Impactos da pandemia nos Centros de Atenção Psicossociais

As dificuldades do trabalho dos CAPS em meio à pandemia de covid-19

Por Carolina de Mendonça e Luisa Lins*

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), são serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com a função de oferecer cuidados de ordem psicológica e social de usuários do SUS. O modelo foi criado no final da década de 1980 a fim de substituir os antigos manicômios, atuando com o cuidado em território e liberdade, com foco na socialização do sujeito na comunidade que vive.

A estudante de psicologia na UFRJ e estagiária do CAPS III Clarice Lispector, na cidade do Rio de Janeiro, Isabela Pessoa, explicitou que os CAPS se dividem de acordo com o número de habitantes da região e modalidades, podendo ser CAPS I, II ou III de acordo com o número de habitantes e horário de funcionamento do serviço, além de especificidades como CAPS AD (álcool e outras drogas) e CAPSi (público infanto-juvenil).

O usuário que utiliza o serviço constrói junto à equipe um Plano Terapêutico Singular (PTS). Para Taís Fernandina Queiroz, que durante 17 anos atuou como psicóloga do CAPS AD Primavera (Aracaju – SE), até início desse ano e é mestre em saúde coletiva, relatou a importância do PTS para compreender as necessidades do usuário junto ao serviço, que pode ser intensivo, semi-intensivo ou não-intensivo: “O intensivo seria quando ele está realmente necessitando permanecer muitos turnos no serviço. O semi-intensivo é quando ele está mais estabilizado e a precisão de estar no local se torna menor. O não intensivo é aquela pessoa que está num quadro mais estável, está bem, que já tem um pouco mais de autonomia”.

Com a função de socialização, os CAPS costumavam ter trabalhos grupais, como oficinas com os mais diversos temas e especificidades, como crochê, de literatura, de dança e pintura; terapias em grupos e projetos junto à comunidade. Em CAPS com funcionamento 24h também eram servidos refeições para usuários e possibilidade de acolhimento noturno.

Por se tratar de um espaço “portas abertas”, qualquer sujeito com interesse pode ir até o local e será acolhido e avaliado, sem precisar de um encaminhamento de algum outro serviço. Entretanto, nesse momento foi preciso modificar algumas dinâmicas para evitar aglomerações.

As dificuldades do trabalho do CAPS em meio à pandemia

Em 30 de janeiro de 2020 o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, decretou estado de emergência de saúde pública de interesse internacional. O primeiro caso da infecção de covid-19 no Brasil foi identificado no final de fevereiro do mesmo ano e em março foi decretada pandemia pela OMS. No mesmo mês os estados brasileiros passaram a decretar medidas emergenciais de distanciamento social para evitar o contágio. A necessidade de isolamento modificou as rotinas nos CAPS.

Segundo a professora de dança, Cássia Charrison, que também é pós-graduada em dança contemporânea e professora de dança no CAPS II Rubens Corrêa (Rio de Janeiro), no momento anterior à pandemia trabalhava utilizando dos movimentos na dança para exercitar corporeidade em usuários de serviço de saúde mental, disse em entrevista sobre as dificuldades: “Uma delas foi estar no convívio deslocado, ter as atividades reduzidas. Fiquei trabalhando de casa, porque eu tenho problemas respiratórios, 69 anos, imunidade baixa. O que eu percebi através do discurso da equipe é que a maior dificuldade foi a ausência de atividades, porque ela implica em aglomerar e isso não é possível.”

Essa questão de estar próximo fisicamente e das atividades em grupos foi trazida também por Tais Queiroz: “A gente trabalha com contato, com o encontro, com escuta, socialização. São nossos pilares e não são possíveis no momento. Considero que temos uma grande perda com isso, um grande rompimento”, afirmou. No CAPS III Clarice Lispector, Isabela Pessoa contou que não há mais grupos terapêuticos e as oficinas estão em mau funcionamento: “O que mais acontece são atendimentos individuais, com o familiar do paciente ou com o paciente.”

Reestruturação dos serviços diante as condições sanitárias

Diante das mudanças ocorridas nos serviços para evitar contágio do vírus do COVID-19, houve a necessidade de recriar as formas de atuação dentro do CAPS, diante da falta de certos equipamentos, como telefones celulares e computadores. Algumas pessoas da equipe desses serviços precisaram trabalhar de forma remota por serem de grupo de risco, como é o caso de Cássia. “Eu não continuei a trabalhar, ficou impossível, apesar de eu me comunicar por videochamada, a gente não teria como fazer dança. Não tem no CAPS aparelho para dar aula, e eu ofereci em alguns momentos dar supervisão para trabalhar o corpo da equipe, mas isso não se efetivou”, disse a professora de dança que acrescentou as dificuldades quanto ao uso de aparelhos próprios para o serviço remoto.

No CAPS III Primavera (Aracaju), Taís Queiroz atuou como psicóloga no período pandêmico e se reorganizou desde o PTS dos usuários de forma que passassem o mínimo de tempo no serviço e tivesse a quantidade mínima de pessoas no local ao mesmo momento, com o intuito de respeitar os protocolos sanitários.

Uma outra questão abordada por Taís Queiroz foi o uso das tecnologias como forma de reconstruir as maneiras de atuação no serviço: “Usamos muito trabalho remoto, como ligação e chamada de vídeo.” O atendimento presencial também se reestruturou, passando a acontecer por agendamento a fim de evitar aglomerações no espaço no contexto pandêmico. 

(*) Carolina de Mendonça, graduanda em Psicologia, colunista na Revista Badaró, colaboradora na Frente Ampliada em Defesa da Saúde Mental (FASM). Luisa Lins, jornalista, envolvida com temáticas relacionadas a direitos humanos e colaboradora da FASM.

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