O Psíquico é Político: Reflexões sobre a obra de Mark Fisher (1968 – 2017)

“O futuro não é mais como era antigamente.”
Renato Russo em “Índios”, da Legião Urbana, parafraseando Paul Válery

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.”
Mark Fisher, em Realismo Capitalista, Ed. Autonomia Literária, 2020

A pandemia de covid19, que adquire no Brasil a magnitude de uma hecatombe épica, implica também uma crise global da saúde psíquica. Diante disso, a bandeira “o pessoal é político” continua válida: é preciso, como ensina Mark Fisher, perceber que o colapso psíquico também é político e que um clima cultural menos insalubre passa necessariamente por nossa capacidade coletiva de matar um zumbi: “atmosfera ideológica opressiva do capitalismo neoliberal”.

A saúde mental não pode ser privatizada pois não há soluções individuais para problemas coletivos, nem remédios compráveis para uma disfunção civilizacional. Hoje, pensadores como Franco Berardi (vulgo Bifo) apontam que o “aumento das patologias mentais” é indissociável daquilo que o capitalismo neoliberal hiperfinanceirizado tem realizado em prol do desmoronamento do futuro. Ou melhor, para os trabalhadores precarizados que moram nas periferias e guetos das metrópoles – como nos banlieux de Paris – “o futuro já não é mais entendido como uma promessa, mas como uma ameaça.” (Berardi, Asfixia, p. 85)

Fisher e Bifo concordam: o clima cultural se transforma em consonância com os horizontes de futuro que se abrem para cada geração. Na obra do falecido pensador cultural inglês Mark Fisher (autor do blog K-Punk), somos convocados a pensar que o nosso futuro é tão mais deprimente quanto menos conseguirmos imaginar um mundo pós-capitalista.

Se a depressão é um dos males mais disseminados do século 21, tal cenário não é atribuível aos indivíduos que se deprimem, como se a culpa fosse deles num “cada um por si” da saúde mental. A pandemia de depressão deve ser vista como imputável a um sistema capitalista que nos asfixia, produzindo uma destruição ambiental sem precedentes – 1.400 bilhões de toneladas de CO2 lançados à atmosfera desde a Revolução Industrial – e ainda por cima parece nos dizer: “não há alternativa.”

É esta mentira que afirma a inexistência de alternativas que nos cabe destruir, para que a verdade de outros-mundos factíveis – o que Paulo Freire chamava de “inéditos viáveis” – possa refulgir.

Houve um dia no passado em que o futuro foi o depositário dos nossos sonhos coletivos, o tempo em que projetávamos nossa utopia, o instigador-mor do Princípio Esperança (para lembrar de uma obra em 3 volumes escrita pelo pensador marxista Ernst Bloch e publicada no Brasil pela Contraponto).

Hoje o porvir ameaça-nos com tsunamis e vírus mutantes, com o efeito estufa e a sexta extinção em massa da biodiversidade planetária. O futuro assusta e angustia muito mais do que acaricia ou promete flores. Fisher foi um dos melhores críticos desta cultura paralisante, em que o futuro se mostra mais sob a figura da distopia do que da utopia, mais do desencanto e da apatia do que do entusiasmo transformador.

Diante do superaquecimento climático e das infecções virais de magnitude planetária, ganham atualidade renovada obras como a de Banksy – em que o “siga seus sonhos” acaba sofrendo a intervenção censora de um “CANCELLED”. Um grafite no qual há um pouco do eco das melancólicas cantorias de John Lennon, no hino ateu “God”, que anunciavam o descenso do utopismo hippie: the dream is over. O Sonho acabou e Deus não passa de “um conceito através do qual medimos nossa dor…”

Os exemplos poderiam ser multiplicados: do diálogo de Mafalda com o caranguejo na obra de Quino (“será que o futuro é tão ruim que ele [o caranguejo] está voltando?”), à atual proeminência cultural de Snowpiercer – O Expresso do Amanhã (filme do sul-coreano Bong Joon-Ho que transformou-se numa série arrasa-quarteirão da Netflix), o clima cultural ou zeitgeist aponta para este temor em relação ao futuro que parece mais ameaçador do que hospitaleiro. 

