barrinhas e distribuir renda extra a mulheres e homens pobres – para que alimentem crianças,  dignidades e  bichos. Neste caso… eu admito que gosto muito mais deles do que de vocês.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.
Nas redes: @dinhamarianilda

LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:
Denegrindo minha imagem
Olha nos olhos e enxerga o bebê

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • Quem me dera entender muito de interpretação de texto e de sociologia o suficiente para fazer uma crítica com embasamento teórico e com observações gramaticais e linguísticas.
    Só posso dizer que me identifico muito com sua escrita, me sinto influenciada, como beber água da fonte e representada porque ouço na sua voz a minha voz que não sei ecoar e sou feliz por te conhecer.

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