Glenn Greenwald desafia Moro e Bolsonaro: “Não vou deixar o Brasil”

Em ato na Associação Brasileira de Imprensa, dono do site The Intercept defendeu direitos constitucionais à liberdade de imprensa e ao sigilo da fonte. Agência Saiba Mais cobriu evento na ABI

Por Rayanne Azevedo I Agência Saiba Mais
Foto: Paula Consenza

Coordenador da equipe de jornalistas responsável pela série de reportagens batizada de “Vaza Jato”, pelo qual vem sendo atacado pelo governo Bolsonaro e por apoiadores do presidente, o jornalista norte-americano e fundador do site The Intercept Glenn Greenwald foi prestigiado na noite desta terça (30), na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, num auditório lotado às centenas por pessoas que se acotovelaram para ouví-lo e dirigir-lhe palavras de apoio — entre elas celebridades como Chico Buarque, Wagner Moura e Camila Pitanga. Parlamentares, intelectuais de esquerda e representantes da sociedade civil engrossavam a plateia.

Emocionado e acompanhado do marido, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) e dos dois filhos adotivos do casal, Greenwald fez um discurso em defesa da comunidade LGBTI e afirmou que não pretende deixar o Brasil.

“Não vou deixar o Brasil, não vou fugir para os EUA ou Europa. Não me importa se vão mandar a polícia, se o Moro diz que não sou jornalista. Eu vou ficar”, disse Greenwald.

Ao justificar a decisão, ele citou os filhos, a morte da vereadora Marielle Franco em março de 2018 e a luta pela democracia – algo, segundo ele, somente possível com uma imprensa livre.

O ato em solidariedade a Greenwald durou mais de três horas e foi organizado pela ABI em defesa do exercício profissional do jornalismo, da liberdade de informar e do sigilo da fonte.

O The Intercept publica desde o início de junho uma série de reportagens baseadas em conversas privadas atribuídas aos procuradores da Operação Lava Jato e ao então juiz federal encarregado dos processos do caso, hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro. Os diálogos, segundo o site, foram entregues por uma fonte anônima. O conteúdo foi compartilhado com outros veículos de imprensa, como a Folha, a Veja e o blogueiro Reinaldo Azevedo, do UOL, que atestaram a veracidade de ao menos parte do material.

A apuração do The Intercept dá conta de que Sérgio Moro extrapolou suas atribuições enquanto juiz da Lava Jato e interferiu nas investigações, o que é vedado por lei e poderia comprometer a operação.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), gravou um vídeo em apoio ao jornalista norte-americano, que foi exibido no evento. Nele, Maia afirma que o jornalista que divulga informações, ainda que repassadas por fonte que as tenha obtido por meios ilegais, tem o direito de informar protegido pela Constituição. No final da noite, Maia reafirmou seu apoio a Greenwald via Twitter: “Sou a favor da liberdade de imprensa em qualquer circustância e defendo o sigilo da fonte”. O pai de Maia, o também político César Maia, foi preso e exilado durante o período militar.

Saiba Mais: Como e por que o Intercept está publicando chats privados sobre a lava jato e Sérgio Moro

Auditório da Associação Brasileira de Imprensa ficou lotado para receber Glenn Greendwald (foto: Paula Consenza)

Greenwald, que antes do evento concedeu entrevista coletiva, criticou Moro e defendeu seu afastamento do Ministério da Justiça. Na última sexta (26), Moro assinou uma portaria que autoriza a deportação sumária de estrangeiros considerados “perigosos”, no que foi interpretado como um revide à atuação do The Intercept. Ao comentar o caso, Bolsonaro disse que Greenwald era “malandro” por ter se casado com um brasileiro e adotado dois filhos brasileiros, e que por isso não seria atingido pela portaria: “talvez pegue uma cana aqui no Brasil”. Por quais motivos isso ocorreria, Bolsonaro não esclareceu.

“A força-tarefa da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro conseguiu fazer todo o seu trabalho nas sombras, sem transparência nenhuma. Qualquer humano que pode exercer poder sem transparência, sem investigação, vai abusar desse poder”,afirmou Greenwald: “O principal alvo das nossas reportagens é o ministro Sérgio Moro. O mesmo ministro está comandando a investigação, a Polícia Federal, está nos investigando. Como isso pode ser aceitável numa democracia? Como pode haver um partido que ache isso aceitável, que Sérgio Moro não seja afastado dessa investigação? Obviamente a PF é controlada por Moro, por causa disso a PF não tem interesse nenhum em investigar os crimes que Moro talvez possa ter cometido, eles estão só investigando aqueles que revelaram os crimes deles.

Na terça-feira anterior (23), a PF cumpriu quatro mandados de prisão temporária e sete de busca e apreensão contra um grupo suspeito de envolvimento na invasão dos celulares de Moro e procuradores da Lava Jato.

Os mandados foram cumpridos em São Paulo, Ribeirão Preto e Araraquara, onde foi preso Walter Delgatti Neto e mais três acusados de integrar o grupo. Ele confessou ter vazado conversas do Telegram das autoridades para Greenwald de forma anônima, voluntária e sem cobrança financeira. A ex-deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) intermediou o contato do hacker com o jornalista.

Outro motivo de críticas durante o evento foi um comentário de Bolsonaro endereçado ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. O pai dele, Fernando Santa Cruz, desapareceu em 1974 durante a ditadura militar. O ex-delegado do DOPS Sérgio Guerra chegou a dizer à Comissão da Verdade que Santa Cruz foi torturado, morto e teve o corpo incinerado numa usina de açúcar, no Rio de Janeiro. O destino do pai de Felipe, segundo o presidente da República, teria sido diferente. A fala foi repudiada pelos presentes, entre eles o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ). O ator Wagner Moura pediu respeito à memória das vítimas da ditadura:

“Moro e Bolsonaro não entendem como o jornalismo funciona, e eu não falo isso para insultar eles. Eles não percebem que o jornalismo mais importante nas últimas décadas foi feito com fontes que conseguiram obter documentos ilegalmente e passaram essa informação, contra a lei, para os jornalistas”, afirmou, citando casos célebres como o pentagon papers e os vazamentos de Edward Snowden, ex-agente da NSA, a agência de inteligência norte-americano, que revelou milhares de casos de espionagem:

É muito comum que jornalistas possam reportar porque nossas fontes divulgam informações ilegalmente, e talvez essa fonte está quebrando a lei, cometendo um crime, mas em nenhuma democracia é considerado que um jornalista que está reportando informações está cometendo um crime”, disse Greenwald.

O jornalista também mencionou ameaças que prejudicam o trabalho de sua equipe: “A maioria das reportagens não é feita por mim. Às vezes [os jornalistas do Intercept] precisam fechar a redação por ameaças”, disse.

Do lado externo do auditório e na entrada do prédio, quem não conseguiu espaço para acompanhar o evento o fazia de fora, por telões e equipamentos de som. Ambulantes expunham uma vasta gama de produtos à venda, dos já manjados panos de chão com a estampa do rosto do Bolsonaro e adereços “Lula Livre” à camisas com o novíssimo trocadilho:

“ninglenn solta a mão de ninglenn”.

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