O sci-fi distópico expressa isto através de obras primas como Filhos da Esperança (Children Of Men, de Alfonso Cuáron, baseado em livro de P.D. James). Neste filme, magistralmente analisado por Fisher, o colapso da fertilidade humana e a proliferação de autoritarismos totalitários e hitech tornam sombrio e bleak um futuro humano em que a espécie tenta se defender da extinção.

Estas representações do futuro e suas ressonâncias psíquicas não são elas mesmas as causas mas sim os efeitos de uma realidade concreta e objetiva: nesta nossa atualidade insanizante, o capitalismo se mostra não só uma máquina mortífera (nas mãos de governos necroliberais como o de Bolsonaro, que mostrou sua perversa face genocida durante a gestão da pandemia do coronavírus). O capitalismo também se revela como produtor em massa de epidemias de sofrimento e adoecimento psíquico-afetivo: um $istema que coloca o sujeito em ansiedade perpétua, quando não o lança ao pânico ou ao suicídio.

Muitos de nós vamos entrando para as estatísticas dos adoecidos psíquicos justamente pois colapsa para nós a chance de caminhar na direção do futuro com algum senso de confiança, de propósito, de abertura à aventura de construção conjunta algo que possa ser  significativo e durável: o mundo melhor foi cancelado.

O futuro-melhor parece ter sido deletado do horizonte de muitos, e os necrocapitalistas só colocaram no lugar a ameaça do pesadelo totalitário: o interesse privado de muitos poucos sendo colocado acima dos interesses da maioria da humanidade, enquanto nossa irreflexão geral produz monstros. Nossa imaginação utópica carcomida pelo conformismo torna emblemática de uma época a frase de Fisher: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo…”

Leia em Jornalistas Livres: Como Matar Um Zumbi, por Mark Fisher (excerto do livro lançado pela Ed. Autonomia Literária, 2020)

 É justamente nesta deterioração do futuro que Mark Fisher, inspirando-se em Franco Berardi, vê a chave para compreender a profusão de adoecimento psíquico que se dissemina na esteira do terrível mote capitalista-neoliberal: não há alternativa. Querem nos convencer desta lorota: a História acabou, como pregou Fukuyama, conformem-se com o capitalismo tal como ele se constituiu com Pinochet, Tatcher e Reagan – todas as alternativas são ilusórias ou já colapsaram. Fato? Ou ideologia?

Numa sociedade fraturada e doente como a brasileira, com a infecção viral disseminada a partir de deliberada campanha de desinformação do desgoverno federal, o futuro tornou-se pior que apenas incógnita ou mistério: tornou-se pesadelo. Nossas mentes padecem sobre o peso deste pesadelo distópico patrocinado e praticado por uma necropolítica genocida que, através da ideologia e das práticas tóxicas do Bolsonarismo, parecem querer transformar isto aqui numa imensa Devastolândia… 

É fato que o sofrimento psíquico foi agravado pela conjuntura da infecção viral, como alerta a Organização Mundial da Saúde: “O isolamento, o medo, a incerteza, o caos econômico – todos eles causam ou podem causar sofrimento psicológico”, disse Devora Kestel, diretora do departamento de saúde mental da OMS. [Fonte: G1] 

 

A PSIQUÊ PANDÊMICA E REINVENÇÃO DO FUTURO: Refletindo com Mark Fisher

Diante deste grave cenário, em que a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde) alerta sobre o incremento de “gatilhos” para o suicídio nesta conjuntura pandêmica, é preciso aprender (e quanto mais rápido melhor!) que o psíquico é político. Ninguém é um basketcase (um “caso de saúde mental”) por mérito ou culpa próprios – ou seja, isto não é um problema pessoal mas uma encrenca coletiva. 

Desta enrascada só sairemos com terapia coletiva, que inclui necessariamente a cura que concerne à memória: nós adoecemos, como sociedade, também pelo vício da desmemória, por termos feito tão pouco e tão mal da Comissão Nacional da Verdade um movimento cívico, de amplas repercussões pedagógicas e midiáticasVerdade, transparência, direito à memória, entre nossas bandeiras e estandartes: nisso falhamos (por enquanto!), ou melhor, isto ficou sendo tarefa para nosso porvir – e comecemos já!

