José Murilo de Carvalho, historiador da pátria

Foto: Arquivo/ABL

Por Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História da Universidade Federal da Bahia

“A pátria traja de luto a morte de seu historiador”. Assim, Capistrano de Abreu começou o seu necrológio de Francisco Adolfo de Varnhagen, publicado no “Jornal do Comércio” em 1878. Penso que essa seria, também, uma boa forma de iniciar o obituário de José Murilo de Carvalho, morto no último dia 13.

Ocupando a 5° cadeira da Academia Brasileira de Letras desde 2004, José Murilo de Carvalho está entre os intelectuais que integram o seleto grupo dos “historiadores da pátria”. Pois sim, tal como Varnhagen, Murilo foi cânone em vida. A relação entre os dois não para por aí: se Varnhagen ajudou a criar as instituições do Estado nacional brasileiro, José Murilo foi quem melhor contou essa história.

Como na primeira metade do século XIX foi possível a fundação de uma Monarquia continental na América de língua portuguesa, enquanto a América espanhola se fragmentava em dezenas de Repúblicas independentes entre si?

Como a República brasileira tentou se legitimar simbolicamente na transição do século XIX para o século XX?

Qual é a dinâmica das relações entre os militares e a política ao longo da história do Brasil?

Quais são os impasses e limites que envolvem a construção da cidadania do Brasil?

Essas são as principais questões que atravessam a vasta obra de José Murilo de Carvalho, cuja leitura é fundamental para qualquer brasileiro que almeje um mínimo de letramento histórico, fundamental para mediar nossa relação com a realidade nacional.

Assim como aconteceu com Varnhagen, também sobre José Murilo de Carvalho recai a pecha de “conservador”, termo que costuma ter significado pejorativo, ao menos junto à comunidade letrada progressista. A trajetória política e intelectual de José Murilo de Carvalho e o atual momento da história do Brasil nos convidam a pensar o conservadorismo em outros termos.

Iniciei meus estudos na graduação em História da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2005, quando Murilo integrava o corpo docente do curso. Sua imagem despertava sentimentos ambíguos.
Era o “imortal” sempre austero, trajando ternos de fino corte. Poucas palavras, discreto. “Monarquista” e “conservador”, diziam os detratores, em função de sua manifestação na ocasião do plebiscito de 1993.

Ao mesmo tempo, as vagas em suas turmas eram disputadas quase no tapa. Lembro bem as madrugadas que fiquei diante da tela do computador, com internet discada, esperando abrir o sistema da universidade para garantir um lugar nas diversas versões da disciplina “Pensamento Social Brasileiro” oferecida pelo “Zé Murilo”, como era chamado nos corredores do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS.

José Murilo era notório crítico da República brasileira, que, segundo ele, padeceria de um “pecado original”, como formulou em livro publicado em 2017, e que alcançou grande sucesso no mercado editorial. No momento em que a “Nova República” instituída pela Constituição de 1988 estava em colapso, José Murilo disse que “a ausência do povo, eis o pecado original da República. Esse pecado deixou marcas profundas na vida política do país”.

A tese já tinha sido elaborada nos livros “Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”, de 1987, e “A formação das almas: o imaginário da República no Brasil”, de 1990.

Sim, Murilo de Carvalho conta a história da República brasileira na chave da ausência e da falha. A República teria nascido justamente no momento de maior popularidade da Monarquia, em virtude da abolição da escravidão, restringindo a participação do povo na política. A fonte do argumento está no final do século XIX, no escritor e polemista político paulista Eduardo Prado (1860-1901), que na década de 1890 saiu em ataque à República e levantou a bandeira da restauração monárquica. Prado esteve entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 40. Em eventos na ABL, José Murilo de Carvalho discutiu a obra de Eduardo Prado, que conhecia como poucos.

Pois bem, não seria inadequado situar José Murilo de Carvalho na história do pensamento político conservador brasileiro, onde também estão Varnhagen, Eduardo Prado e tantos outros. Mas precisamos ter algum cuidado na valoração do termo, pois ser conservador no Brasil tem significados distintos ao longo da tempo.

Para as gerações de Varnhagen e Eduardo Prado, “conservar” significava defender a institucionalidade fundada no trabalho escravo. Capistrano de Abreu fez essa denúncia no curioso obituário que escreveu em “homenagem” a Varnhagen.

Capistrano não se fez de rogado em criticar contundentemente o morto, acusando-o de “severo e prevenido” em relação aos “ensaios de afirmação nacional que por vezes percorriam as fibras populares”. Varnhagen, diz Capistrano, “não teria hesitado em assinar a mesma sentença que levou à forca Tiradentes e Gonzaga”.

O conservadorismo de José Murilo de Carvalho é outro. Trata-se de se posicionar sempre de forma cautelosa em relação às rupturas drásticas, que prometendo avanços não raro entregam retrocessos, na forma de autoritarismo e violência política.

As advertências conservadoras do professor Murilo são ainda mais pertinentes no Brasil dos nossos dias, quando o discurso da ruptura político/institucional foi apropriado pela extrema direita. No país em que o bolsonarismo se tornou o projeto revolucionário hegemônico, conservar a institucionalidade democrática é um imperativo ético.

Que nos mantenhamos, então, firmes na conservação, pelos menos até o momento em que volte a ser possível imaginar o futuro em outros termos. Através de seus textos, a voz de Zé Murilo continuará ressonando em nossos ouvidos, sempre recomendando cautela e prudência. É que o professor é imortal.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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