Feminismo ocidental não pode ditar regras pra mulheres muçulmanas

Entenda mais sobre a situação das mulheres no Afeganistão com o texto da professora Francirosy Campos Barbosa (USP).
Foto de Mahbooba Hazara @mahbooba_hazara

Os últimos dias têm sido intensos e nos atravessam por todos os lados com a situação vivida pelos afegãos. Na primeira vez que ouvi falar do Talibã eu era estudante de Mestrado de Antropologia da USP (1999-2001) e estava tentando aprender sobre Islam para minha pesquisa.

O Talibã é um grupo insurgente que se fortalece no período de 92-96 com a expulsão das tropas soviéticas do Afeganistão no país. Neste contexto, o Talibã surge em 1994, em um país devastado pela invasão soviética tendo como liderança obmulá Mohammed Omar.  A palavra talibã, em árabe, significa estudante, pois o grupo era formado por estudantes que viviam em campos de refugiados na fronteira com o Paquistão.

É importante compreender que neste período o Afeganistão, que havia sido devastado pelos estragos da dominação soviética, recebia apoio do Paquistão para começar a estabelecer as bases dessa “reconstrução”. Entretanto, apenas em 1996 o grupo se apossou da capital, Cabul. O que se viu nos anos seguintes foi a desolação para outros grupos étnicos do Afeganistão, que passaram a ser perseguidos, e a intolerância religiosa acompanhada de uma leitura literalista das fontes islâmicas, fazendo com que o grupo fosse temido ainda mais, sendo inclusive associado a Al Qaeda, que assumiu a autoria dos atentados às Torres Gêmeas nos EUA em 11 de setembro de 2001.

Esta associação levou a invasão americana ao país devido à “doutrina” Bush, que atribuía aos países “apoiadores do terrorismo” também objeto de suas ações. Houve uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que legitimou essa invasão e desta forma ocorreu a destituição completa do Talibã do poder, cujos membros tornaram-se refugiados nas fronteiras com o Paquistão.

Pensar na retomada deles agora é exercício importante que perpassa alguns pontos, e talvez o primeiro deles tenha relação com a ocupação americana e a exclusão dos Talibã do acordo de Bonn-2001 (cuja importância advém das medidas provisórias para restabelecer as instituições governamentais). Além disso, outro ponto seria a presença indesejável dos EUA, legitimada pela ONU.

Para muitos da sociedade afegã, mas também para seus vizinhos Paquistão, Irã, China e Tajiquistão, que foram os primeiros a cumprimentar os talibãs neste retorno, os EUA aparentemente parecem ter saído como perdedores. No entanto, é algo que não avento porque me parece um jogo de xadrez ainda em movimento, repleto de acordos que o tempo dirá se vão permanecer ou não.

O fato é que a tentativa de enfraquecer o Talibã não foi alcançada. Outro ponto a ser destacado é o fato de que alguns países que não têm proximidade com os EUA alimentaram este retorno dos talibãs, mas certamente isso deve ter uma moeda de troca, talvez uma roupagem de um grupo mais tolerante, moderado, ao contrário dos talibãs que exibiam suas armas e discursavam como se fossem religiosos que colocariam a moral e os bons costumes em nome do Islam.  

Muitas pessoas me perguntam se os talibãs praticam o Islam, a Sharia. Mais do que pensar se são ou não praticantes, é preciso pensá-los dentre do seu próprio contexto cultural e religioso. Entretanto, cabe refletir sobre o entendimento que temos sobre a Sharia.

A Sharia é um código de vida composto pelo Alcorão e a Sunnah do Profeta Muhammad (seus ensinamentos, seu comportamento, etc), e tem cinco objetivos (maqasid al-Sharia): a preservação da religião, da vida, do intelecto, da família/linhagem e da riqueza.  Segundo afirma Rabbani Faraz, linguisticamente, Sharia significa caminho, com a conotação de um caminho claro que leva até a água:

“Islamicamente, é usado para se referir às questões de religião que Deus legislou para seus servos (…) Assim como a água é vital para a vida humana, a clareza e a retidão da Sharia é o caminho para a vida das almas e mentes. Se Sharia significa o “caminho que leva às águas”, então as fontes religiosas podem ser consideradas como essa água que lava o fiel de seus erros, pecados”.