Para além da divisão das seitas, da discordância política altamente divisória que tem nos fragmentado, será que conseguimos concordar, ó brasileiros, que o Sofrimento Interno Bruto só tem aumentado? Para além das 300.000 pessoas que perderam a vida neste tsunami da morte que foi o primeiro ano da pandemia no Brasil, há uma outra pandemia, inquantificável e imensurável, que envolve o sofrimento psíquico severamente incrementado.

Perguntar pelo montante de sofrimento psíquico pode parecer uma tarefa irrisória diante de outras que nos parecem mais urgentes – como garantir leitos de UTI e estoque de oxigênio. Porém, a pandemia de colapso psíquico não vai desaparecer magicamente com a vacinação em massa – será algo com o que teremos que conviver no longo prazo.

Expor a tarefa de pensarmos sobre o sofrimento psíquico coletivo é mais do que necessário caso queiramos encontrar qualquer tipo eficaz  de terapia coletiva – em contraposição à privatização das terapias que vemos proliferando. Não devemos nos conformar ao consumismo farmacológico que nos propõe como solução: compre sua terapia no Mercado das Muletas Psíquicas! O capitalismo, fingindo que ele é o provedor de soluções compráveis ao invés de o produtor das catástrofes que nos assolam, diz: “te ofertaremos, em parcelas (“débito ou crédito, senhorita?”, a oportunidade de ser são: São Consumidor, compre a cura para a depressão em nossos Prozacs e Rivotrils…”.  

Esta reflexão aqui realiza pode ofender às mentes mais positivistas, que querem o jornalismo reduzido a tratar apenas do que é factual no sentido de quantificável, transformável em estatística, matematizável. Como faríamos jornalismo de dados diante do inquantificável peso de todas as depressões, de todas as psicoses, de todos as esquizofrenias, de todas as nóias? Quem busca contabilizar isto, perde-se no infinito…

Mas não deixa de ser fato que há um incremento assustador da dor psicosomática conexa à pressão das preocupações e angústias geradas por quarentenas e confinamentos. Donde a importância de levar a sério a hipótese de que tudo que é psíquico é político: milhões de pessoas que nunca se infectaram nem se infectarão com o coronavírus adoeceram de fato, de uma miríade de “condições” que por inércia chamemos de “psicopatológicas”, por conta do impacto psíquico do isolamento social e das medidas quarentenárias a que buscaram aderir. 

Qualquer cidadão que exercite os miolos em prol do senso crítico, pratique a tarefa inadiável e necessária da reflexão, e enfrente mentalmente a tarefa de julgar as ações de nosso governo Bolsonarista, está sob o risco de ver sua mente flertar com um surto: se você não está angustiado e indignado, provavelmente está mal informado! Talvez seja salutar, para nossos corações e mentes, sermos fiéis à máxima de La Boétie em seu tratado Da Servidão Voluntária – “sejamos resolutos em ser insubmissos!” – e começar a tratar a insubmissão a um governo genocida como item elementar para o re-estabelecimento de nossa saúde. Pois decerto a última coisa que eles merecem é nossa submissão. Fizeram por merecer nossa revolta.  

O falecido filósofo e escritor Mark Fisher tem visões interessantes sobre a insubmissão: ele clama pela “conversão do descontentamento privatizado em raiva politizada” (p. 141). Contra a “submissão fatalista” às políticas econômicas de “austeridade”, aponta que é preciso “reinventar a solidariedade” e afrontar a “privatização do estresse” (p. 153).

Atacando as falácias da meritocracia, Fisher fala aos deprimidos do mundo a partir do lugar-de-fala de quem lutou a vida inteira contra esta condição (a que finalmente sucumbiu): não acreditem na lorota de que a depressão é um problema pessoal; não creia que você como indivíduo veio com “defeito de fabricação”; não engula a farsa de que a solução está em caixas de comprimidos que você pode comprar na Drogasil, desde que tenha uma receita assinada por um psiquiatra…

A depressão – brilhantemente analisada, no Brasil, por figuras como Maria Rita Kehl ou Joel Birman, dentre outros – é evidentemente um problema sócio-político. Porém, Fisher sabe que “os indivíduos culparão a si mesmos antes de culparem as estruturas sociais” – pois que a ideologia convida-nos à “convicção subjacente” de que “somos todos exclusivamente responsáveis pela nossa própria miséria e portanto a merecemos.” (p. 140) 

Na verdade, precisaríamos que os deprimidos se convertessem em revoltados, numa conversão Camusiana do absurdo à solidariedade. Que cessarem de culpar-se por estarem infelizes, para perceberem a raiz e a causa de seus males fora deles.

