Não existe o ano que vem contra a fome

Neste sábado, dia 13 de novembro de 2021, vimos renascer o movimento contra a carestia e o combate à fome. Algo que era comum no Brasil em outras épocas e que parecia que ficaria no passado remoto.

(*) Por Renê Gardim

Manifestação convocada pelo Movimento Contra o Desemprego, a fome e a Carestia reuniu milhares de pessoas em São Paulo e em diversas partes do país. A crise atinge principalmente os mais pobres e o custo de vida avança assustadoramente. A inflação oficial dos alimentos atingiu 35% no primeiro semestre do ano e marcou 15% apenas no mês de março. O macarrão subiu 40% e a batata, 400%.

A notícia acima é de março de 1983, quando o ditador general João Batista de Figueiredo, aquele que disse preferir o cheiro de seus cavalos ao do povo, presidia o país. Mas poderia ser de hoje.

Vivemos em ritmo de aceleração do caos econômico. E todos sentimos isso bem de perto quando vemos a degradação do controle inflacionário. Neste sábado, dia 13 de novembro de 2021, vimos renascer o movimento contra a carestia e a fome. Algo que era comum no Brasil em outras épocas e que parecia que ficaria no passado remoto.

Mas ressurgiu diante de um desemprego elevadíssimo e uma inflação que ultrapassou os dois dígitos e recolocou o brasileiro no mapa mundial da fome.

Mesmo assim, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse há alguns dias que “o mercado subestima o potencial de crescimento do Brasil e que o país vai surpreender em 2022”. Esse exercício de futurologia se baseia em algo tão etéreo quanto a astrologia. Afinal, o que irá acontecer nos próximos meses que não aconteceu desde 2018?

Em primeiro lugar, a passagem de 31 de dezembro para 1º de janeiro não significa nada além de um dia seguido de outro. Não existe uma mágica que faz tudo o que ocorreu nos 12 meses anteriores desaparecer e o mundo, ou pelo menos o Brasil, mudar totalmente. Viemos de uma sequência de atos irresponsáveis capitaneados pelo governo que somente nos afunda.

Estamos falando é de futuro e isso nada tem a ver com o ano que vem. Afinal, ele é apenas uma sequência do ano atual. Ou seja, tudo o que fazemos agora irá ditar como será nossa vida lá na frente. E, até agora, nada foi feito que justifique o otimismo do governo com o nosso futuro.

Dificilmente a crítica situação do brasileiro irá mudar rapidamente. E com a manutenção do atual (des)governo a tendência é de piora. Não adianta Guedes tentar ser futurólogo. Suas ações simplesmente destruíram o país e fizeram a situação econômica das pessoas, principalmente as mais pobres, regredir até aquele março de 1983, quando foi preciso que a sociedade se organizasse no Movimento Contra o Desemprego e a Carestia e fosse para as ruas pedir mudanças, que só vieram alguns anos depois.

Agora, temos a oportunidade de mudar isso já no próximo ano. Não será fácil nem simples.

(*) Renê Gardim é jornalista há 36 anos. Atuou na “Folha de Londrina”, “Jornal de Londrina” e RBS. Foi editor de economia e agronegócio no DCI.

Manifestação contra a carestia
Marcha contra a fome. Crédito: Sérgio Kraselis/J_LIVRES
Marcha contra a fome. rédito: Sérgio Kraselis/J_LIVRES

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

110 anos de Carolina Maria de Jesus

O Café com Muriçoca de hoje celebra os 110 anos de nascimento da grande escritora Carolina Maria de Jesus e faz a seguinte pergunta: o que vocês diriam a ela?

Gaza, a humanidade possível

O passeio das crianças na praia. Os grafites de amor. Os bailes. Romancista resgata lembranças e imagens da vida que pulsa. Ali, onde há poucos dias Israel metralhou mais 112 e jornalistas são assassinados por drones, para que ninguém conte a história. Já são mais de 30 mil mortos e 70 mil feridos, ampla maioria civis como as crianças que andavam na praia

Quem vê corpo não vê coração. Na crônica de hoje falamos sobre desigualdade social e doença mental na classe trabalhadora.

Desigualdade social e doença mental

Quem vê corpo não vê coração.
Na crônica de hoje falamos sobre desigualdade social e doença mental. Sobre como a população pobre brasileira vem sofrendo com a fome, a má distribuição de renda e os efeitos disso tudo em nossa saúde.

Cultura não é perfumaria

Cultura não é vagabundagem

No extinto Reino de Internetlândia, então dividido em castas, gente fazedora de arte e tratadas como vagabundas, decidem entrar em greve.