Na GloboNews o preconceito é maior que os fatos

Aula de linguística de Benedito Costa, para Cecilia Flesch, jornalista da GloboNews que “corrigiu” rindo o adEvogado pronunciado pelo presidente Lula na entrevista de 10 de março.

Carta a Cecília Flesch

Por: Benedito Costa

Prezada jornalista,

Trabalhei vinte anos para essa empresa em que você está agora. Centenas de jornalistas “passaram pelas minhas mãos”, expressão não muito feliz, mas verdadeira. Vai que você não a entende e faz leituras indevidas dela. Isso não é legal, viu?

A maioria deles, em estado de indigência com os entendimentos da realidade da língua materna. Assim como você. Isso é uma pena.

Um jornalista tem a língua como principal ferramenta — e entendê-la deve ser um dever, antes mesmo de um direito. Ou há um paralelo: direito e dever. Mas essas palavras confundem algumas cabecinhas, não é? Seus colegas andam confusos e perdidos em outras áreas também.

A questão não é o fato de os jornalistas saberem o que é uma epêntese, ou uma vogal epentética, pois isso foge ao escopo do curso de jornalismo. A questão é o jornalista, que tem a língua como principal ferramenta, como eu disse, não entender seu funcionamento.

Grande parte dos falantes do Sul usam a epêntese no caso de “advogado”, assim como em grande parte do país se fala “peneu”. Incluindo você. Aliás, você tem outros vícios de linguagem, que não são da minha preocupação.

Seus bandidos de estimação sulistas também usam epênteses, assim como vogais finais sem abrandamento, o que é inclusive uma piada local. Aliás, as pessoas não sulistas riem do nosso “pente” e não “pentchi” — e isso é uma piada do nível do tio do pavê, que nos faz revirar os olhos. Afinal, tanta gente diz “treis” em vez de “três” porque isso é natural da língua. Grande parte dos seus colegas têm vergonha do “r” retroflexo e isso dá uma dor de cabeça danada para as fonoaudiólogas da sua empresa, que também não estão muito interessadas com a naturalidade da língua e sim com o preconceito mesmo. Preconceito vende mais que os produtos duvidosos que vocês colocam no ar, porque o preconceito é mais fácil de entender e é mais palatável. Em paralelo, o preconceito é um tipo de arma dos fracos e despreparados, que não têm algo mais profundo a dizer.

São pessoas ignorantes mesmo. Pseudo intelectuais, pedantes, vazias. Creem que um corte Chanel ou um scarpin de bico fino sejam suficientes para se fazer um trabalho bem feito.

Até o dia em que a empresa os joga na sarjeta, como tem ocorrido repetidamente na Globo — e a sociedade, na lata de lixo da história, afinal a contribuição deles — e a sua — para o jornalismo, a ética, a “verdade” é nula, nada, nadica de nada.

Mas o mais grave para um jornalista, além de ser jagunço dos donos da empresa para a qual trabalha, é a vaidade e a ideia de superioridade, mesmo. Tratar as pessoas de cima para baixo.

Não sei se você tem doutorado na área. Creio que não. Quase nenhum de seus colegas têm. No máximo, as pós e os cursos in Company que a Globo oferece, geralmente têm conteúdo de gestão… e de autoajuda. E a pessoa de quem você debocha tem 16 ou mais doutorados “honoris causa”, algo que você, certamente, não imagina o que é. Até porque, no máximo, seria a paraninfa paga de uma faculdade de esquina.

O mais engraçado para você é o seguinte. Eu esquecerei você amanhã. Mas outros, não. A cada frase que você pronunciar agora haverá um sujeito disposto a procurar descompassos entre o que a língua é e o que vc pensa que ela seja.

Sinto que você contribua para o empobrecimento das discussões linguísticas. Nós levamos séculos de observação e estudo para entender o que é uma epêntese e outros metaplasmos.

Sinto também que, dentre tantas coisas importantes ditas pelo sujeito de quem você debocha, você tenha escolhido isso, uma epêntese. Matar as aulas de edição e produção na faculdade parece não ter sido um bom negócio.

COMENTÁRIOS

  • Perfeito!
    Só esperamos que a jornalista tenha conseguido entender essa texto maravilhoso.
    Será que ela entendeu?

  • Tudo falado nesta carta aberta, parabéns!!!! faço as suas palavras as minhas!!!

  • Penso que em dois mandatos seu epentese poderia ter melhorado, mas nao o fez porque é chic ser povao!mas educação nao é!

  • Excelente comentário e ótima oportunidade para que a jornalista reflita, se é que conseguirá, sobre a sua atuação relacionada à ética e a verdade. A vaidade da jornalista está exacerbada e não percebe o exato tamanho que tem. Conforme você disse, Benedito, eu estou dentre o grupo disposta a procurar descompassos entre o que a língua é e o que a jornalista pensa que seja.

  • Uma aula que eu precisava. Sou da área de Letras e filho de nordestinos. Sempre me posicionei de forma contundente sobre o tema. Que leitura agradável!

  • Valeu ter vivido para ler isto. Maestria em grau máximo. Aprenda Flesch e célere, admita seu erro e desculpe-se, se não com a língua portuguesa mas com o autor da epêntese em questão!

  • Sabe quando o fôlego falta?
    Foi exatamente assim que me senti ao ler este “desabafo”.
    Muito, muito obrigada Benedito Costa.
    Foi uma “aula” de tolerância e respeito às diferenças.
    E necessariamente, falar “errado” pressupõe ignorância e/ou desinformação.
    Em tempo, gosto do time de jornalistas da Globo News. No entanto, reitero, no entanto, informação não é “monopólio”.