Um dos mais importantes ensinamentos de Mark Fisher é noção de que nem a “doença mental” (o que prefiro chamar de adoecimento psíquico) nem o clima atmosférico podem hoje ser considerados “naturais”. E disto decorre que devemos considerar Brechtianamente que “nada deve parecer impossível de mudar”.

Saúde mental: campo em que a relação ou vínculo inextricável entre indivíduo e coletividade se manifesta, em uma miríade de formas, desafiando nossa compreensão e nossa ação. O que chamamos de enfermidades psicológicas, afirma Fisher, tem origem social, como é evidente; no entanto, a ideologia hegemônica e sua ‘ontologia’ recalca e esconde este fato:

“Em vez de atribuir aos indivíduos a responsabilidade de lidar com seus problemas psicológicos, aceitando a ampla privatização do estresse que aconteceu nos últimos 30 anos, precisamos perguntar: quando se tornou aceitável que uma quantidade tão grande de pessoas, e uma quantidade especialmente grande de jovens, estejam doentes? A ‘epidemia de doença mental’ nas sociedades capitalistas deveria sugerir que, ao invés de ser o único sistema que funciona, o capitalismo é inerentemente disfuncional, e o custo para que ele pareça funcionar é demasiado alto.” (FISHER, Autonomia Literária, 2020, p. 37)

Ou seja, como escrevem Victor Marques e Rodrigo Gonsalves no posfácio: “na medida em que antigas formas de solidariedade institucional e amparo comunitário são desfeitas, o resultado é a privatização do sofrimento e a individualização da angústia” (p. 185). 

O Bolsonarismo é uma das piores expressões desta doença: propõe o Estado Mínimo neoliberal à maneira Pinochetista, ou seja, com um Estado que apenas se expressa em sua expressão penal-policial – “liberal na economia, mas autoritário e conservador nos costumes”. O necroliberalismo neofascista, lançando mais lenha na fogueira do “cada um por si”, explicita um desdém por quaisquer soluções coletivas para os problemas psíquicos.

O Brasil, neste aspecto, também torna-se um dos epicentros globais do transtorno psíquico. Isto se mostra no fato de que milhões continuam insanamente fiéis, de maneira cega e sectárias, às atitudes do Ogro-Chefe Jair Bolsonaro. Este, um caso patológico dos mais graves, manifesta um desprezo pela vida humana típico de um psicopata, de sensibilidade atrofiada, incapaz de qualquer empatia, com um nível de maturidade ética tão retardado que é incapaz de perceber o que há de vicioso na apologia da tortura, por exemplo.

Trata-se de um sujeito insalubre, um atentado ambulante contra a saúde coletiva (inclusive a psíquica), capaz de dizer “e daí?” para dezenas de milhares de mortes evitáveis, num delírio nefasto de irresponsabilidade e negacionismo. Este sujeito psicótico e sectário acaba por contaminar o ar dos tempos com o “Bolsonavírus” (também conhecido como covard-17), tornando o combate à pandemia muito mais difícil diante do “caos como método” (como argumenta o filósofo Marcos Nobre) e que instaura um autêntico pandemônio. 

Tiras de André Dahmer

BOLSONARISMO: A DOUTRINA ZUMBI DO CAPETALISMO NEOLIBERAL EM ESTADO DE NECROSE

O Bolsonarismo é uma espécie de zumbi, uma encarnação do capetalismo neoliberal que leva o colapso da ética a um fundo-de-poço tão profundo que parece colocar todo o sistema sócio-político em estado de necrose. Devemos, em prol da saúde cívica e do vigor intrínseco das democracias autopoéticas que coletivamente devemos construir, fomentar a atividade de reimaginar o futuro e as práticas necessárias para construi-lo enquanto futuro radicalmente outro. O básico consenso civilizacional consiste em combinarmos que só há futuro respirável fora da esfera necrocapitalista que o Bolsonarismo genocida expressa.

