Meu sono perdeu-se certa madrugada dessas. Não sei muito porque sonhamos de repente com imagens diversas e formas longínquas. Tive um sonho nesta semana, entre imagens de  obra de Tomie Ohtake e imagens de grandes cabeças de pedra em templo na Turquia. Despertei intrigado e fui querer entender os signos contidos ali.

Descubro e dasafia-se. Se ainda continuasse a renovar as cidades com suas obras públicas, Tomie Ohtake faria 104 anos essa semana, ou nas paredes frias das salas de estar e escritórios burgueses, entre vidros, pendurassem ainda frescas cores e volumes revelados.

Eu era tão moço quando me perdera nas formas da juventude. Tomie Ohtake foi uma senha entre sendas em que eu buscava-me: a ausência da palavra no discurso vasto da imagem construída.  Conheci o nome da mulher em 1982, nem me recordo a notícia, em coluna de jornal que meu pai assinava no noroeste do Estado. Em 1988, já morando em São Paulo,  vi aquelas ondas coloridas de concreto, como  um mar revolto na avenida. Nunca esqueci, o inusitado me deslumbrou na cidade nova e infinita. Tomie Ohtake foi ali uma canoa, uma terceira margem nesse rio de aço que é hoje a avenida 23 de Maio. Tomie não paralisou o tráfego, vejo bem agora, mas escandalizou o tráfico das formas e cores na cidade. Ah, o rio de aço do tráfego, como dizia o poeta , uma flor ainda ilude a polícia.

Tomie Ohtake, artista de discreta personalidade e arte singular, continua a escandalizar a metrópole e os sonhos recentes, impondo sua cunha no reto olhar da cidade. Nada a lamentar na ausência dessa artista de vida e produção longas,  mas é oportuno sentir vazios entre o campo largo das vaidades ou futilidades dessas noites escuras de golpe e incertezas. A adorável senhora, após seus 101 anos, segue espalhada pela metrópole que gorjeia, de repente na madrugada afaga país afora.

 

No ano 2005 pude conhecê-la de fato. Alguns anos após, pude conduzir a instalação de uma escultura sua imensa à beira de um lago idealizado por Burle Marx, na cidade de Guaíra, no Estado de São Paulo. Fui entendendo, assim, que a arte pública é algo que corrói o vício dos olhos, desafia nosso lado obtuso do saber, de repente alerta nossos descuidos e entreveros. Urge ousar, saudoso sonho.

Onde e quando nasci não se via arte na rua, era um país nu em seus interiores ou amores por formas distintas, nem um pouco de graça se via entre as paredes, muros, portões particulares de nossos domínios. Arte pública, entendi, não é qualquer coisa que vai se colocando entre as esquinas da gente, mas deve ser algo assim como o desafio da  dúvida ou o êxtase de atitude insólita. Há de ser graça que se encaixa nos vazios da cidade e que invade, lentamente, o lamento dos homens, sua solidão e miséria. Tomie Ohtake veio de tão longe e tarde arriscou os primeiros traços, como é bem sabido. À nossa sopa, nosso angu de artes, adensou um sashimi tropical em tons e vertentes.

Na madrugada a mente misturou Medusa e Tomie. O desafio era atravessar a rua proibida do tráfego. Tudo instiga e revela um país que busca. Os homens perdem o sono entre arcaicas fomes, e mulheres desvelam-nos outra forma.

  • Imagens por Helio Carlos Mello©

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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