  • Em tempo…
    E necessariamente, falar “errado” NÃO pressupõe ignorância e/ou desinformação.

  • Está jornalistinha deve ter muita merda na cabeça e talvez nunca tenha passado um dia fome na vida deve tido até agora do e do melhor nascido em berço de ouro e acha que isso cale alguma coisa

  • Texto perfeito, embora eu ache o Lula um político populista e hábil, ele seja extremamente desonesto e um câncer para este pobre país…

  • Boa! Chupe essa,jornalista medíocre, superficial. Mas, que esperar da rede Globo?

  • Parabéns! Ótimo texto pegando flrme contra o preconceito e na tentativa de destruição do ex-Presudente.

  • Espetacular! Com uma delicadeza e clareza que só quem realmente busca o conhecimento diariamente, mas não esquece de calçar as sandálias da humildade. Parabéns!7

  • Valeu Benedito essa é mais uma puxa saco da Globo e que ajudou afundar o Brasil votando e fazendo campanha para um lixo igual a ela.
    #LULAPRESIDENTE2022

  • Grosseiro .E tao cheio de preconceitos quanto afirma a jornalista ser. O Chanel e o scarpin confirmam. Podia dizer o q disse sem a truculência e a superioridade. Sao mais letrados, mas tao cheios de saber quanto a direita do B e seu clã.

  • Excelete critica! Que chicotada linguistica esta jornalista recebeu, e por extensão a Globo News!

  • Obrigado Benedito por lavar e enxaguar a minha alma com essa carta. Sou Nordestino roxo e vou pedir ao Criador que te dê uma vida longa abençoada. Obrigado mais uma vez.

  • Puxa q texto. Aqui se fala tão “errado” quanto se corrige outras regiões… O leitchi foi o melhor exemplo…

  • Achei pesado e sem propósito tanta grosseria ! Não precisa , Benedito Costa , ter ido tão longe ! Acho que passou do limite !

  • Um primor de texto. Só vejo uma forma de resposta, caso a sra. Cecília se disponha a tal: um pedido de desculpas.

  • Texto excelente. O preconceito em relação ao Lula é perverso e quase sempre demonstra uma profunda falta de tolerância e compaixão.

  • Parabéns Benedito Costa, eu como profa de Língua Portuguesa, e fã do nosso Lula, achei essa aula muito oportuna.

  • Texto sensacional. Cecilia pessima, e olha que nao sou a favir do Lula. Cecilia maos uma vez com atuacao vexatoria

  • O que digo a esta jornalista, é que ela sendo carioca, provavelmente palavras como Vasco, ela pronuncia “Vaixco”

  • Falou com propriedade, pois o que mais vejo na tv é gente falando errado e isso influência o povo em geral. Querem criticar, então comecem pelos meios de comunicação a falar corretamente.

  • Ótimo comentário .
    Serve pra ela e para vários outros , de várias outras emissoras .

    Sem esquecer o carioquês da globo … sem entrar no mérito se é bom ou ruim .

  • Olá.
    Procurei no LinkedIn, na Wikipedia, no Memória Globo… E nada.
    Onde posso identificar a ficha técnica do autor?
    Abraços.

  • Não parece que ele se importe tão pouco com a jornalista em questão, pois gastou bastante tempo em escrever essa carta para desmerecê-la. A não ser que tempo seja algo que ele tenha de sobra para tantos desvarios exalando rancor. Que criatura triste…

  • Boa aula!!! Muito boas as reflexões apresentadas. Preconceito linguístico parece tão “retrô” quanto a pseudopolítica que tem sido praticada em Brasília.

  • O que me diz então do sr Merval Pereira que não consegue falar três palavras sem gaguejar.

  • Muito bem colocado o comentário, Benedito Costa! Quem dera a globo tivesse critérios mais humanos para escolher quem põe a cara na tela.

  • Muito bem !! Nem sempre profissionais sabem sobre o quanto de cultural uma língua tem…mas isso fica para os estudos de linguística que certamente essa jornalista e outros procurarão se inteirar para no futuro para dar mancada ..

  • Parabéns, sou de bh e falo diferente do pessoal do norte de minas.
    – Disse tudo, valeu.

  • Que “tapa sem mão”! Sem mão, mas deve ter doído como murros dados por um lutador de Boxe.
    Uma salva de palmadas! Uma lição inesquecível!

  • Só tenho que aplaudido-lo de pé! Uma das coisa que mais abomino no ser humano é a covardia! Tenho certeza que estivesse o ex-presidente Lula, por exemplo, em uma posição política de destaque como nos seus dois mandatos,, ela nunca o interpelaria. Sabe por quê, porque ela é covarde e covarde age dessa forma. Lambe as botas dos “graúdo” e pisa nos “pequenos”.

  • Oportuna reflexão sobre a cientificidade da variação linguística, o que coloca em movimento a crítica do preconceito.

  • Fiquei com a “alma lavada” com esse texto. Se ater a questões pequenas relacionadas à detalhes da língua é uma intenção pobre de desqualificar e chamar a atenção do “gado” para questões irrelevantes. Ainda bem que o senhor desconstruiu essa estratégia pífia… e com chave de ouro!!

  • POSTS RELACIONADOS

    Projeto Genocida não tem limite ou localidade geográfica

    O projeto de genocídio em curso que não se encontra apenas no Governo Federal. É parte de um modelo de Estado espalhado por todo o território nacional, inclusive nas prefeituras, com o apoio dos setores conservadores e da elite nacional e internacional. É nosso dever a unidade para garantir a resistência.

    >