O Bolsonarismo produz uma espécie de zumbilândia repleta de milícias de mortos-vivos, incapazes de reflexão crítica, com os dedos no gatilho e muitos dogmas a vomitar dentro das bolhas sectárias. Um exército de BolsoZumbis, servis e submissos a um monstro moral que cultiva a idolatria a estrupícios morais e anões éticos como Ustra ou PInochet (em linguajar jurídico, eles são criminosos-contra-a-humanidade, e não figuras a serem tratadas como ídolos).

O Bolsonarismo representa uma elite que quer gozar impunemente com seus privilégios, num clima de irresponsabilização geral e irrestrit É o prepotente Chefão Macho que quer rir e gozar enquanto o povo passa fome aos milhões e morre à míngua, desassistido em meio ao desmantelamento da “rede de proteção social” – isto que economistas neoliberais desprezam sob o nome de Nannystate, o Estado Babá.

O que adoece tanta gente, nesta conjuntura, é a vivência nova e traumática de um Estado que não é Babá, mas sim uma fera bestial que mordisca um churrasquinho e bebe uma cerveja enquanto sobe sobre uma pilha de crânios humanos dizendo “e daí? eu não sou coveiro…”. Como multidões não adoeceriam diante de uma tão flagrante presença pesada daquilo que pensávamos já aposentado da História, já varridos para fora do palco histórico pela tsunami lulopetista: o gorila da Ditadura Militar redespertou em 2018, fraudou uma eleição voando na cyber-asas da Mentira Viralizada e do lawfare, e acaba se revelando o pior governo entre 98 nações analisadas pelo Lowy Institute da Austrália.

Hoje, nos vemos novamente diante da tarefa de compreender e enfrentar a banalidade do mal tematizada por Hannah Arendt. Nosso sofrimento psíquico também vem deste enlouquecedor triunfo da maldade, deste insanizante cenário de irracionalismo e desdém pelos bens mais elementares da vida humana – como a saúde e a educação. Se ouso falar em “nosso” nome e evocar o nosso sofrimento psicosomático, é justamente por me sentir incluído entre aqueles que tiveram seus tormentos psíquicos incrementados pelo contexto pandêmico, é precisamente por sentir que necessitamos fazer esforços para encontrar respostas robustas e soluções coletivas pra este caos onde se delineia a nova edição brasileira da banalidade do mal, chefiada por aquele que Mário Magalhães, em sua biografia de 2018 chamada Sobre Lutas e Lágrimas, chamou de “projetinho de Hitler tropical”.

Não quero enveredar por comparações entre Seu Jair e Adolf Eichmann – meu foco aqui é na elucidação do que venho chamando de negacionismo em cascata, de efeitos práticos catastróficos: Bolsonaro, uma pessoa isolada, não seria tão nefasto caso não encontrasse legiões de cúmplices. O indivíduo Jair não teria se transformado em um genocida se não encontrasse um exército de crédulos para fazerem o que ele diz: receitarem cloroquina, sabotarem máscaras, ignorarem isolamento social.

Um genocídio exige muitos cúmplices e muitos crédulos: propagadores de suas mentiras, papagueadores de sua doutrinas, negacionistas práticos e teocráticos tripudiando sobre os cientistas, servindo obedientes e submissos às mãos do títere populista, em seu delírio de fama e poder. 

Como se surpreender que tal situação sócio-política seja tão insanizante? Já que não há fim em vista pra essa insânia social ultra-disseminada, a depressão de instaura e propaga na sombra que faz a pesada montanha do não há alternativa. O capitalismo, por mais catastróficos que sejam seu resultados, parece nos dizer: “voltem, seus hippíes de merda, pra tumba de Woodstock! Agora aqui é neoliberalismo-com-tanques, e quem discordar a gente manda, com um cabo e um soldado, pro pau-de-arara e pra ‘ponta da praia’!”

Que isso tenha podido triunfar, ainda que de maneira provisória (mas quanto tempo ainda durará?), já é um indício de que a sociedade brasileira já estava doente antes da ascensão de Bolsonaro (como bem argumentou a professa Anna Canavarro Benite). O presifake psicopata só aproveitou uma onda forte de psicose de massas que foi insuflada por Grande Mídia e pelo Judiciário espetacularizado de Moros, Dallagnols e Cia Lava Jatística: o antipetismo foi uma feroz campanha destinada a destruir reputações, nada comprometida com respeito a verdades factuais, repleta de lawfare em sua ânsia condenatória sintetizada às maravilhas pelo Power Point dos que “não tem provas, só convicções”.

