Jequitinhonha atravessada por uma de suas filhas, Katarina Lima Flor

Ensaio: Projeto Futuro do Presente #152 – Katarina Lima Flor: Para Jequitinhonha se Vai na Canoa do Tempo
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Para Jequitinhonha se Vai na Canoa do Tempo

Jequitinhonha. Nossa viagem no tempo acontece em pouco mais de 22 horas de trajeto. É possível sentir o deslocamento da realidade, logo que se sobem os velhos degraus do ônibus, quase sempre embolorado e poeirento. Guardo a bagagem, tomo meu lugar e em 1200 km de estrada se viaja de um século para outro.

O embarque é o primeiro movimento. O tempo se transpõe porque minha vida adulta teve início no estado de São Paulo, onde moro há 10 anos e me apresento com nome e sobrenome. Quando criança, no entanto, fui ensinada a contar quem sou dizendo de quem vim. A cápsula se abre quando alguém pergunta: “Ô fia, cê é de quem?” e encontro a criança em mim, filha de Chica e Pedro de Rosa, neta de Antônio Jorge, bebedor de café de nome conhecido em qualquer comunidade, pelos antigos e até pelos mais novos.

A voz que pergunta não soa como a de um estranho. Existem nos sons uma acolhida mútua, uma sensação de pertencimento, de gente que entende da mesma saudade de casa, do falar arrastado, sertanejo. É saudade da família, da comida e da terra. Ali mesmo reencontramos amigos, outros migrantes em tempo de retorno e entre risos de conhecidos e desconhecidos, conversamos todos até concluir que em algum grau, somos parentes, temos antepassados ou primos comuns e, portanto, estamos entrelaçados pelas histórias de nossas histórias.

Anoitecemos em trânsito e despertamos nos morros pedregosos da Diamantina. Pela janela, os vestígios da urbanidade se escasseiam à medida que o carro avança. Agora, a cidade dá lugar a vegetação retorcida das matas, ora de cerrado, ora caatinga. Quando o asfalto fica para trás e sinto o cheiro de terra é que realmente me sinto em casa. Observo a distância entre as casinhas de rodagem se tornar maior, algumas quase inacessíveis e sem vizinhos. Vejo os bezerros pastando tranquilos e a poeira de terra vermelha pesando as folhas das árvores. Não há lugar que seja como é Jequitinhonha.

Seria injusto dizer que o Vale parou no tempo, mas ali ele correu tão diferente que o presente, ao invés de mandar e-mail, beija o século XVIII na face. Os carros próprios ainda são poucos. O mais comum é ir de uma comunidade a outra nas caminhonetes que fazem a vez de ônibus, de moto, a cavalo, ou a pé pelas veredas.

As casas ficam de portas e janelas abertas e em qualquer uma se pode parar para pedir sombra e café – das miúdas, como da minha avó paterna, com chão de barro e paredes de pau-a-pique, até casarões de arquitetura simples, com os tetos tingidos de preto pelos fogões a lenha. Casarões cujo número de cômodos tentava alcançar o de filhos. Da minha avó nasceram 14 vivos, que dividiam quartos com camas de beliche fabricadas por vovô, numa época em que não existia motosserra e a madeira era talhada à mão pelos homens que trabalhavam na serraria.

A pobreza é uma realidade dura, enfrentada pela maioria das famílias. Os homens seguem migrando para o corte de cana, ou para as colheitas de laranja e café, em regiões mais distantes de Minas ou para a Bahia, interior de São Paulo e Mato Grosso do Sul. São os chamados “bóias-frias”, que deixam no Jequitinhonha seus filhos e suas mulheres, as “Viúvas da Seca”, ou “Viúvas de Marido Vivo”. Dentre os migrantes, meu pai, e dentre as viúvas da seca, minha mãe.

E por falar em seca, a água é escassa e em muitas casas não se tem nem pra beber. O semiárido mineiro experimenta ainda mais aridez diante do aumento das plantações de eucalipto, que devastam o que resta da vegetação nativa e dá lugar a um deserto verde e estiado.

Apesar disso, o Jequitinhonha é bonito. O Jequitinhonha é bonito apesar de tudo, porque a natureza é exuberante, o povo é bom. O povo é forte e trabalhador, o povo cumprimenta quem passa na rua e se tem pra dividir, divide mesmo quando é pouco. Mas a beleza redime a fome, a miséria nos quilombos? A felicidade do povo redime a pobreza?

O maior lapso temporal, a maior distância entre “Jequi” e o mundo, não é da quilometragem que nos separa dos grandes centros urbanos, são as ausências. E as ausências, por mais bonito que o Vale seja, são muitas. O tempo parou nos quilombos, nos córregos onde há casas que continuam sem banheiros e à luz de lamparinas. Os filhos ainda crescem carentes dos pais migrantes, porque não há emprego que os permita voltar pra casa no fim do dia. O trabalho é precariamente remunerado, quase sempre braçal e em moldes nos quais domésticas e empregados de pequenos comércios raramente recebem salários justos ou têm assegurados seus direitos a registro em carteira e seguridade social.

Ainda assim, Jequitinhonha é tão bonito que se trabalha sorrindo. É vivo como as cantigas de roda que minhas tias cantam, como os versos ditando o ritmo na roça, no forno de torrar farinha, no tear manual a tecer colchas de algodão, que são adornadas com ricos bordados, ensinados de geração em geração, desde que a região foi colonizada, 75 anos depois do descobrimento do Brasil.

