Luiz Inácio pôs um pé no Palácio

Levantemos o segundo pé de Lula e coloquemos o Homem lá. Se possível no primeiro turno

Por Álvaro Nascimento, jornalista

1. Luiz Inácio Lula da Silva vai pedir música no Fantástico após a goleada que deu durante cada minuto dos 40 da entrevista no Jornal Nacional desse 25 de agosto. Ele pôs um pé no Palácio e o segundo já se levanta do chão.

2. Lula foi equilibrado ao responder às questões econômicas, ao defender o MST (“É o maior exportador de arroz orgânico do Brasil”, “Nunca invadiu terra produtiva”), ao afirmar que não precisamos desmatar a Amazônia para produzir nada, ao defender a educação.

3. Não se deixou emparedar e respondeu até de forma irônica quando perguntado se respeitaria a lista tríplice do Ministério Público para nomeação do Procurador Geral da República (“Quero deixá-los com uma pulguinha atrás da orelha”), até porque depois de tudo, tudo, tudo ele está de cadeira para decidir isso.

4. Deixou claro o compromisso de “recolocar os pobres no orçamento federal”, denunciando que o Auxílio Emergencial não está na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2023 enviado pelo Governo Bolsonaro ao Congresso. E esclareceu que a oposição propõe R$ 600 desde o início da pandemia.

5. No tema que poderia ser mais espinhoso – corrupção –, Bonner e a Globo tentaram ser espertos, abrindo a entrevista falando das decisões do Supremo e declarando “o senhor não deve nada à Justiça”. Tentaram impedir que o próprio Lula dissesse isso, mas não adiantou a esperteza. Lula dissecou os absurdos da Lava Jato, cometidos não só contra ele, mas contra a economia brasileira (desemprego, falta de investimentos, quebradeira de empresas).

6. Perguntado como se relacionaria com o Centrão, expôs a verdade nua e crua: “Bolsonaro não governa, ele não manda sequer no orçamento. Quem governa é Arthur Lira”. E fez uma coisa que nunca fez em outras eleições: pediu ao povo que lhe dê sustentação no Congresso votando em deputados e senadores ligados à campanha Lula-Alckmin.

7. Saiu-se até de forma divertida frente à casca de banana jogada por Bonner em relação às resistências – que só o perguntador vê – na militância do PT ao nome do ex-governador de São Paulo. “Bonner, nós não estamos vivendo no mesmo mundo”, “eu estou até com ciúmes do Alckmin de tanto que ele é aplaudido pela militância do PT”.

8. Não teve nenhuma cerimônia em dizer que “no Brasil partidos mesmo são o PT, o PCdoB, acho que o PSOL e o PSB”, o resto são legendas de conveniência, com as quais “eu vou ter que conversar” se tiverem representação, mas minha relação com o Congresso será republicana.

9. Na outra casca de banana (recessão do Governo Dilma) não deixou de abraçá-la, ”pessoa extraordinária a quem só agradeço pelo que fez no Gabinete Civil”, sem deixar de criticar iniciativas que julgou equivocadas. E que realmente foram. Após nova casca de banana, quando Bonner afirmou que Dilma não decidiu sozinha, mas junto com ele e o PT, saiu-se muito bem sem entrar na questão. “Bonner, um dia você vai deixar o Jornal Nacional e ver o que significa rei morto, rei posto”. Matou a discussão.

10. Não houve senões que prejudiquem Lula, seja à esquerda, seja à direita, seja ao centro. Conseguiu esclarecer cada ponto que lhe foi perguntado, não fugiu de nenhuma pergunta, manteve-se tranquilo e equilibrado mesmo tendo sido vítima do absurdo processo que sofreu e que o levou à cadeia por 580 dias. Se emocionou não quando falou das injustiças que sofreu, mas quando falou do povo e suas necessidades.

11. Faltou alguma coisa? Sim, a meu ver faltou. Faltou Lula explicitar mais claramente a responsabilidade da Globo, de Bonner, do Jornal Nacional e de grande parte da mídia corporativa não apenas por tudo que ele passou com a Lava Jato, incluindo a maneira parcial das coberturas, o fechamento de olhos para as ilegalidades todas, a criação de um antipetismo exacerbado em boa parte da sociedade, que não só o retiraram da disputa de 2018 como jogaram o país nas mãos de um governo fascistóide.

Ocorre que Lula não é Tchê Guevara, não é Fidel, nunca se disse um líder revolucionário anticapitalista. Lula é Lula. Ele compõe, tem a maior dificuldade de flexionar o verbo “romper”. E se não há um quadro no campo da esquerda capaz de encantar e mobilizar nosso povo como só ele é capaz, é Lula a opção mais viável para superarmos esta fase trágica de nossa história. Será um governo em disputa? Sim, será, de novo, como foram os anteriores.

As mudanças realmente estruturais que o Brasil necessita há 500 anos virão? Não, a não ser que – como ensinam os clássicos – a sociedade e em particular os trabalhadores estejam organizados e mobilizados para tal. É a tal luta de classes. Por isso, não tenho nenhuma dúvida com quem devemos marchar em 2 de outubro para que as condições sejam mais favoráveis à criação de uma conjuntura que abra um caminho para isso. Levantemos o segundo pé de Lula e coloquemos o Homem lá. Se possível no primeiro turno.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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