Talvez estejamos vendo, durante a pandemia, o potencial de insanizar as massas que possui o fenômeno com que começamos esta reflexão: p eclipse de um futuro melhor. O necrocapitalismo Bolsoeugênico ora em atuação na República das Milicias chefiadas pela famiglia Bolsonaro é a encarnação da distopia. Talvez nenhum ficcionista de sci-fi brasileiro tenha escrito algo que prenunciasse isto que estamos vivendo: o Brasil real é mais surreal do que a nossa capacidade de processá-lo e expressá-lo em obras de ficção. 

Talvez um começo de cura estaria nisto: se os sujeitos sentissem que alternativas existem. Se tivessem a convicção de que o “futuro não tá escrito” (para relembrar o ícone punk do The Clash, Joe Strummer). Se tivessem alguma utopia compartilhada que os levasse a caminhar na direção dela. Se fossem assim ansiando, cotidianamente construindo na companhia de concidadãos e amigos, a construção deste ideal no real-em-devir. Se fossem sempre cientes da pouca força que há na pessoa solitária, e cientes também da força tremenda que há coletivo. Se fossem convivas na forja concreta e criativa de sociedades melhores e convívios mais sábios.

Esta utopia é que parece ter um pouco colapsado entre nós, ter sumido da cultura mainstream para o consumo de massas. E a vacina, ainda que seja massificada, não traz resolução mas insere uma nova complexidade neste labirinto. E os negacionistas da vacina? Os que deliberadamente irão sabotar as campanhas? Os que podem até mesmo vir a atacar estoques e refrigeradores de insumos? 

O que quero dizer é que o sofrimento psíquico tende a uma maré alta, mesmo com a vacinação. Pois a esperança de imunização pode levar a certo alívio psíquico, porém há o prosseguimento da angustiosa apreensão de um porvir que se afigura ameaçador. 

Outro elemento do adoecimento tem a ver com o “pessimismo”, uma condição psíquica em que somos dominados por afetos tristes, provindos da imaginação de possibilidades terríveis que o mundo real e atual parece delinear como plausíveis.  É preciso, aliás, fazer uma defesa do pessimismo, já que pode ser perfeitamente legítimo caso seja o efeito de uma lúcida mente que tenha concluído que as coisas vão mal e podem vir a se tornar ainda piores. Que o pior esteja no espectro do possível é uma tese ontológica que me parece bastante válida e implica em sua esteira consequências éticas e estéticas tremendas. 

Aliás, o número “19” que acompanha o nome da doença hoje pandêmica causada pelo novo coronavírus, remete a uma peste nascida no ano de 2019 d.C. Mas devemos despertar logo para o fato, lembrado frequentemente pelos “pessimistas” e “catastrofistas”, de que haverá outras pandemias – que pode haver uma covid 31, uma covid45, uma covid89, ou seja, que o futuro está grávido de catástrofes. O boletim climático que indica o super-aquecimento planetário adiciona outras faíscas para este caldeirão que ameaça se tornar ansiedade perpétua – e ouso afirmar que muitos pessimistas sofrem esta condição. 

A tarefa de repolitizar a saúde mental

Mark Fisher ensina, enfim: não acreditem que esta ansiedade é “natural”, ela é socialmente produzida. Não se culpem pessoalmente por sentir angústias e ansiedades, pois através delas se manifesta a determinação social que somos convocados a levantar-nos para trazer abaixo, para na sequência para reconstruir o social em outras bases. Emblema disso é que a depressão é a condição médica mais atendida pelo aparato de Saúde Público do Reino Unido, afirma Fisher – ou seja, no “SUS” de lá, no Sistema Único de Saúde inglês, a depressão já se tornou uma espécie de condição massificada.