As ciências islâmicas ainda são compostas de cinco escolas de jurisprudência, uma xiita e quatro sunitas: Jafari, Hanbali, Maliki, Hanafi e Shafí’s. Cada escola têm abordagens e metodologias específicas para derivar a legislação, usando como fontes principais o Alcorão e as práticas do Profeta (que a paz e benção estejam sobre ele), e como fontes derivadas, o consenso jurídico (ijma’a) e a analogia jurídica (qiyas).

Mas como os grupos islâmicos fazem leitura e aplicação da Sharia? O professor Tariq Ramadan, neto de Hassan Al Banna, em seu livro “Le Génie de l´islam: inicitiation à ses fondements, sa spiritualité et son histoire” expõe que sunitas e xiitas têm cinco grandes tendências: 1) Literalistas, que leem as fontes sem considerar as perspectivas históricas e oferecem pouco lugar à razão; 2) Tradicionalistas, que vão considerar os estudiosos antigos; 3) Reformistas, que devem considerar a razão para compreensão dos textos, da Ijtihad  e das Ciências 4) Racionalistas, que afirmam que a razão deve se impor à autoridade dos textos e desenvolver um pensamento secularista; 5) Místicos, que fazem uma leitura pela inteligência do coração e se dedicam à purificação e liberdade do ser. 

É possível classificar os talibãs até 2001 como literalistas, todavia, com um componente de violência e opressão que não existe no Islam, mas que se tornou passível na leitura deles. O Talibã de hoje ainda é um mistério.

Tem-se percebido em redes sociais comentários islamofóbicos, que reduzem a questão do retorno do Talibã à vestimenta das mulheres, a barba e ao turbante dos homens. Não se trata de moralizar o que está acontecendo no Afeganistão, mas ter olhos mais concentrados nas ações efetivas do grupo.

Em 17 de agosto, eles se pronunciaram dizendo que haveria uma “anistia” às mulheres e que as pessoas poderiam voltar para suas casas em segurança.  Por isso, é bom dizer que tomaram o poder sem resistência. Há muita água para passar debaixo da ponte, mas é preciso urgentemente decolonizar o olhar que sempre vê as mulheres muçulmanas como pessoas sem agência, ou que não tenham seus movimentos feministas/mulheres.

A ideia de salvação das mulheres ainda persiste no pensamento ocidental. É preciso considerar que não é a roupa que vai definir mais ou menos a opressão, mas, sim, quando se tira o direito de (não) usá-la. É preciso tomar cuidado com suposições de algo que de fato ainda não aconteceu e que vêm gerando incômodos e perseguições aos praticantes da religião islâmica no Brasil. 

O feminismo branco ocidental não pode ditar as regras dos usos que mulheres muçulmanas fazem dos seus corpos e o modo que essas querem ser representadas. É preciso deixar que essas mulheres se manifestem, como já estão fazendo, e não impor nossas regras e costumes.  Neste momento estamos atentos aos próximos passos do Talibã como quem olha um tabuleiro e espera o movimento das peças.

Neste jogo em movimento é preciso olhar para a violência perpetrada pelos EUA em vários países islâmicos durante décadas, dominando contextos vulneráveis e estigmatizados pela mídia social.

A decolonização do olhar, do pensamento, é fundamental quando se pensa nessas mulheres e no modo de vida delas e deles. Se esses “novos” talibãs são literalistas ou não, é o que veremos. Por enquanto ainda temos apenas a vivência amarga de tempos passados e o sensacionalismo das imagens que nos chegam.

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