De lá, saíram toneladas de ouro e de diamante para a Coroa Portuguesa. De lá, minas tão prolíficas que financiaram a Revolução Industrial. Ironicamente, no Vale do Jequitinhonha, até hoje, quase tudo o que se produz é manufaturado. No mundo em que nanomedidas já estão se tornando obsoletas por serem grandes demais, nós socamos urucum no pilão e comemos carne de sol, carne seca na fumaça e guardada na banha, como faziam os tropeiros.

Nossa simplicidade não nos envergonha – vergonha temos dos governos que, se não esqueceram do Jequitinhonha, foi porque sequer se dispuseram a conhecê-lo. De certa forma, conservamos a crença na solidariedade, crescemos sob o ensinamento de que somos membros integrantes de nossas comunidades e, por isso, temos a responsabilidade de preservar nossas tradições, responsabilidade essa que inclui toda a manufatura, o artesanato, as histórias das lavadeiras, dos canoeiros e dos tropeiros, de nossos avós e bisavós, de nossos nomes e sobrenomes, do suor das roças que nos proveram sustento, das pedras levadas aos pés da cruz em penitência na estiagem, do nosso sangue mestiço e da terra que é nossa.

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Minibio Katarina Lima Flor

Katarina Lima Flor é atriz, designer, fotógrafa e pintora. Designer e Administradora Pública – Unesp por formação, aproximou-se do universo das artes durante os estudos. Trabalhou com produção de desfiles e figurinos para diversos eventos. Fundou em 2016 o Catanza Grupo Teatral, projeto de extensão vinculado à Unesp e beneficiado financeiramente pelo Banco Santander, dedicado a levar aulas de teatro, integrando a comunidade externa à acadêmica. Expos trabalhos fotográficos em exposições coletivas na cidade de Araraquara-SP e recentemente foi publicada pelo Catálogo Virtual da Vogue Itália. Jequitinhonhense, encontra nas pessoas sua maior paixão e tem como propósito de vida defender o Brasil com S.

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Para conhecer mais o trabalho da artista

https://www.instagram.com/katarina_lima_flor/

https://linktr.ee/Katarina_lima_flor/

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O projeto Futuro do Presente, Presente do Futuro é um projeto dos Jornalistas Livres, a partir de uma ideia do artista e jornalista livre Sato do Brasil. Um espaço de ensaios fotográficos e imagéticos sobre esses tempos de pandemia, vividos sob o signo abissal de um governo inumanista onde começamos a vislumbrar um porvir desconhecido, isolado, estranho mas também louco e visionário. Nessa fresta de tempo, convidamos os criadores das imagens de nosso tempo, trazer seus ensaios, seus pensamentos de mundo, suas críticas, recriar seus sonhos, sua visão da vida. Quem quiser participar, conversamos. Vamos nessa! Trazer um respiro nesse isolamento precário de abraços e encontros. Podem ser imagens revistas de um tempo de memória, de quintal, de rua, documentação desses dias de novas relações, essenciais, uma ideia do que teremos daqui pra frente. Uma fresta entre passado, futuro e presente. Um universo.

Outros ensaios deste projeto: https://jornalistaslivres.org/?s=futuro+do+presente

COMENTÁRIOS

  • Parabéns pelo texto e pelo projeto. Um nicho econômico que vejo para a região do Vale do Jequitinhonha é o turismo cultural. É uma região tão cheia de tradições e peculiaridades… Infelizmente só reconhece quem conviveu com o diferente e estranhou ou percebeu o estranhamento do outro. O turismo alí potencializaria a economia e desenvolvimento local ao mesmo tempo que conservaria e valorizaria o tradicional, o jeito comunitário e solícito, os artesanatos e manufaturados, as histórias e os causos.

  • Observação ao escritor:
    – Se escreve Cerrado e não serrado.
    – Pesquisas já mostram que o eucalipto não é o bicho papão da água. Existem outras culturas que consomem tanto ou mais. Como qualquer monocultura que cresce toda de uma vez (ao mesmo tempo) requer sim uma quantidade de água ao mesmo tempo durante seu crescimento, mas o principal problema é o manejo inadequado do solo e da cultura, muitas vezes sem nenhum profissional para dar acessoria.
    – Tenho pensado como seria uma trilha de longo percurso pelo Vale do Jequitinhonha (vide Sistema Brasileiro de Trilhas). A região também tem muitos pássaros que poderiam atrair quem gosta de Bird Whatching.
    – Mais uma vez, parabéns pelo texto e pelas belíssimas imagens.

  • Sou carioca!morando em Itaobim,no vale do jequitinhonha,por acaso me deparei com essa obra prima escrita por ti,me sinto parte dessa história à 13 anos!

  • Me emocionei com a escrita. Tenho 26 anos, nasci em Itinga/Araçuaí e nunca morei aí mas estou sempre indo visitar, a vida toda. Me vejo nesse relato. “Fia de quem?”. Vejo essa casinha e sinto que já passei por ela. Vejo esse senhor com uma camisa social aberta, calça com a barra dobrada e pra completar um chinelo que ja caminhou muito por essa terra quente, sinto que ele poderia mesmo ser meu parente. Vejo essa mulher, com lenço na cabeça e pano de prato no ombro, na beira do fogão a lenha e consigo sentir o cheiro do café. Vejo esse tanque com um espelho na frente e consigo imaginar aquele pequeno espelho laranja que ficava ali antes, consigo ver esse homem indo lavar as mãos e o rosto para se refrescar, e vendo pelo espelho sua pele com marcas do sol de todo dia. Seja pela parede de barro ou o cachorro que sempre está por perto da gente, olhando essas fotos eu sinto que o vale do jequitinhonha vive e sobrevive.

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