 O necroliberalismo está fabricando depressão em massa e está gozando com os lucros estratosféricos que faz vendendo remédios. Enquanto gasta outros bilhões no militarismo brucutu e acéfalo que suporta o aparato policial-carcerário calcado na Lei proibicionista. Fume um baseado diante da viatura, vá parar no Carandiru (talvez o Estado até te conceda, grátis, a chance de ser chacinado!). Porém, tome Rivotrils e antidepressivos de Pfeizers e Bayers, tá beleza… Troféu Joínha do Mercado Farmacopornográfico! 

Não quero aqui também fazer defesa, como se este texto fosse um palanque e vocês a assembléia de uma cybercongregação, qualquer tipo de otimismo barato, nem pregar que a crença em happy end seja terapêutica. Que se danem os que querem consumir smiley faces emoticons em cascata como se o marshmallow digital fosse salvação afetiva universal… A fissura em coraçõezinhos de Instagram e liks de Facebook também participa dos dilemas psíquicos de nossa condição geracional: as redes sociais são termômetros de nossa “popularidade”, de certo modo são mecanismos de aferição de poder, mas também podem ser tóxicas.

Quantos você consegue afetar em sua “bolha social digital”? Um senso de impotência acompanha milhões e milhões dos usuários fissurados nos gadgets e apps vomitados pelo mundo afora a partir da indústria Big Tech do Vale do Silício.  A Internet está repleta de informação sobre as mudanças climáticas ou a sexta extinção da biodiversidade planetária, mas a cacofonia das bolhas impede a maioria de ouvir, e de compreender esta mensagem. Em massa, deprimidos, semi-zumbis do necrocapitalismo que fracassa mas não morre, nos enfurnamos na Caverna dos Dogmas – e o resultado aí está…

Em síntese, a época coloca a tarefa que urge: reinventar nossa capacidade de conceber um futuro pós-capitalista, uma alternativa à civilização monstruosa que agoniza sem que a nova possa ainda nascer. Seremos tão mais “sadios” em nosso psíquico quanto mais percebermos que não há soluções individuais para problemas coletivos: Prozac não é panacéia, Rivotril não é redenção. O problema não está na bioquímica cerebral, ou na falta de serotonina, ou num pequeno “erro genético” – como ensina Fisher, “a bioquimicalização dos distúrbios mentais é estritamente proporcional à sua despolitização.” (p. 67)

“Considerar as enfermidades psicológicas como um problema químico e biológico individual é uma vantagem enorme para o capitalismo. Primeiramente, isso reforça a característica do próprio sistema em direcionar seus impulsos a uma individualização exacerbada (se você não está bem, é por conta das reações químicas do seu cérebro). Em segundo lugar, cria um mercado enormemente lucrativo para multinacionais farmacêuticas desovarem seus produtos (podemos te curar com nossos inibidores seletivos de recaptação de setononina). É óbvio que toda doença mental tem uma instância neurológica, mas isso não diz nada sobre a sua causa. Se é verdade que a depressão é constituída por baixos níveis de serotonina, o que ainda resta a ser explicado são as razões pelas quais indivíduos em específico apresentam tais níveis, o que requereria uma explicação político-social. A tarefa de repolitizar a saúde mental é urgente se a esquerda deseja desafiar o capitalismo realista.” (p. 67)

Repolitizemos nossa angústia! Sejamos solidários no tormento! Reabramos à força as alternativas que nos estão sendo negadas! Façamos juntos um futuro onde seremos resolutos em ser insubmissos e em construir nosso próprio coletivo auto-governo! Bem longe da tirania insanizante de genocidas irresponsáveis e desumanizantes como o Coiso e seu séquito de fanáticos virulentos.

Não há cura psíquica sem ação revolucionária, nem outro mundo possível para a Mente sem uma outra realidade que devenha “lá fora” – no mundo concreto e na realidade ontológica onde cada um de nós está enraizado, em teia de interdependência incontornável, como “fios na teia da vida”. O que quer que façamos à teia será feito a nós mesmos.

Eduardo Carli de Moraes
Março de 2021
Originalmente publicado em A Casa de Vidro

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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • […] A obra de Frase, apontando para a possibilidade concreta de um futuro comunista, que ele tenta prefigurar em minúcias, não deseja contribuir para o fatalismo, ou seja, para a resignação às tendências que hoje se mostram hegemônicas. Deseja, muito mais, ajudar na superação da deprimente sensação expressa à perfeição na emblemática frase de Mark Fisher: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.” […]

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