Morreu Tanaru, o último homem de seu povo. Um mundo se extinguiu

Tanaru, o indígena que escolheu viver em absoluto isolamento desde que seu povo foi massacrado por madeireiros e fazendeiros
Tanaru, o indígena que escolheu viver em absoluto isolamento desde que seu povo foi massacrado por madeireiros e fazendeiros

A morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.” (John Donne)

Morreu o indígena conhecido como “Índio Tanaru” ou “Índio do Buraco”, que vivia sozinho e isolado há quase 30 anos em Rondônia, depois que seu povo foi inteiramente dizimado por matadores a serviço de madeireiros, em 1995. Desde então, ele viveu em absoluta solidão, recusando-se a manter qualquer contato com a sociedade que massacrou seus parentes. Tanaru pertencia a uma etnia desconhecida e era monitorado desde 1996 pela Funai, que inclusive chegou a fotografá-lo e filmá-lo à distância, em 2018. O órgão indigenista encontrou o corpo de Tanaru na última terça-feira (23). Mas a morte só foi confirmada neste sábado (27).

Tanaru em filmagem à distância, feita pela Funai em 2018

Segundo a Funai, “o corpo do indígena foi encontrado dentro da sua rede de dormir em sua palhoça localizada na Terra Indígena Tanaru”. Não havia sinais de violência ou de luta, o que sugere que Tanaru tenha morrido de causas naturais, mas exames mais detalhados sobre a causa mortis estão sendo analisados pelo Instituto Nacional de Criminalística de Brasília.

Os pertences, utensílios e objetos utilizados costumeiramente pelo indígena permaneciam em seus devidos lugares. No interior da palhoça havia dois locais de fogo próximos da sua rede. Seguindo a numeração da lista de habitações do Índio Tanaru registradas pela Funai ao longo de 26 anos, essa palhoça é a de número 53, seguindo o mesmo padrão arquitetônico das demais, com uma única porta de entrada/saída e sempre com um buraco no interior da casa.” (Nota da Funai)

A presença desses buracos dentro das casas construídas por Tanaru com cascas de madeira, palmeiras e troncos, coberta com palha do chão ao teto, deram-lhe o apelido de “índio do buraco”. As motivações de Tanaru para escavar esses buracos não são conhecidas, mas suspeita-se que tivessem funções religiosas. Agora, com a morte desse último remanescente, nunca se saberá ao certo. Um mundo se extinguiu.

Ivaneide Bandeira, ambientalista e fundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, lamentou a morte de Tanaru e, principalmente, a extinção de mais uma etnia indígena no país. Algo que, segundo ela, não acontecia há anos.

Txai Suruí, fundadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, escreveu em suas redes sociais: “Conhecido por sua solidão, resistiu até seus últimos dias ao contato com não-indígenas depois de tantos traumas e violências. Seu território deve continuar representando a resistência e deve ser preservado e cuidado, tornando-se uma área de conservação”.

O Brasil tinha algo como 3,5 milhões de indígenas à época da conquista portuguesa, no século 16. O Censo IBGE 2010 registrou 305 povos indígenas, somando 896.917 pessoas. Etnias inteiras foram assassinadas ou pereceram vítimas de doenças vindas da Europa à época da colonização. Nunca conheceremos os saberes ancestrais encarnados nesses povos extintos. Tantas perdas irreparáveis, nós também morremos com eles.

COMENTÁRIOS

3 respostas

  1. Em 1985/86 Eu me lembro de 2 helicóptero que cruzou por cima de nosso sítio em Corumbiara na direção de uma fazenda . Era da policia federal que estava envestigando um massacre dentro das floresta.. Lá na cidade de cerejeiras o boato ou fofoca era que se tratava de garimpeiros e jagunços de fazendas numa serra chamada de SERRA DO TOURO.. MAIS ERA NA VERDADE O MASSACRE DESSES TANARU .. OS GARIMPEIROS FORAM MESMO EXPLORAR ESSAS REGIÃO ATRAZ DE OURO E ENCONTRAU MUITAS CAVEIRAS E SAIRAM LA DA MATA PARA A cidade de cerejeiras assombrados dizendo que era pessoas talvez garimpeiros . Mais quando a noticias se espalhou não havia pessoas garimpeiras desaparecidas daquela região. Como era muitas caveiras ..dezenas então se deu conta que era uma tribo de indios que tinha sido dizimado.. a historia conta que foi em 1995. Mais na verdade essa data de 96/97 foi quando a funai descobriu um grupo de 3 indios dessa tanaru. Provavelmente dos morreu e só esse ficou sendo catalogado e monitorado pela funai..Na época do grande massacre ñã existia ainda a atual funai… porque foi antes da constituinte… o povo do sitios dizia que foi pistoleiros do antonio josé latifundiário daquela época. Defendido por o Amirlando. Um advogado que virou senador de rondonia e tinha fazendas tambem pelas aquela bandas do rio OU RIACHO TANARU DIVISA HOJE DE CORUMBIARA COM CHUPIMGUAIA… VER MAPA… NA ÉPOCA A FEDERAL PRENDEU GERENTE DA FAZENDA E ALGUNS PISTOLAS MAIS NÃO SE PROVAVA. NADA. LÁ NAQUELES FUNĎÃO DE SELVA.. HOJE É TUDO HABITADOS COM ENORMES FAZENDAS DE SOJA E GADO.. MAIS NAQUELA ÉPOCA ERA TERRAS DE DOMINIO FEDERAL..

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