Justiça censura reportagem que denunciava agente de saúde vendendo ouro ilegal do garimpo em RR

Parte da reportagem foi substituída por um quadrado preto com a ordem judicial; a Repórter Brasil não foi ouvida

Martha RaquelBrasil de Fato | São Paulo (SP) |  20 de Julho de 2021 às 13:40

Trecho da reportagem foi substituído por um quadrado preto com o número da decisão cautelar – Reprodução /Divulgação

Parte de uma reportagem que denunciava a troca de vacinas por ouro em Boa Vista, capital de Roraima, foi retirada do ar do site Repórter Brasil após decisão do juiz Air Marin Junior, do 2º Juizado Cível de Boa Vista (RR). 

A liminar concedida pelo juiz determinou censura do texto sem decisão transitada em julgado e sem nenhuma audiência para ouvir a Repórter Brasil. 

‘Compro tudo’: ouro Yanomami é vendido livremente na rua do Ouro, em Boa Vista” foi produzida pela Amazônia Real, em parceria com a Repórter Brasil, e publicada em 24 de junho deste ano em ambos os sites. 

A decisão atendeu ao pedido de uma das citadas na reportagem, Thatyana Almeida, funcionária da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), flagrada vendendo ouro de forma ilegal na Rua do Ouro em Boa Vista,.

A reportagem de Maria Fernanda Ribeiro e Clara Britto, da Amazônia Real, detalhava a venda do minério e ainda trazia informações sobre o trabalho da agente de saúde em relação à vacinação dos Yanomami contra a covid-19. Agora um quadrado preto com a decisão ocupa o espaço do texto. 

A agente de saúde foi procurada por três dias, por diferentes canais de comunicação, e não respondeu às tentativas de contato. Em seguida suas redes sociais foram deletadas. 

Segundo a Repórter Brasil, a reportagem também enviou mensagem pelo WhatsApp, e a servidora se negou a esclarecer as questões e respondeu com ameaça de processo aos jornalistas.

::STF ordena que União garanta segurança de Yanomamis sob ataque do Garimpo em Roraima::

Após a publicação da reportagem, o Ministério Público Federal abriu investigação para apurar as possíveis ligações da autora da ação judicial com o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. O resultado poderá ser encaminhado à Polícia Federal com pedido de abertura de inquérito.

A censura fere a liberdade de imprensa, premissa do Estado democrático prevista no artigo 5°, inciso IX da Constituição. Além disso, o artigo 220 da Constituição determina que “nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social”. 

Veja abaixo o trecho retirado: 

“Poucos minutos depois, ainda dentro da loja Opalo, uma mulher, vestindo uma máscara de proteção com o logotipo da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), entrou e fez a mesma pergunta. O lojista Suarez voltou a confirmar que “comprava tudo.” A porta continuava trancada. Deixamos o estabelecimento, mas continuamos a acompanhar a movimentação pelo lado de fora. 

A mulher, identificada como sendo a fisioterapeuta Thatyana Almeida, deixou o carro ligado, com os faróis acesos e sem estacionar – distante da guia –   enquanto permanecia na loja Opalo. Instantes depois, ela saiu da joalheria, pegou um pacote no porta-luvas e entrou novamente.

::Lideranças Yanomami relatam a rotina de medo após ataques de garimpeiros ilegais::

A reportagem identificou a funcionária da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, por meio da placa do carro em que ela chegou dirigindo, uma Corolla preto placa NOY-1G90 registrado no nome de um familiar dela. O mesmo veículo aparece em uma postagem na rede social de Thatyana em 23 de dezembro de 2020. 

Numa rede social, a fisioterapeuta informa que trabalha como enfermeira na Sesai desde 2016. Em postagem de 12 de abril, ela aparece em fotos com os Yanomami aplicando vacinas, com a legenda “15 dias de missão, só tenho a agradecer a Deus pelo meu trabalho realizado com êxito e sempre cuidando e fazendo o meu melhor para aqueles que mas (sic) necessitam o povo indígena. Povo Yanomami”. 


Thatyana Almeida em imagem da sua rede social aplicando vacinação nos indígenas / Reprodução /Facebook

A troca de vacina por ouro por funcionários da Sesai já foi alvo de denúncia pela Hutukara Associação Yanomami ao Ministério Público Federal. Em abril, lideranças no território informaram que doses de vacina estariam sendo vendidas a garimpeiros em troca de ouro. A Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Povos Indígenas também denunciou o caso para a CPI da Covid.

Thatyana Almeida foi procurada pela reportagem por telefone e pela rede social. O telefone dela caiu na caixa postal durante os três dias em que a reportagem tentou contato. Após envio de mensagem pela rede social por mensagem particular, ela apagou o perfil. A reportagem também enviou mensagem pelo Whatsapp, mas não obteve resposta.

O Ministério da Saúde informou, via assessoria de imprensa, que vai apurar o caso e está à disposição das autoridades para prestar todas as informações necessárias.

Sobre as investigações de troca de vacina por ouro denunciada pela Associação Hutukara, o Ministério Público Federal informou que o órgão ‘oficiou os Dseis (Distrito Sanitário Especial Indígena), fizemos reunião com os órgãos envolvidos e marcamos outra reunião para o dia 28 de junho para tratar destas questões na TI’.”

Reportagem completa

A Justiça determinou a censura do trecho somente ao site Repórter Brasil e a reportagem completa pode ser lida no site Amazônia Real clicando aqui

A reportagem, que faz parte da série Ouro do Sangue Yanomami, denuncia a aquisição ilegal de ouro extraído da Terra Indígena Yanomami por dezenas de pequenas ‘joalherias’ que ficam na Rua do Ouro, em Boa Vista, na capital de Roraima. 

Parceria entre Amazônia Real e Repórter Brasil, a série traz sete reportagens que mostram o caminho do ouro, da extração ilegal que devasta a Terra Indígena Yanomami até sua transformação em joias de luxo. Entre um ponto e outro, foram reveladas as empresas que estão lucrando com o garimpo ilegal, os políticos que apoiam essa atividade, a relação com o crime organizado e o contexto histórico por trás das invasões. 

Edição: Rebeca Cavalcante

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Cadê a água limpa e livre que tinha lá?

Há muitos anos, amanheci de pesadelo, onde alguém faria Kararaô, hoje chamada hidrelétrica Belo Monte, sonho ruim. Tenotã-mõ*. Sonhara com a presidenta Dilma, à época

>